domingo, 19 de fevereiro de 2012

Carnaval: a verdade por trás das máscaras e trios


                                                                          
Por Douglas Barraqui

Não sou inimigo do Carnaval, um dos festejos mais populares do Brasil, mas faço uma crítica na forma e de como se comemora. Por de trás das fantasias do carnaval está um trio de absurdos, uma escola de ignorância é uma marcha de corruptos.

O primeiro erro é acreditar que o carnaval é uma festa genuinamente “made in Brasil”. Embora não há como comprovar empiricamente o nascimento do carnaval, sabemos que a 10.000 a.C. homens, mulheres, crianças, se reuniam no verão de corpos pintados, caras mascaradas, pulando e cantando para espantar os demônios da má colheita. Festejos parecidos e peculiares foram comemorados entre egípcios, gregos e romanos. Mas, o carnaval tal como conhecemos tem sua origem na Europa no Período Vitoriano e se espalhou pelo mundo afora metamorfoseando a outras culturas. No Brasil quando aqui chegou por influência dos lusitanos das Ilhas de Madeira, Açoures e Cabo Verdena, na primeira metade do século XVIII, recebeu o nome de entrudo. Consistia de destrambelhadas correrias, mela-mela de farinha, água com limão que evoluiu depois para batalhas de confetes e serpentinas. Os primeiros blocos de carnaval e os famosos corsos só vão surgir no século XIX. E a primeira Escola de Samba somente em 1928, com a Deixa Eu Falar, no Bairro do Estácio.

Enganam-se os pobres coitados que correm atrás de trios e de marchinhas carnavalescas pensando que carnaval é uma festa popular. Hoje carnaval é negócio, e dos mais lucrativos, coisa de gente rica. Pobre não tem acesso aos camarotes VIP (Very Important Person), as festas privadas e luxuosas e aos abadas caríssimos intitulados “passaportes da alegria”.


A maioria dos blocos, trios, palanques e escolas vivem à custa do poder público. Seu, meu e nosso dinheiro. E convenhamos ninguém subirá em um palanque somente para fazer do carnaval uma festa democrática, ou para fazer feliz o público. Esses artistas, mega artistas, não cobram menos do que na casa dos milhares e até mesmo milhões para divertir um público anestesiado e supostamente feliz porque é carnaval. Uma política de circo para uma população paupérrima que não tem se quer um pão na mesa.


Todo carnaval são as mesmas coisas dantescas: a boa música e amordaçada pelas supostas músicas do momento como “o melo da mulher maravilha” e um “ai se eu te pego”. Dezenas de ambulâncias são disponibilizadas para atender bêbados e machões brigões enquanto o povo morre as minguas nos corredores dos hospitais. A polícia é colocada com todo seu efetivo a fim de guardarem a ordem, e no dia a dia o mesmo folião que pula atrás dos blocos vive encarcerado dentro de sua casa por grades e muros com medo da insegurança.


Os falsos gurus da economia dizem até que o carnaval faz girar a economia, gera renda para dona Maria do cachorro quente e até o senhor João catador de latinhas. Se João e Maria fossem depender do carnaval para o sustento de seus filhos morreriam de fome. Carnaval só é lucrativo para grandes cervejarias, hotéis luxuosos, donos de trios elétricos, e músicos famosos. No mais é prejuízo atrás de prejuízo. São gastos para socorrer vítimas de acidentes de trânsitos os mesmos foliões embriagados ao volante. Gastos em limpeza de rua, ao passo que os foliões parecem mais com porcos dançando em um chiqueiro. Fora os gastos com gravidez indesejada, e com tratamentos para novos soro positivo.


E o ano, como dito popular, só começa de fato após o carnaval. Só depois que os trios e os tambores, pandeiros, cuícas se calaram, que o efeito das drogas passarem e que as máscaras caírem é que se vai ter uma noção do prejuízo. Que o país das cores, das luzes, do deslumbre e da dança passou pela avenida e foi embora. E ficou a realidade.



