sábado, 11 de fevereiro de 2012

Face book, crise econômica e crise política: o olhar da história


Por Douglas Barraqui

Crise econômica da Europa, não se fala mais em outra coisa. Mas, olhe para esse momento histórico com um olho no presente e outro no passado. Você conseguirá, assim como eu, enxergar que o próprio conceito de crise econômica não mais consegue aplacar e nos dar a verdadeira proporção do que de fato está ocorrendo não só na Europa, mas em todo mundo.

O que de fato esta acontecendo é uma verdadeira alteração na relação entre poder e sociedade. O Estado em sua forma mais conhecida, ou como assistimos, está em crise. A crise econômica, que aos olhos nus de diversos economistas parece fácil de resolver, sufoca os Estados para uma crise política há muito conhecida historicamente; retomamos aqui a França pré-revolução.

A juventude, a opinião pública no geral está hoje muito mais informada e concientizada fazendo uma progressiva e constante desconfiança em relação ao poder. O face book e outros redes sociais estão derrubando tiranias no norte da África, movimentando protestos contra corruptos e organizando a massa frente ao caos na Grécia. Olhando com esses olhos as questões econômicas se tornam um plano de fundo para um processo muito mais amplo e complexo no âmbito da política e no conceito de poder estatal.

A crise atual não é a crise de 2008, é muito diferente. Em 2008 eram as instituições econômicas que estavam afundando, agora é muito mais grave são os Estados. Com aquela crise criou-se entre os bancos e grandes sistemas financeiros a crença de que quanto maior a crise econômica, maior seria a necessidade de o Estado intervir injetando mais e mais dinheiro nessas instituições. Contraditoriamente era a dívida dando lucro. Nuances e contradições do capitalismo.

Infelizmente não se aprendeu nada com o passado de meros 3 anos e menos ainda com a história. Continua se achando que o sistema capitalista e o mercado financeiro possuem vida própria, aos moldes do "laissez faire, laissez aller, laissez passer". Todavia esse mundo financeiro capitalista se configura como uma grande aldeia global cada vez mais conectado aos meios de comunicação, mais informados. Pessoas, as dezenas de milhares, com medo de perderem seus empregos, ficarem sem aposentadorias e cheias de remorso contra o Estado, a quem eles confiaram sua vida, e agora se vêem em apuros.

A crise política de fundo econômico, portanto tem um lado humano frágil, falível e corruptível. Talvez estejamos de frente a uma nova, grande e dramática revolução nunca antes vista na história da humanidade. Movida pelas massas e com uma nova arma, a informação.  

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Casos e acasos da corrupção em nosso país: “O Brasil não tem povo, tem público"

Por Douglas Barraqui

"Que país é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção?" palavras de Juan Aries, correspondente no Brasil do Jornal espanhol El País. Manifestações políticas, passeatas, barricadas, rostos pintados estão resumidos em pilhas e mais pilhas de livros de história em nossas bibliotecas, esquecidos.

A causa gay, ou a marcha evangélica, ou, até mesmo, a maconha, de certo, não são causas menos importantes do que os escândalos de corrupção de nossa pátria. Todavia, é notória, a letargia do povo brasileiro quando o assunto é corrupção.

O conceito de corrupção é assistido pelo povo como “velho jeitinho brasileiro de ser”. O modo como o conceito de corrupção foi construído no Brasil afetou diretamente o comportamento e práticas da população e, digo mais, afetou também sua moral ética.

O fato é que os diversos casos e acasos de malversação e uso indevido de recursos e da máquina pública, redes de clientelismo, desvios de dinheiros, práticas de lobby dentre outras maracutaias políticas, causaram uma sensação crônica de mal-estar coletivo que nos leva a olhar com olhos incrédulos para a política e para os políticos brasileiros.

Os incontáveis escândalos e as bombas estampadas nas manchetes dos jornais criam um estado de clamor geral, um muro de lamentações, e só isso nada mais. Uma espécie de mal-estar coletivo que cria uma visão de senso comum acerca da honestidade e da índole dos brasileiros. Não é por menos que vários indicadores apontam o Brasil como um país onde a desconfiança impera.

