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sábado, 9 de fevereiro de 2019

O PROBLEMA DE ENSINAR FILOSOFIA EM TEMPOS DE ESCOLA SEM PARTIDO




Os ataques sofridos pela filosofia desde suas origens até nossos dias levaram e ainda levam muitos pensadores e educadores a refletir sobre ela e seu ensino. Isso significa que a própria filosofia constituiu- se em um problema filosófico, pois seu ensino apresenta diversas questões problemáticas que devem ser abordadas tanto do ponto de vista da reflexão pedagógica como da perspectiva filosófica, notadamente no que se refere a seus “quês”, “comos”, “porquês” e “para quês”.


Quando um professor ou uma instituição de ensino deve decidir sobre que tipo de curso de filosofia seria possível desenvolver com seus alunos, todas essas questões vêm à tona. Quando se elabora um livro também. E nós sabemos que a didática não é neutra. Isso significa que, antes de fazer nossas escolhas, devemos investigar atentamente os pressupostos das propostas pedagógicas que se apresentam (ou daquela que já adotamos), buscando explicitar seus objetivos, recortes de conteúdo, estratégias e recursos postos em jogo. Tudo isso não são problemas menores.


No debate ATUAL sobre esses aspectos, podemos dizer simplificadamente que, entre as diversas alternativas existentes, há TRÊS enfoques pedagógicos que representam a prática de ensino da filosofia: o tradicional, o renovado e o de falso moralismo. Esta última prática é defendida pela escola sem partido, seguidores de místico Olavo, terraplanistas e neonazistas de esquerda.



quinta-feira, 5 de maio de 2016

CIÊNCIA E IGREJA, CIÊNCIA E RELIGIÃO: É POSSÍVEL?

Prof. Douglas Barraqui


Ciência e a Igreja têm uma história em comum, estão interligadas.  É uma história longa e, às vezes, bastante conflituosa, também, por vezes harmoniosa. A primeira coisa a fazer é separar Igreja dos homens: Quem perseguiu hereges, quase condenou Galileu, queimou mulheres bruxas na Idade Média não foi a igreja, foram homens. Ditos homens de Deus, acreditavam estar agindo em nome de Deus e da Igreja que seguiam. Esses homens utilizaram textos das sagradas escrituras para justificar os seus atos.

Mas, posso afirmar de forma categórica que sem a Igreja Católica não haveria ciência. Devemos lembrar que a Igreja católica, durante muito tempo, esteve ligada ao ensino, a construção das universidades, ao apoio financeiro aos cientistas, clérigos e não clérigos. No Brasil temos vários exemplos de instituições religiosas e produtoras de conhecimento científico como as Pontífices Universidade Católicas.

De acordo com o Thomas Woods, historiador estadunidense, ao longo da história muitos padres foram cientistas: Pe. Nicholas Steno (considerado o "o pai da geologia"), o Monge Franciscano Bacon (considerado precursor do método científico moderno, defendendo como método a experiência), Pe. Athanasios Keicher (o pai da egiptologia), Pe. Giambattista Riccioli (a primeira pessoa a medira a taxa de aceleração de um corpo em queda livre), Pe. Robert Boscovich (considerado o pai da teoria atômica moderna), entre outros. Mais recentemente, no ano de 2013, um conclave da Igreja Católica Apostólica Romana passou a reconhecer uma forma teísta de evolução cósmica e evolução biológica, em miúdos, passou a reconhecer Darwin.


Devemos lembrar ainda que a ciência, também a religião, é filha de seu tempo. E que a mentalidade, a forma de pensar das pessoas muda ao longo da história. Podemos concluir que em menor ou maior grau ciência e religião sempre estiveram próximas.


REFERÊNCIAS:

FILORAMO, Giovanni; PRANDI, Carlo. As Ciências das Religiões. São Paulo: Paulus, 1999.

MARQUES, Leonado. A História das Religiões e a Dialética do Sagrado. Madras, 2005.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

PARA FILOSOFAR NUMA TARDE CHUVOSA

Por Leandro Karnal

Eu vou fazer uma suposição totalmente aleatória, sem nenhuma vontade de aplicá-la na prática. Vamos imaginar uma história absurda e totalmente sem base. Vamos imaginar um país, no século XVI, onde haja uma lei exótica. Sua Majestade – chamemos de Rei Henry - o chefe da nação, determina que todas as carruagens tenham um kit de primeiros socorros.

Todos os homens que possuíam carruagens se esforçam para comprar um kit de primeiros socorros, aliás, moda nesta época no século XVI. E, logo após todos terem comprado, Sua Majestade Henry anuncia que não é mais necessário!

É justo e lícito que essas pessoas reflitam pessimamente: será que esse Rei tem interesse na produção de kits de primeiros socorros? Será que esse Rei tem ações ou o irmão dele é o dono da fábrica?

Que coisa mais ridícula obrigar uma nação inteira a comprar o kit para a carruagem, e logo dispensá-la pelo motivo óbvio que eu, e todo mundo, nada sabem fazer com o kit de primeiros socorros, diante de alguém que é atropelado por um cavalo e tivesse fratura exposta. Como eu não tenho nenhum conhecimento médico, provavelmente eu pioraria - não ajudaria. O que eu posso fazer é passar a mão na cabeça da vítima e rezar junto.

Uma ideia absurda e derrubada. Sua Majestade voltou atrás.

Sua Majestade então decide que, em caso de incêndio das carruagens, seria seguro um extintor. Como ainda não há extintores, um balde com água em todas as carruagens. Todas as carruagens devem portar um balde de 10 litros para caso de incêndio. Sua Majestade obriga o país inteiro, toda a frota de carruagens, a comprar este balde. E, assim que todos compram, Sua Majestade diz que o mais correto é que o balde seja de 15 litros, um modelo mais avançado. E toda a nação compra porque é obrigatório.
Terminada a compra, alguns inclusive multados pela posse do balde errado, Sua Majestade anuncia feliz que a posse do balde agora é optativa, não precisa mais.

Eu recomendaria a este povo: guardem o balde porque a qualquer instante - governo é como herpes - sempre volta, sempre volta.

Sua Majestade, já desgastado pelo kit, e pelo balde (o extintor), tem uma ideia mais radical: vamos unificar as tomadas do país! Vamos fazer que todos se adaptem aos mesmos buracos e da mesma forma, com o fio terra inclusive. E o país inteiro torna adaptador de tomada mais raro do que pérolas barrocas.

O país anda atrás de adaptadores, que só são vendidos no mercado negro. E há prazo para as tomadas, e se gasta uma fortuna trocando tomadas.

E, ao final de um esforço nacional que perturba a todos, temos uma surpresa: nenhum aparelho produzido entra naquelas tomadas. Os adaptadores não adaptam e, na verdade, não é uma tomada obrigatória - são duas: uma para maior amperagem e outra para menor amperagem. E mais, não há unificação das tomadas, cada um enfia onde quiser.

O que vocês diriam ao Rei hipotético, Henry: ou você é louco, ou você ganha dinheiro com essa insanidade, ou você está se divertindo às nossa custas. Tudo isso é possível.

Sua Majestade, Henry, apenas perguntou uma coisa: por que é que vocês fizeram isso o tempo todo e de bom grado, reclamaram uns para os outros em redes sociais e não fizeram nada contra isso?

FONTE: http://eldjudio.com.br/static/pdf/2015-ed-62-dezembro.pdf


Leandro Karnal é gaúcho de São Leopoldo-RS, professor da Unicamp na área de História da América e o texto acima foi transcrito e adaptado do programa Café Filosófico.