A dura e vergonhosa realidade de um salário mínimo irrisório. A realidade dos autos impostos a serem pagos ao leão, não o leão da Escola Porto da Pedra, mas, o leão da receita. A realidade dos mega salários, dos corruptos, do mensalão. A realidade dos salários indignos dos professores, policiais e bombeiros que tentam salvar o que restou após o carnaval. Entre tantas outras realidades.  Faço minhas as palavras de Danilo Gentili: “é melhor morrer no país do carnaval do que viver no carnaval desse país." 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

BBB: Onde estão os nossos heróis?



Por Douglas Barraqui

Esta escrito nos anais da história que Roma, um dos maiores impérios da humanidade, sucumbiu em meio depravações dos valores morais de seu povo dentre eles a banalização do sexo. O “zoológico humano” intitulado de Big Brother Brasil programa de baixarias e vilanias, leia-se aqui entretenimento, da TV Globo, a todo momento nos empurras desvalores miolo adentro, alienação.

Seria o BBB o reflexo de uma sociedade narcisista, consumista, individualista e superficial? Ou, ao contrário, o BBB estaria refletindo esses pseudosvalores para o público ao deixar de estimular a cultura, a inteligência, a criticidade, e  corrompendo princípios como solidariedade, ética e moral? Neste programa o que vale é ser bonito dentro de um padrão predeterminado de homens e mulheres sarados, siliconados. Em meio ao um reality show de pornografia e conspirações em frente às câmeras reflexo da ganância pelo prêmio em dinheiro.

George Orwell se levantaria do túmulo se soubesse que seu livro iria dar nome a um reality show. O Big Brother, traduzido como o “grande irmão”, é um personagem fictício do Romance intitulado 1984 de George Orwell. Escrito originalmente em 1948, trata-se de uma sociedade vigiada dia e noite pelo grande irmão, que vê tudo, controla tudo, decide tudo. Os regimes fascistas da Alemanha e da Itália serviram de inspiração ao autor.

O Big Brother Brasil é um enlatado holandês criado originalmente por John de Mol, executivo da empresa Endemol. Consiste em pessoas comuns, pré selecionadas, que conviveriam juntas dentro de um mesmo espaço, e sendo vigiadas vinte quatro horas por dia.

A versão brasileira conta com o apresentador Pedro Bial: Jornalista, escritor, cineasta e poeta. Repórter que cobriu a queda do muro de Berlim, Bial prometeu um “zoológico humano divertido” e chama os participantes do reality show de heróis. Será que Bial, pessoa instruída que é, desconhece o verdadeiro significado semântico da palavra herói? Será que não percebe que o BBB significa a morte da cultura, de valores e princípios como ética, moral, solidariedade?

O fato é que a TV brasileira como um todo não esta cumprindo seu papel, que nas palavras de Arlindo Machado, é o de colaborar na construção da cidadania. [1] Os críticos da Escola de Frankfut viam a TV como uma ferramenta a serviço do poder, vinculadora de interesses ideológicos dos detentores dos meios de produção e que seria um meio de comunicação incapaz de colaborar para a construção da cidadania. [2] E se esses mesmos críticos de Frankfut tivessem assistidos ao BBB veriam o show de horrores segundo o qual os dominantes submeteram os dominados.

BBB é um programa de entretenimento? Se você respondeu sim, reveja seus conceitos. E se você ainda acha que os participantes do BBB são heróis lembre-se dos bombeiros, dos policiais, dos professores que trabalham dia a dia por um mundo melhor recebendo salário indigno. Ou de pessoas que acordam de madrugada, no cantar do galo, pegam duas a quatro conduções para chegar ao trabalho, receber salário mínimo, e alimentar uma família de seis a dez bocas. Isso é Reality Show,  isso sim é ser herói.

Referência:

[1] MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Ed. Senac, 2005.