É muito fácil falar da corrupção como uma herança histórica, que teria privado o povo de discerni e racionalizar a diferença entre o que é público e o que é privado dentro de uma moral e uma ética. O que nos parece difícil é a mobilização. E mais uma vez sou obrigado a concordo com o axioma do saudosíssimo Lima Barreto: “O Brasil não tem povo, tem público”.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Faraó Akhenaton e a Reforma Política no Brasil

Por Marcos Emílio Ekman Faber

Numa certa manhã nublada do século XIV a.C., são raras as manhãs nubladas no Egito, o faraó Amenófis IV saltou da cama com o coração em disparada. Havia tido um pesadelo terrível que o havia atormentara por toda a madrugada. No sonho, o faraó estava numa grande sala onde vários deuses estavam reunidos. Apesar de Amenófis estar presente, quem liderava a reunião era Seth, o deus com cabeça de chacau. Por ordem de Seth, os deuses cercaram o rei egípcio, todos empunhando adagas. Seth se aproximou e desferiu um golpe contra o faraó que, antes da lâmina o tocar, acordou ensopado de suor.

Angustiado, Amenófis mandou chamar seus conselheiros e magos, queria uma interpretação para o sonho. Porém, nenhuma das interpretações devolveu paz ao coração do faraó. 

Inquieto, Amenófis resolve se retirar. Sobe até seus aposentos onde, do alto da janela, fica a fitar o céu. O raro dia nublado perturbava ainda mais o faraó, “Será este um sinal?”. Foi então que, em meio às nuvens, o sol saiu imponente a brilhar, em questão de segundos as nuvens se desfizeram. A mudança no tempo devolveu paz ao coração do monarca. Amenófis não tinha mais dúvidas, sua vida e seu reinado corriam sérios riscos.

No entendimento do faraó, os deuses conspiravam contra sua vida. Somente Aton, deus representado pelo disco solar, poderia protegê-lo. Para fugir dessa cilada, o faraó teria de afastar os outros deuses do Egito.

Tomada a decisão, Amenósis inicia um novo programa de governo. Era necessária uma reforma político-religiosa no Egito. A primeira medida foi mudar seu próprio nome. Amenófis torna-se Akhenaton “o espírito atuante de Aton”.

A partir daí, Akhenaton começa um processo de reestruturação da religião egípcia. O culto aos deuses é proibido, com exceção ao culto a Aton. Templos são fechados. Sacerdotes, responsáveis pelo culto aos outros deuses, são destituídos.

A reforma religiosa parecia não ter fim quando Akhenaton decide construir uma nova capital para o reino. A nova cidade, mesmo antes de ser concluída, foi batizada de Akhetaton, o “horizonte de Aton”. Mas a construção trouxe consigo sérios problemas ao faraó, pois a construção obrigou o deslocamento de milhares de escravos para as obras da nova capital. Isso gerou o descontentamento dos outros centros políticos egípcios. Como se isso não bastasse, antigos ministros, conselheiros e, principalmente, os sacerdotes destituídos passaram a conspirar contra Akhenaton.

Os conspiradores não aceitavam as reformas promovidas pelo faraó. Muitos haviam perdido seus preciosos cargos, outros tinham sofrido com o fechamento de seus lucrativos templos. Assim, na calada da noite os conspiradores se reuniram tomando uma importante decisão: Akhenaton precisa ser assassinado.

Em uma bela noite do ano 1382 a.C., Akhenaton recebeu a visita de seus antigos conselheiros. No final daquele encontro o faraó estava morto. A forma como Akhenaton foi assassinado permanece um mistério até hoje.

O que não é mistério foi o que aconteceu com o Egito nos meses que se seguiram. A antiga religião politeísta foi restaurada, templos foram reabertos e a memória do falecido faraó apagada. Até a cidade de Akhetaton foi abandonada. Era o fim do único faraó monoteísta que se tem notícia.

Mas a resistência à mudança não foi exclusividade dos egípcios antigos. Há muito tempo que ouço falar em reforma política no Brasil. Alguns defendem o voto distrital, outros o fim da reeleição, também há quem acredite que o voto em lista seria a melhor solução para o processo eleitoral.