[2] BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1997

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Face book, crise econômica e crise política: o olhar da história


Por Douglas Barraqui

Crise econômica da Europa, não se fala mais em outra coisa. Mas, olhe para esse momento histórico com um olho no presente e outro no passado. Você conseguirá, assim como eu, enxergar que o próprio conceito de crise econômica não mais consegue aplacar e nos dar a verdadeira proporção do que de fato está ocorrendo não só na Europa, mas em todo mundo.

O que de fato esta acontecendo é uma verdadeira alteração na relação entre poder e sociedade. O Estado em sua forma mais conhecida, ou como assistimos, está em crise. A crise econômica, que aos olhos nus de diversos economistas parece fácil de resolver, sufoca os Estados para uma crise política há muito conhecida historicamente; retomamos aqui a França pré-revolução.

A juventude, a opinião pública no geral está hoje muito mais informada e concientizada fazendo uma progressiva e constante desconfiança em relação ao poder. O face book e outros redes sociais estão derrubando tiranias no norte da África, movimentando protestos contra corruptos e organizando a massa frente ao caos na Grécia. Olhando com esses olhos as questões econômicas se tornam um plano de fundo para um processo muito mais amplo e complexo no âmbito da política e no conceito de poder estatal.

A crise atual não é a crise de 2008, é muito diferente. Em 2008 eram as instituições econômicas que estavam afundando, agora é muito mais grave são os Estados. Com aquela crise criou-se entre os bancos e grandes sistemas financeiros a crença de que quanto maior a crise econômica, maior seria a necessidade de o Estado intervir injetando mais e mais dinheiro nessas instituições. Contraditoriamente era a dívida dando lucro. Nuances e contradições do capitalismo.

Infelizmente não se aprendeu nada com o passado de meros 3 anos e menos ainda com a história. Continua se achando que o sistema capitalista e o mercado financeiro possuem vida própria, aos moldes do "laissez faire, laissez aller, laissez passer". Todavia esse mundo financeiro capitalista se configura como uma grande aldeia global cada vez mais conectado aos meios de comunicação, mais informados. Pessoas, as dezenas de milhares, com medo de perderem seus empregos, ficarem sem aposentadorias e cheias de remorso contra o Estado, a quem eles confiaram sua vida, e agora se vêem em apuros.

A crise política de fundo econômico, portanto tem um lado humano frágil, falível e corruptível. Talvez estejamos de frente a uma nova, grande e dramática revolução nunca antes vista na história da humanidade. Movida pelas massas e com uma nova arma, a informação.  

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Casos e acasos da corrupção em nosso país: “O Brasil não tem povo, tem público"

Por Douglas Barraqui

"Que país é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção?" palavras de Juan Aries, correspondente no Brasil do Jornal espanhol El País. Manifestações políticas, passeatas, barricadas, rostos pintados estão resumidos em pilhas e mais pilhas de livros de história em nossas bibliotecas, esquecidos.

A causa gay, ou a marcha evangélica, ou, até mesmo, a maconha, de certo, não são causas menos importantes do que os escândalos de corrupção de nossa pátria. Todavia, é notória, a letargia do povo brasileiro quando o assunto é corrupção.

O conceito de corrupção é assistido pelo povo como “velho jeitinho brasileiro de ser”. O modo como o conceito de corrupção foi construído no Brasil afetou diretamente o comportamento e práticas da população e, digo mais, afetou também sua moral ética.

O fato é que os diversos casos e acasos de malversação e uso indevido de recursos e da máquina pública, redes de clientelismo, desvios de dinheiros, práticas de lobby dentre outras maracutaias políticas, causaram uma sensação crônica de mal-estar coletivo que nos leva a olhar com olhos incrédulos para a política e para os políticos brasileiros.

Os incontáveis escândalos e as bombas estampadas nas manchetes dos jornais criam um estado de clamor geral, um muro de lamentações, e só isso nada mais. Uma espécie de mal-estar coletivo que cria uma visão de senso comum acerca da honestidade e da índole dos brasileiros. Não é por menos que vários indicadores apontam o Brasil como um país onde a desconfiança impera.