Das alternativas que são apontadas para a reforma política, a que acredito ser a mais adequada é a do deputado federal Henrique Fontana, relator da comissão especial da Câmara. Fontana defende o financiamento público de campanha, ou seja, cada candidato deverá buscar exclusivamente em verbas públicas os recursos para sua campanha. Essa Lei barraria a formação de caixa dois, pois tornaria proibido o recolhimento de recursos de campanha junto à iniciativa privada. Com isso, diminuiriam os políticos que fazem lobby para as empresas que os financiam.

Mas na minha opinião a única reforma política que realmente surtiria algum efeito é a que criasse Leis que garantissem a educação política dos eleitores. Enquanto o país não investir na educação política de nossa população, ensinando-a sobre o funcionamento do processo eleitoral, de nada adiantará realizar grandes reformas.

O problema eleitoral do país está no fato das pessoas não conhecerem as regras do sistema. Alegar que uma reforma política irá impedir que Tiriricas sejam eleitos é não desejar mudança alguma. O que precisa ser feito é conscientizar o eleitorado sobre as regras do jogo. Enquanto não criarmos uma consciência político-eleitoral no país, nada mudará.

Mas que o exemplo de Akhenaton seja observado, pois os sacerdotes e ministros que não desejam mudança alguma estão por todos os lados. Afinal, muitos irão perder com uma reforma política no Brasil.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sempre mais do mesmo

Por Douglas Barraqui

Hoje nosso país passa por uma prospera fase de vacas gordas, mas ao mesmo tempo vertiginosamente perigosa. E o que os intelectuais têm a dizer sobre esse momento da história do tempo presente do Brasil? Nada. Absolutamente nada. É sempre o mais do mesmo.

Ninguém quer arriscar à errar: jornais, revista, livros, é sempre o mais do mesmo. Textos de ontem em uma roupagem de hoje, restaurados. Ninguém se aventura em analisar as mudanças no Brasil de ontem no hoje. Diante de um verdadeiro “ritual de passagem” em que o país se destaca como uma grande potencia econômica, pseudo intelectuais cospem merdas em forma de palavras. Os ditos intelectuais pisam em ovos, tentando tirar os seus da reta.

Não se pensa mais em idéias impensáveis. Veja um exemplo: a despeito da globalização uns ainda tendem a ver como fundamental e inevitável, outros insistem como conspiratória e perigosa. O que é isso? Puro maniqueísmo em verdadeiro preto e branco. Onde estão as outras cores? Será que o movimento GLBT foi o único capaz de, em tempos do Brasil em transformações sociais latentes, mesclar outras cores. Não sendo mero acaso sua bandeira de luta ser multicolorida e está ganhando espaço.

Quando eu falo mais do mesmo eu invoco discussões do tipo: sociedade de consumo, exclusão social, perda da identidade, capitalismo selvagem. É nítido como reluz o ouro que as discussões dos temas óbvios, desta conjuntura histórica na qual o Brasil está passando, são mesmo pobres. E as pessoas persistem em agarrar-se nessas idéias como sendo valiosas relíquias. Alguém já te disse que quem gosta de coisa antiga é historiador.

Pois bem. O fato é que a originalidade antropofágica foi enterrada com Oswald de Andrade. Não se “come” e “digere” como estava descrito nas receitas do movimento antropofágico brasileiro. As idéias na boca de uns e de outros são mastigadas, jogadas de um lado para o outro e cuspidas nas páginas de jornais, revistas e livros. É óbvio que não se trata de um novo Brasil, mas sim de coisas novas acontecendo em um Brasil ainda antigo. Será mesmo difícil ver isso? É o que a gente lê? É sempre mais do mesmo, mesmices e hipocrisia. Pronto, falei.  

domingo, 30 de outubro de 2011

Níkos Poulantzas e Otto Bauer: uma visão da esquerda sobre o fascismo

Hitler e Mussolini
Por Douglas Barraqui

Para Níkos Poulantzas, filosofo e sociólogo grego, o fascismo constitui de uma forma de estado e uma forma de regime, representando uma conjuntura extremamente particular da luta de classes. Desenvolveu-se de forma orgânica a partir da democracia burguesa. Na concepção da Internacional comunista, compartilhada por Trotsky, fascismo corresponde a uma guerra civil aberta da burguesia contra a classe operária.

Poulantzas destaca que o fascismo não é a simples substituição de um governo burguês por um outro, mas sim uma mudança na forma de Estado. Trata-se de um fenômeno complexo que pode ser explicado a partir das suas relações com as diversas classes de lutas. O processo de fascização e a instauração do fascismo correspondem à situação de aprofundamento das contradições internas entre as classes e a fração da classe dominante.

A conjuntura do fascismo corresponde a uma crise da ideologia dominante, a democracia liberal. E acima desta crise ideológica podemos falar em uma conjuntura determinada - o pós-guerra, as consequências para os países derrotados e a crise de 1929.

Poulantzas divide o processo de fascização da seguinte maneira: em primeiro momento há o aparecimento das milícias; e em um segundo momento ocorre o recrudescimento do papel do próprio Estado.

Ainda sobre a forma embrionária de bandos armados, milícias, assumem um caráter de partido de massa quando apoiado por frações dominantes durante a etapa de ofensiva contra o proletariado. Nesse momento o partido fascista, dando garantias seguras, ganha o apoio do grande capital e sua ligação com as massas populares mantém-se forte.

Em outro momento o fascismo caminha em direção as massas há ainda uma aliança entre a fração monopolista e a pequena burguesia. Uma vez no poder: Concessões são dadas as massas, é o momento em que  se dá início da dominação do Estado.

No período de estabilização do fascismo: é imposto pelo bloco no poder certas concessões às massas populares. É neste momento que se estabelece a hegemonia do grande capital.

Na visão de Otto Bauer, um dos principais pensadores esquerda, o fascismo é resultado de três processos sociais: Primeiro: A guerra expulsou da vida burguesa e desempregou grande massas incapazes de retornar ao modo de vida burguês, formaram milícias fascistas, com peculiar ideologia militarista, antidemocrática e nacionalista. Segundo: A crise econômica do pós-guerra levou a miséria grandes massas de pequenos burgueses e camponeses. Essas massas abandonaram as fileiras dos partidos de massas democráticos e levantaram-se cheios de ódio e decepção contra a democracia. E por último: Diminuição dos benefícios contra das classes capitalistas que para ressarcir-se aumentou o grau de exploração sobre a classe operária. Como a classe capitalista duvidava que pudesse conseguir por intermédio do regime democrático conter a classe operária, optou então em recorrer às milícias fascistas nacionalistas para que semeasse o terror na classe operária.

Capitalistas ajudaram os fascistas em primeiro momento com auxílio financeiro, posteriormente induzio o Estado a fornecer armas aos fascistas e por fim cedeu o poder Estatal aos fascistas.

O exemplo do caso da Itália os oficiais da reserva desmobilizados depois da guerra foram quem constituiu os núcleos do partido fascista. Homens que não estavam na vida burguesa; odiavam o capitalista especulador;  orgulhosos de suas condecorações e seus ferimentos e que criaram uma aversão ao capitalismo proletário; ressentidos, pois sua pátria, pelo qual haviam dado seu sangue, não podia oferecer-lhes melhores condições e posições; nacionalistas exacerbados em oposição a democracia; homens que não queriam deixar os antigos hábitos contraídos durante a guerra: desejavam dar e receber ordens, usar uniformes e desfilar no ritmo da marcha. Apreciavam assim a indústria da guerra.

Foram esses homens que começaram a formar as organizações paramilitares (ainda mais numerosos na Alemanha). Foram essas as células primordiais do fascismo as que desenvolveram sua ideologia geral.

Para o caso da Alemanha a República na Alemanha nasceu em meio a uma amarga miséria. Um país arruinado no pós-guerra e humilhado. Foi nessa conjuntura que os nacionalista da intelectualidade rebelaram-se contra a situação do país. Assim podemos dizer que as consequências do pós-guerra mundial contribuíram assim para fomentar o nacionalismo alemão.