É muito fácil falar da corrupção como uma herança histórica, que teria privado o povo de discerni e racionalizar a diferença entre o que é público e o que é privado dentro de uma moral e uma ética. O que nos parece difícil é a mobilização. E mais uma vez sou obrigado a concordo com o axioma do saudosíssimo Lima Barreto: “O Brasil não tem povo, tem público”.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Faraó Akhenaton e a Reforma Política no Brasil

Por Marcos Emílio Ekman Faber

Numa certa manhã nublada do século XIV a.C., são raras as manhãs nubladas no Egito, o faraó Amenófis IV saltou da cama com o coração em disparada. Havia tido um pesadelo terrível que o havia atormentara por toda a madrugada. No sonho, o faraó estava numa grande sala onde vários deuses estavam reunidos. Apesar de Amenófis estar presente, quem liderava a reunião era Seth, o deus com cabeça de chacau. Por ordem de Seth, os deuses cercaram o rei egípcio, todos empunhando adagas. Seth se aproximou e desferiu um golpe contra o faraó que, antes da lâmina o tocar, acordou ensopado de suor.

Angustiado, Amenófis mandou chamar seus conselheiros e magos, queria uma interpretação para o sonho. Porém, nenhuma das interpretações devolveu paz ao coração do faraó. 

Inquieto, Amenófis resolve se retirar. Sobe até seus aposentos onde, do alto da janela, fica a fitar o céu. O raro dia nublado perturbava ainda mais o faraó, “Será este um sinal?”. Foi então que, em meio às nuvens, o sol saiu imponente a brilhar, em questão de segundos as nuvens se desfizeram. A mudança no tempo devolveu paz ao coração do monarca. Amenófis não tinha mais dúvidas, sua vida e seu reinado corriam sérios riscos.

No entendimento do faraó, os deuses conspiravam contra sua vida. Somente Aton, deus representado pelo disco solar, poderia protegê-lo. Para fugir dessa cilada, o faraó teria de afastar os outros deuses do Egito.

Tomada a decisão, Amenósis inicia um novo programa de governo. Era necessária uma reforma político-religiosa no Egito. A primeira medida foi mudar seu próprio nome. Amenófis torna-se Akhenaton “o espírito atuante de Aton”.

A partir daí, Akhenaton começa um processo de reestruturação da religião egípcia. O culto aos deuses é proibido, com exceção ao culto a Aton. Templos são fechados. Sacerdotes, responsáveis pelo culto aos outros deuses, são destituídos.

A reforma religiosa parecia não ter fim quando Akhenaton decide construir uma nova capital para o reino. A nova cidade, mesmo antes de ser concluída, foi batizada de Akhetaton, o “horizonte de Aton”. Mas a construção trouxe consigo sérios problemas ao faraó, pois a construção obrigou o deslocamento de milhares de escravos para as obras da nova capital. Isso gerou o descontentamento dos outros centros políticos egípcios. Como se isso não bastasse, antigos ministros, conselheiros e, principalmente, os sacerdotes destituídos passaram a conspirar contra Akhenaton.

Os conspiradores não aceitavam as reformas promovidas pelo faraó. Muitos haviam perdido seus preciosos cargos, outros tinham sofrido com o fechamento de seus lucrativos templos. Assim, na calada da noite os conspiradores se reuniram tomando uma importante decisão: Akhenaton precisa ser assassinado.

Em uma bela noite do ano 1382 a.C., Akhenaton recebeu a visita de seus antigos conselheiros. No final daquele encontro o faraó estava morto. A forma como Akhenaton foi assassinado permanece um mistério até hoje.

O que não é mistério foi o que aconteceu com o Egito nos meses que se seguiram. A antiga religião politeísta foi restaurada, templos foram reabertos e a memória do falecido faraó apagada. Até a cidade de Akhetaton foi abandonada. Era o fim do único faraó monoteísta que se tem notícia.

Mas a resistência à mudança não foi exclusividade dos egípcios antigos. Há muito tempo que ouço falar em reforma política no Brasil. Alguns defendem o voto distrital, outros o fim da reeleição, também há quem acredite que o voto em lista seria a melhor solução para o processo eleitoral.

Das alternativas que são apontadas para a reforma política, a que acredito ser a mais adequada é a do deputado federal Henrique Fontana, relator da comissão especial da Câmara. Fontana defende o financiamento público de campanha, ou seja, cada candidato deverá buscar exclusivamente em verbas públicas os recursos para sua campanha. Essa Lei barraria a formação de caixa dois, pois tornaria proibido o recolhimento de recursos de campanha junto à iniciativa privada. Com isso, diminuiriam os políticos que fazem lobby para as empresas que os financiam.

Mas na minha opinião a única reforma política que realmente surtiria algum efeito é a que criasse Leis que garantissem a educação política dos eleitores. Enquanto o país não investir na educação política de nossa população, ensinando-a sobre o funcionamento do processo eleitoral, de nada adiantará realizar grandes reformas.

O problema eleitoral do país está no fato das pessoas não conhecerem as regras do sistema. Alegar que uma reforma política irá impedir que Tiriricas sejam eleitos é não desejar mudança alguma. O que precisa ser feito é conscientizar o eleitorado sobre as regras do jogo. Enquanto não criarmos uma consciência político-eleitoral no país, nada mudará.

Mas que o exemplo de Akhenaton seja observado, pois os sacerdotes e ministros que não desejam mudança alguma estão por todos os lados. Afinal, muitos irão perder com uma reforma política no Brasil.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sempre mais do mesmo

Por Douglas Barraqui

Hoje nosso país passa por uma prospera fase de vacas gordas, mas ao mesmo tempo vertiginosamente perigosa. E o que os intelectuais têm a dizer sobre esse momento da história do tempo presente do Brasil? Nada. Absolutamente nada. É sempre o mais do mesmo.

Ninguém quer arriscar à errar: jornais, revista, livros, é sempre o mais do mesmo. Textos de ontem em uma roupagem de hoje, restaurados. Ninguém se aventura em analisar as mudanças no Brasil de ontem no hoje. Diante de um verdadeiro “ritual de passagem” em que o país se destaca como uma grande potencia econômica, pseudo intelectuais cospem merdas em forma de palavras. Os ditos intelectuais pisam em ovos, tentando tirar os seus da reta.

Não se pensa mais em idéias impensáveis. Veja um exemplo: a despeito da globalização uns ainda tendem a ver como fundamental e inevitável, outros insistem como conspiratória e perigosa. O que é isso? Puro maniqueísmo em verdadeiro preto e branco. Onde estão as outras cores? Será que o movimento GLBT foi o único capaz de, em tempos do Brasil em transformações sociais latentes, mesclar outras cores. Não sendo mero acaso sua bandeira de luta ser multicolorida e está ganhando espaço.

Quando eu falo mais do mesmo eu invoco discussões do tipo: sociedade de consumo, exclusão social, perda da identidade, capitalismo selvagem. É nítido como reluz o ouro que as discussões dos temas óbvios, desta conjuntura histórica na qual o Brasil está passando, são mesmo pobres. E as pessoas persistem em agarrar-se nessas idéias como sendo valiosas relíquias. Alguém já te disse que quem gosta de coisa antiga é historiador.

Pois bem. O fato é que a originalidade antropofágica foi enterrada com Oswald de Andrade. Não se “come” e “digere” como estava descrito nas receitas do movimento antropofágico brasileiro. As idéias na boca de uns e de outros são mastigadas, jogadas de um lado para o outro e cuspidas nas páginas de jornais, revistas e livros. É óbvio que não se trata de um novo Brasil, mas sim de coisas novas acontecendo em um Brasil ainda antigo. Será mesmo difícil ver isso? É o que a gente lê? É sempre mais do mesmo, mesmices e hipocrisia. Pronto, falei.  

domingo, 30 de outubro de 2011

Níkos Poulantzas e Otto Bauer: uma visão da esquerda sobre o fascismo

Hitler e Mussolini
Por Douglas Barraqui

Para Níkos Poulantzas, filosofo e sociólogo grego, o fascismo constitui de uma forma de estado e uma forma de regime, representando uma conjuntura extremamente particular da luta de classes. Desenvolveu-se de forma orgânica a partir da democracia burguesa. Na concepção da Internacional comunista, compartilhada por Trotsky, fascismo corresponde a uma guerra civil aberta da burguesia contra a classe operária.