A grande crise do sistema capitalista de 1929 teve um impacto muito forte sobre a Alemanha e Hitler soube muito bem manobrar a crise de modo colocar o povo a seu lado e o nazismo no poder. Antes da crise, durante a época de prosperidade, o partido Nacional Socialista de Hitler era um grupo sem importância, com a crise de 1929 ele ganha força. A democracia não pode evitar que a crise arruinasse a pequena burguesia e camponeses. Assim esses voltaram-se contra a democracia. Em meio as constantes pressões por parte da classe operária a classe capitalista então decidiu fazer do fascismo para submeter a classe operária. Foi através das “expedições de castigo” que a classe capitalista descobriu como romper com o impetuoso ataque da classe operária. A milícia fascista foi lugar de confluência dos marginalizados de todas as classes. Podemos concluir em Otto que o fascismo nacionalista seria patrocinado pela burguesia e seu poder Estatal.

Uma vez no poder o partido fascista dominaria o proletariado; expulsaria os representantes da burguesia do poder dissolvendo seus partidos sob a justificativa de que salvaria a burguesia da revolução proletária. Na verdade o movimento operário já estava debilitado. Era o momento dos capitalistas escolherem entre destruir o fascismo e assim favorecer a classe operária, ou ceder ao fascismo o poder estatal. Talvez tarde de mais; pois o terror fascista dissolveria e submeteria à sua tutela algumas organizações capitalistas.

Níkos Poulamtzas e Otto Bauer são contribuições valiosas no que tange a compreensão dos regimes fascistas da Europa entre guerras, bem como o processo de fascilização. São autores que embora partem de uma visão de esquerda devem ser lidos e levados em consideração no estudo da história política da Europa.
Bibliografias:

BAUER, Otto. O Fascismo.

POULANTZAS, Nicos. Fascismo e a ditadura: A III Internacional face ao fascismo. Tradução João G. P. e M. Fernanda S. Granado. 1ª ed. Porto: Portucalense Editora, 1972.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Política em Wolfgang Leo Maar

Por Douglas Barraqui

Em “O que é Política” Wolfgang Leo Maar esboça algumas temáticas do universo político de uma forma bem didática e com uma linguagem clara que facilita  a compreensão.

O autor nos ensina que as relações políticas não se dão apenas com a política institucionalizada, ou seja, estatal. Que nós seres humanos somos políticos, praticamos política no nosso dia-a-dia, uma vez que, quer seja no âmbito institucional, quer seja nas relações sociais do cotidiano estamos promovendo relações de poder, que para nosso autor é uma atividade política fundamental. Portanto, para Wolfgang Leo Maar, dentro de uma sociedade que objetiva o poder, existem diversas formas de política.

Wolfgang Leo Maar nos apresenta os partidos políticos como agentes políticos da sociedade moderna. A disputa partidária apresenta-se, para o autor, em dois vieses: de um lado como uma relação com a sociedade e seus interesses; de outro lado como disputa pelo controle do aparelho do Estado. O autor busca em Gramsci a função dos intelectuais orgânicos na atividade política, segundo o qual o intelectual tem como papel elaborar propostas de cunho cultural e política para transformação dos sujeitos e posterior transformação do mundo. Maar vê a política como resultado de um processo histórico. Assim ela se apresenta como atividade aberta ao movimento e a transformação constante.

Ao abordar a política na Grécia e na Roma Antiga, Maar nos diz que a política foi talhada a partir da atividade social dos homens que viviam nas pólis gregas. Filósofos como Platão e Aristóteles teriam dado incomensurável contribuição  e lição, para o mundo ocidental, sobre política.

Maquiavel, nos diz Maar, fez importante distinção entre política de Estado e de Governo. Em Maquiavel o agente da atividade política do Estado é o governo, assim sendo, o dirigente deste governo (em Maquiavel  seria o príncipe) deve possuir virtude, capacidade diante dos acontecimentos de caráter políticos, a finalidade é o poder. Nosso autor elenca ainda que para se governar é necessário ter força, astúcia e, porque não, sorte. Buscando novamente em Gramsci, o autor destaca que o príncipe moderno é nada mais nada menos do que o partido político, e sua meta fundamental é o poder estatal.

Em Marx, o autor diz que a política trata-se de uma disputa de classes sociais, onde o Estado representa a classe dominante, logo o Estado passa a condição de representante de uma classe. Assim a atividade política deixa de ser espaço exclusivo do Estado, para passar a ser palco da luta de classes. A “política”, em Marx, é resultado da luta de classes, deste modo a classe dominada, ou seja, o proletariado tem que desenvolver uma política que supere a sociedade de classes, supere o capitalismo, na busca pelo socialismo.

Maar questiona ainda o papel da política na sociedade brasileira atual, na vida das pessoas (leve em consideração que este livro foi escrito em 1982). Nosso autor se utiliza de alguns momentos da história do Brasil para demonstrar como a política é submetida a constante imprevisibilidade, mudanças e transformações. Com isso, quer nos mostrar que atividade política deve ser compreendida como uma ação prática e transformadora da realidade histórica, havendo deste modo uma gama de orientações possíveis para a política. Apresenta-nos ainda que a atividade política institucional em torno do Estado foi desenvolvida pelos homens ao longo da história, como uma forma prática de organizar a vida social, coletiva buscando atender o interesse comum. Destaca ainda que o Estado pode ser agente da persuasão, do consenso, quer dizer, pode agir através da coerção ou da hegemonia.

Maar nos ajuda a compreender melhor a diferença entre sociedade política e sociedade civil. A sociedade política trata-se da administração pública, o judiciário, as forças armadas; a sociedade civil por sua vez é onde estão os partidos, empresas, sindicatos, movimentos sociais, escolas. Logo, a sociedade civil teria suas próprias instituições para fazer suas reivindicações ao Estado e os partidos políticos seriam as principais instituições, bem como os sindicatos e outros movimentos sociais. Com isso as atividades políticas exercidas pelo Estado buscam o consenso da sociedade civil.

O autor também promove uma discussão entre a relação existente entre política, cultura e ideologia. Como a cultura se manifesta na política, partindo do princípio de que as manifestações culturais oferecem meios para a realização de preceitos políticos, portanto, a cultura não deve ser rebaixada, pois ela tem uma função política, podendo ser utilizada com uma finalidade política. A classe dominante, por exemplo, tenta impor sua cultura como se seus valores fossem universais. A cultura, portanto, aparece com um apoio ideológico usado na legitimação do poder da classe dominante. Maar busca em Georg Lukács a elaboração de que a cultura aparece como uma estratégia política para tomar o poder. E que a cultura pode aparecer como uma função ideológica tanto para quem está no poder, “ideologia conservadora”,  como para os que desejam mudar o poder por intermédio de uma revolução, “ideologia libertadora”. Gramsci chama essa disputa pela conquista do estado de “guerra de posições” e aqui entra os intelectuais com seu papel de produtores da cultura. Portanto, a política também é cultura, ao passo que ela molda sentimentos e comportamentos que influenciam na transformação da realidade.

Maar diz que a política produz uma série de referências e valores para a humanidade, logo a política possuiria também uma missão civilizadora. E o autor nos ínsita a pensar em questões como coloca: Qual o papel do Estado perante a sociedade? Será mesmo que vivemos em um país democrático? Quais os limites das ações do Estado? E o que estamos fazendo enquanto cidadãos, como seres políticos, para alterar a atual realidade política de nosso país.

Referência:

MAAR, Wolfgang Leo. O que e política. 16ª ed. - São Paulo: Brasiliense, [1989?]. 109p.

sábado, 20 de agosto de 2011

Mas, você vai ser professor?


Por Douglas Barraqui

“Mas, você vai ser professor?” é essa a frase de uma comunidade de uma dessas páginas de relacionamentos da internet. Um estudante que almeja entrar em sala de aula e ser professor nos dias de hoje tem pela frente um desafio ciclópico. Digo isso por propriedade com uma boa experiência em sala de aula trabalhando com os pequeninos e curiosos do fundamental; com os adolescentes, as vezes rebeldes sem causa, do ensino médio; passando pelos inseguros jovens pré-vestibulandos, até os esforçados dos preparatórios para concursos. Em fim, tendo eu assistido por esses anos de labuta o atual quadro da educação brasileira e o que de fato significa estar dentro de uma sala de aula com vinte a quarenta alunos esperando algo de você, retruco ao futuro jovem professor: você quer ser professor?