Poulantzas destaca que o fascismo não é a simples substituição de um governo burguês por um outro, mas sim uma mudança na forma de Estado. Trata-se de um fenômeno complexo que pode ser explicado a partir das suas relações com as diversas classes de lutas. O processo de fascização e a instauração do fascismo correspondem à situação de aprofundamento das contradições internas entre as classes e a fração da classe dominante.

A conjuntura do fascismo corresponde a uma crise da ideologia dominante, a democracia liberal. E acima desta crise ideológica podemos falar em uma conjuntura determinada - o pós-guerra, as consequências para os países derrotados e a crise de 1929.

Poulantzas divide o processo de fascização da seguinte maneira: em primeiro momento há o aparecimento das milícias; e em um segundo momento ocorre o recrudescimento do papel do próprio Estado.

Ainda sobre a forma embrionária de bandos armados, milícias, assumem um caráter de partido de massa quando apoiado por frações dominantes durante a etapa de ofensiva contra o proletariado. Nesse momento o partido fascista, dando garantias seguras, ganha o apoio do grande capital e sua ligação com as massas populares mantém-se forte.

Em outro momento o fascismo caminha em direção as massas há ainda uma aliança entre a fração monopolista e a pequena burguesia. Uma vez no poder: Concessões são dadas as massas, é o momento em que  se dá início da dominação do Estado.

No período de estabilização do fascismo: é imposto pelo bloco no poder certas concessões às massas populares. É neste momento que se estabelece a hegemonia do grande capital.

Na visão de Otto Bauer, um dos principais pensadores esquerda, o fascismo é resultado de três processos sociais: Primeiro: A guerra expulsou da vida burguesa e desempregou grande massas incapazes de retornar ao modo de vida burguês, formaram milícias fascistas, com peculiar ideologia militarista, antidemocrática e nacionalista. Segundo: A crise econômica do pós-guerra levou a miséria grandes massas de pequenos burgueses e camponeses. Essas massas abandonaram as fileiras dos partidos de massas democráticos e levantaram-se cheios de ódio e decepção contra a democracia. E por último: Diminuição dos benefícios contra das classes capitalistas que para ressarcir-se aumentou o grau de exploração sobre a classe operária. Como a classe capitalista duvidava que pudesse conseguir por intermédio do regime democrático conter a classe operária, optou então em recorrer às milícias fascistas nacionalistas para que semeasse o terror na classe operária.

Capitalistas ajudaram os fascistas em primeiro momento com auxílio financeiro, posteriormente induzio o Estado a fornecer armas aos fascistas e por fim cedeu o poder Estatal aos fascistas.

O exemplo do caso da Itália os oficiais da reserva desmobilizados depois da guerra foram quem constituiu os núcleos do partido fascista. Homens que não estavam na vida burguesa; odiavam o capitalista especulador;  orgulhosos de suas condecorações e seus ferimentos e que criaram uma aversão ao capitalismo proletário; ressentidos, pois sua pátria, pelo qual haviam dado seu sangue, não podia oferecer-lhes melhores condições e posições; nacionalistas exacerbados em oposição a democracia; homens que não queriam deixar os antigos hábitos contraídos durante a guerra: desejavam dar e receber ordens, usar uniformes e desfilar no ritmo da marcha. Apreciavam assim a indústria da guerra.

Foram esses homens que começaram a formar as organizações paramilitares (ainda mais numerosos na Alemanha). Foram essas as células primordiais do fascismo as que desenvolveram sua ideologia geral.

Para o caso da Alemanha a República na Alemanha nasceu em meio a uma amarga miséria. Um país arruinado no pós-guerra e humilhado. Foi nessa conjuntura que os nacionalista da intelectualidade rebelaram-se contra a situação do país. Assim podemos dizer que as consequências do pós-guerra mundial contribuíram assim para fomentar o nacionalismo alemão.

A grande crise do sistema capitalista de 1929 teve um impacto muito forte sobre a Alemanha e Hitler soube muito bem manobrar a crise de modo colocar o povo a seu lado e o nazismo no poder. Antes da crise, durante a época de prosperidade, o partido Nacional Socialista de Hitler era um grupo sem importância, com a crise de 1929 ele ganha força. A democracia não pode evitar que a crise arruinasse a pequena burguesia e camponeses. Assim esses voltaram-se contra a democracia. Em meio as constantes pressões por parte da classe operária a classe capitalista então decidiu fazer do fascismo para submeter a classe operária. Foi através das “expedições de castigo” que a classe capitalista descobriu como romper com o impetuoso ataque da classe operária. A milícia fascista foi lugar de confluência dos marginalizados de todas as classes. Podemos concluir em Otto que o fascismo nacionalista seria patrocinado pela burguesia e seu poder Estatal.

Uma vez no poder o partido fascista dominaria o proletariado; expulsaria os representantes da burguesia do poder dissolvendo seus partidos sob a justificativa de que salvaria a burguesia da revolução proletária. Na verdade o movimento operário já estava debilitado. Era o momento dos capitalistas escolherem entre destruir o fascismo e assim favorecer a classe operária, ou ceder ao fascismo o poder estatal. Talvez tarde de mais; pois o terror fascista dissolveria e submeteria à sua tutela algumas organizações capitalistas.

Níkos Poulamtzas e Otto Bauer são contribuições valiosas no que tange a compreensão dos regimes fascistas da Europa entre guerras, bem como o processo de fascilização. São autores que embora partem de uma visão de esquerda devem ser lidos e levados em consideração no estudo da história política da Europa.
Bibliografias:

BAUER, Otto. O Fascismo.

POULANTZAS, Nicos. Fascismo e a ditadura: A III Internacional face ao fascismo. Tradução João G. P. e M. Fernanda S. Granado. 1ª ed. Porto: Portucalense Editora, 1972.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Política em Wolfgang Leo Maar

Por Douglas Barraqui

Em “O que é Política” Wolfgang Leo Maar esboça algumas temáticas do universo político de uma forma bem didática e com uma linguagem clara que facilita  a compreensão.

O autor nos ensina que as relações políticas não se dão apenas com a política institucionalizada, ou seja, estatal. Que nós seres humanos somos políticos, praticamos política no nosso dia-a-dia, uma vez que, quer seja no âmbito institucional, quer seja nas relações sociais do cotidiano estamos promovendo relações de poder, que para nosso autor é uma atividade política fundamental. Portanto, para Wolfgang Leo Maar, dentro de uma sociedade que objetiva o poder, existem diversas formas de política.

Wolfgang Leo Maar nos apresenta os partidos políticos como agentes políticos da sociedade moderna. A disputa partidária apresenta-se, para o autor, em dois vieses: de um lado como uma relação com a sociedade e seus interesses; de outro lado como disputa pelo controle do aparelho do Estado. O autor busca em Gramsci a função dos intelectuais orgânicos na atividade política, segundo o qual o intelectual tem como papel elaborar propostas de cunho cultural e política para transformação dos sujeitos e posterior transformação do mundo. Maar vê a política como resultado de um processo histórico. Assim ela se apresenta como atividade aberta ao movimento e a transformação constante.

Ao abordar a política na Grécia e na Roma Antiga, Maar nos diz que a política foi talhada a partir da atividade social dos homens que viviam nas pólis gregas. Filósofos como Platão e Aristóteles teriam dado incomensurável contribuição  e lição, para o mundo ocidental, sobre política.