Este não se trata de um daqueles manifestos de insatisfação com a atual condição da educação brasileira, tão pouco farei deste um lamento sobre as dificuldades que um professor tem em sala de aula. Quero apenas ser fidelidigno com a atual realidade conjuntural de uma sala de aula com base em minha experiência. E mais ainda fazer com que você perceba que sala de aula, lecionar, lidar com crianças, jovens em formação é algo que tem que ser feito de forma apaixonada, com amor.

Pareço um tanto subjetivo, mas, veja o que você, futuro professor, terá pela frente: uma sala de aula. Analisando a escola como um espaço sócio-cultural podemos lançar nossos olhos sobre um quadro dinâmico, que se faz presente no cotidiano dos dias letivos, levado a efeito por homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, negros e brancos, adultos, adolescentes, jovens, crianças, em fim, alunos e professores, seres humanos concretos, sujeitos sociais e históricos, atores históricos, filhos de seu tempo.

A instituição escola nos aparece como resultado de um confronto de interesses: de um lado, uma organização oficial do sistema escolar, que define o conjunto de regras e normas, atribui funções e tarefas definindo as chamadas relações sociais. Do outro, os sujeitos, alunos, professores, funcionários, que criam uma trama própria de inter-relações, fazendo da escola um processo permanente de construção social. O que eu quero dizer é que no âmbito da escola e dentro da sala de aula interagem diversos processos sociais que vão desde a reprodução das relações sociais, passando pela criação, transformação e difusão do conhecimento. Isso é uma escola,  dentro dela está a sala de aula e sentados em suas carteiras estão os alunos.  

Portanto a primeira coisa, a saber, futuro professor, é que a escola é um espaço sócio-cultural, ordenado por uma dupla dimensão. Nessa perspectiva, a realidade escolar aparece mediada, no cotidiano dos dias letivos, pela apropriação, elaboração e reelaboração de conhecimentos. Isso vai incluir ao seu currículo de professor: alianças, conflitos, imposições de normas e estratégias individuais ou coletivas, transgressão e acordos entre alunos e professores. E isso não será tarefa fácil.

Mas o que é essa escola? E o que de fato ocorre dentro de suas salas de aula? Trata-se de uma instituição que, pelo discurso muito corrente, deveria buscar atender a todos da mesma forma, com a mesma organização do trabalho escolar, mesma grade curricular. Esse discurso é palpável até certo ponto, mas acaba homogeneizando os sujeitos em questão, alunos e professores. Isso leva consequentemente à homogeneização da instituição escola. Assim, materializado nos programas e livros didáticos, o conhecimento escolar se torna objeto e, ao mesmo tempo, coisa a ser transmitida. Supostamente como será de forma homogenia propagada, será igualmente assimilada, e isso não é verdade.

Dentro de sala, você professor, terá uma gama de alunos com as mais diversas propensões, capacidades para querer ou não assimilar o conhecimento: desde o mais hiperativo, ao mais tímido.  

É muito corrente um professor ministrar uma aula com o mesmo conteúdo, mesmos recursos e ritmos para turmas de quinta série, por exemplo, de uma escola particular do centro, e de uma escola pública da periferia, negligenciando as condições sócio-econômicas desses sujeitos alunos. Nesse quadro, a meu ver, ensinar fica resumido a transmitir conhecimento acumulado, e aprender se torna assimilá-lo. O que é valorizado são as notas obtidas nas provas que reduz a escola a uma única finalidade na visão do aluno: passar de ano. A diversidade acaba tristemente reduzida a bom e mau aluno, esforçada e preguiçosa, obediente e rebelde, disciplinada e indisciplinada. O que eu quero lhe mostrar é que muitas escolas são assim hoje, desconsideram a totalidade das diversidades humanas, do sujeito aluno. E não há um culpado, mas sim vários.