Maquiavel, nos diz Maar, fez importante distinção entre política de Estado e de Governo. Em Maquiavel o agente da atividade política do Estado é o governo, assim sendo, o dirigente deste governo (em Maquiavel  seria o príncipe) deve possuir virtude, capacidade diante dos acontecimentos de caráter políticos, a finalidade é o poder. Nosso autor elenca ainda que para se governar é necessário ter força, astúcia e, porque não, sorte. Buscando novamente em Gramsci, o autor destaca que o príncipe moderno é nada mais nada menos do que o partido político, e sua meta fundamental é o poder estatal.

Em Marx, o autor diz que a política trata-se de uma disputa de classes sociais, onde o Estado representa a classe dominante, logo o Estado passa a condição de representante de uma classe. Assim a atividade política deixa de ser espaço exclusivo do Estado, para passar a ser palco da luta de classes. A “política”, em Marx, é resultado da luta de classes, deste modo a classe dominada, ou seja, o proletariado tem que desenvolver uma política que supere a sociedade de classes, supere o capitalismo, na busca pelo socialismo.

Maar questiona ainda o papel da política na sociedade brasileira atual, na vida das pessoas (leve em consideração que este livro foi escrito em 1982). Nosso autor se utiliza de alguns momentos da história do Brasil para demonstrar como a política é submetida a constante imprevisibilidade, mudanças e transformações. Com isso, quer nos mostrar que atividade política deve ser compreendida como uma ação prática e transformadora da realidade histórica, havendo deste modo uma gama de orientações possíveis para a política. Apresenta-nos ainda que a atividade política institucional em torno do Estado foi desenvolvida pelos homens ao longo da história, como uma forma prática de organizar a vida social, coletiva buscando atender o interesse comum. Destaca ainda que o Estado pode ser agente da persuasão, do consenso, quer dizer, pode agir através da coerção ou da hegemonia.

Maar nos ajuda a compreender melhor a diferença entre sociedade política e sociedade civil. A sociedade política trata-se da administração pública, o judiciário, as forças armadas; a sociedade civil por sua vez é onde estão os partidos, empresas, sindicatos, movimentos sociais, escolas. Logo, a sociedade civil teria suas próprias instituições para fazer suas reivindicações ao Estado e os partidos políticos seriam as principais instituições, bem como os sindicatos e outros movimentos sociais. Com isso as atividades políticas exercidas pelo Estado buscam o consenso da sociedade civil.

O autor também promove uma discussão entre a relação existente entre política, cultura e ideologia. Como a cultura se manifesta na política, partindo do princípio de que as manifestações culturais oferecem meios para a realização de preceitos políticos, portanto, a cultura não deve ser rebaixada, pois ela tem uma função política, podendo ser utilizada com uma finalidade política. A classe dominante, por exemplo, tenta impor sua cultura como se seus valores fossem universais. A cultura, portanto, aparece com um apoio ideológico usado na legitimação do poder da classe dominante. Maar busca em Georg Lukács a elaboração de que a cultura aparece como uma estratégia política para tomar o poder. E que a cultura pode aparecer como uma função ideológica tanto para quem está no poder, “ideologia conservadora”,  como para os que desejam mudar o poder por intermédio de uma revolução, “ideologia libertadora”. Gramsci chama essa disputa pela conquista do estado de “guerra de posições” e aqui entra os intelectuais com seu papel de produtores da cultura. Portanto, a política também é cultura, ao passo que ela molda sentimentos e comportamentos que influenciam na transformação da realidade.

Maar diz que a política produz uma série de referências e valores para a humanidade, logo a política possuiria também uma missão civilizadora. E o autor nos ínsita a pensar em questões como coloca: Qual o papel do Estado perante a sociedade? Será mesmo que vivemos em um país democrático? Quais os limites das ações do Estado? E o que estamos fazendo enquanto cidadãos, como seres políticos, para alterar a atual realidade política de nosso país.

Referência:

MAAR, Wolfgang Leo. O que e política. 16ª ed. - São Paulo: Brasiliense, [1989?]. 109p.