O que você tem que saber de antemão futuro professor é que você estará instruindo seres humanos. No primeiro dia de aula, quando você olhar para eles e ver aquele monte de rostinhos assustados pergunte a si mesmo: quem são esses jovens? De onde vieram? O que eles vêm buscar na escola? Qual significado tem para eles a escola? Talvez você não alcance a resposta de todos, mas, terá um panorama geral da diversidade que é uma sala de aula.

Você tem que saber que essas crianças que estão sentados diante de você professor, esperarão algo de você, bem como você esperará delas. Portanto, você jamais deve resumir a escola, e tão pouco o seu aluno, as quatro paredes, janelas e porta da sala de aula. Essas crianças chegaram para você marcados pela diversidade, reflexos de desenvolvimento cognitivo, afetivo e social anteriores, e que são, evidentemente, desiguais e peculiares em virtude da quantidade e da qualidade de suas experiências e relações sociais, culturais anteriores e até mesmo paralelas a escola.

Não pense professor que você vai salvar o mundo. Ou que existe uma receita mágica para ensinar. Mas se você amar o que faz, fará bem. Então, você será professor?

Bibliografia Consultada:

DAYRELL, Juarez. A escola como espaço sócio-cultural. In: DAYRELL, Juarez (Org.). Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999.

domingo, 14 de agosto de 2011

O Materialismo Histórico Dialético: uma breve consideração


Por Douglas Barraqui

Já tentaram, mas foi um fiasco, explicar os fenômenos sociais com auxílio das leis naturais, ou seja, as leis que regem a natureza. A busca incessante pela verdade empírica é como uma sede implacável para homem e, assim sendo, ele desenvolveu referenciais teóricos e metodológicos como forma de explicar a realidade, matar sua sede pela verdade. Tenho que lhes precaver que esse artigo é diminuto, não se trata de algo aprofundado, apenas pode lhe servir como referência para uma primeira análise quanto ao entendimento do Materialismo Histórico Dialético.

Pois bem, e o que vem a ser o materialismo? Em resumo é um conjunto de doutrinas filosóficas que busca explicações para os problemas diretamente relacionados ao plano da realidade no mundo material ao longo da história. Uma explicação materialista dentro de uma interpretação marxista, por exemplo, coloca um problema social do plano real dentro de um modo de produção.

O materialismo histórico, pois bem, é uma tese do marxismo, que com auxílio do conceito de modo de produção da vida material busca explicações para o conjunto de acontecimentos do plano real envolvendo o social, o político, o econômico e o cultural. Trata-se de um método de compreensão e analise do campo da historiografia. O mesmo que coloca sobre a mesa o conceito de lutas de classes.

Uma analise sobre a ótica do materialismo histórico explica a realidade da seguinte forma: a produção material é o pilar da ordem social, é algo que sempre existiu em todas as sociedades. A repartição do que é produzido, aliado a divisão dos homens em classes é determinada pelo o que, e como, a sociedade produz. Um exemplo prático: o modo de produção escravista da antiguidade: o senhor e seu escravo, o patrício e o plebeu em Roma; o modo de produção feudal: o senhor e o seu servo; e o modo de produção capitalista: o burguês e o proletariado.

A respeito da Dialética trata-se de uma palavra de origem grega que significa “verdade”,  para o nosso caso, “Di” seria igual a duas verdades. Assim podemos esquematizar o método dialético da seguinte forma:


A “tese” trata-se de uma primeira proposição dada; a “antítese” é a oposição, ou seja, contrária à tese. Do choque entre a “tese” e a “antítese” é que temos uma conclusão, a “síntese”. A “síntese” é uma conclusão nova, retirada a partir do embate, a “síntese” porconsequinte torna-se uma nova “tese” que ira se chocar com uma nova “antítese” e como resultado uma nova “síntese”, sendo um processo sem fim.  

 “As relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam todas as relações sociais. O moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial”. [1]

O Materialismo Histórico Dialético, portanto, trata-se de um referencial teórico na busca de explicações para os problemas dos fenômenos do plano da realidade. É utilizável? Sim, mas não consegue aplacar toda a complexidade dos problemas do plano real e tem seus problemas explicativos, como vários outros referenciais teóricos também têm.

Bibliografia:
MARX, Karl. Miséria da filosofia. São Paulo: Grijalbo, 1976. 222p