quarta-feira, 21 de julho de 2010

O culto ao Corpo: uma análise sobre a ótica dos antigos gregos

Por Douglas Barraqui


“Divina Pã – e vós deuses outros destas paragens! Daim-me a beleza da alma, a beleza interior e fazei com que meu exterior se harmonize com essa beleza espiritual. Que o sábio me pareça sempre rico; que eu tenha tanta riqueza quanto um homem sensato possa suportar e empregar.” [1]


Atualmente corpos magros, saudáveis, atléticos e harmoniosos são sinônimos de beleza, qualidades supervalorizadas e, ao mesmo tempo, cobrada e imposta pela nossa sociedade.


Um culto ao corpo e à beleza que movimentam dentro da ótica do sistema capitalista bilhões de dólares em produtos e serviços e faz milhares de pessoas, se submeterem a dor e ao sofrimento, em centros cirúrgicos em dietas mirabolantes, a fim de terem o corpo desejado.


E como os gregos pensavam o corpo? Esse é o objetivo desse artigo. Não trago, portanto, nenhuma receita para emagrecer e tão menos para te dar uma “barriguinha de tanquinho”, me basto apenas em mostrar como os gregos cultuavam o corpo bem antes de nossa sociedade capitalista, consumista, estereotipada e estigmatizada.


O belo para os gregos (το όμορφο για τους Έλληνες)


De fato a batalha por um corpo bonito e saudável é bem antiga, mais ainda do que suponha, a exemplo podemos retornar aos gregos. Para estes a beleza do corpo não se resumia à estética, ela expressava um modo de vida do cidadão grego. O grego belo era aquele que tinha nos exercícios físicos uma prática de valor do grande homem, era aquele que aprendia música, um ser politizado, tendo um gosto ciclópico pelo conhecimento e pela arte.


E os Jogos Olímpicos eram a plataforma de desfile. A ocasião na qual aqueles homens competiam entre si, demonstravam também qualidades valiosas para aquele povo: coragem, astúcia, força, indo muito mais alem do que meramente corpos fortes e bonitos.


Buscando a origem etimológica da palavra ginásio, esta vem do grego “gumnos”, isto é, “nu”, isso porque os jovens que ali competiam e se exercitavam não usavam roupas. Estes ginásios, com destaque para os atenienses, tinham por objetivo transformar o jovem grego em um cidadão completo.


Ali, parte das atividades eram reservadas ao exercício físico. Uma outra parte, os alunos aprendiam leitura, escrita, cálculo, poesia e música. Aprendiam ainda, com os mais velhos, e falar bem e a argumentar com perfeição. Além disso é importante destacar que os treinamentos físicos não tinham um puro intuito militar, procuravam também preparar o homens para as competições nos Jogos Olímpicos.


A beleza nos atletas olímpicos (η ομορφιά των Ολυμπιακών αθλητών)





Os famosos Jogos Olímpicos, que sobreviveram ao fim da civilização grega e até hoje são celebrados, eram realizados em homenagem a Zeus. A data que se considera como o início dos jogos é 776 a. C., porém esta foi de fato a data pela qual o nome dos vencedores passaram a ser registrados, a historiografia sabe que as competições olímpicas eram bem mais antigas, alguns sugerem que é originária de antes do ano 1000 a. C. O ato de registrar o nome dos grandes campeões seria um ato de vaidade entre os gregos?


O torneio considerado inaugural foi realizado na cidade grega de Olímpia. O grande vencedor foi Coroebus de Ilia. Com uma armadura e escudos pesados ao corpo, como todos na pista, ele foi o grande vencedor olímpico a percorrer 193 m da prova de velocidade. A sabedoria entre os helênicos premiava os campeões com a aura da imortalidade: os feitos e marcas poderiam ser superados, todavia, nunca apagados. Chionis de Olímpia, grande campeão do salto em distância em 656 a. C. e um grande exemplo: se os arqueólogos não cometeram erros na tradução dos registros erodidos, sua marca foi a de 7 m e 05. Um recorde que atravessaria dois milênios de história. Ele venceria, com louvor, os Jogos de Atenas de 1896, quando o norte americano Ellery Clark surpreendeu saltando 6 m 35. competindo em Paris em 1900 e Saint Louis em 1904, o grego ainda subiria ao podium por duas vezes para buscar o bronze e a prata. O belo Chionis e seu feito ciclópico etraram para a história.


De fato, apenas os homens disputavam as provas olímpicas, e os vencedores, a exemplo de Coroebus e Chionis, eram premiados com uma coroa de louros. As mulheres promoviam uma competição à parte, a Herae. Sendo realizada na cidade de Argos, e significava uma homenagem a Hera, esposa de Zeus.


Atletas como Coroebus e Chionis eram, para os gregos, a expressão maior da coragem e da beleza física dos homens. Suas formas e habilidades impressionantes, a sua força invencível, suas astúcia eram sinônimo de uma cidade Estado Grega de grande homens, capazes de protegê-la.



A exemplo daquela época, os atletas modernos representam o ideal beleza e, porque não, de cidadania. Hoje, ao subir ao podium mais alto para receber a medalha de ouro e a coroa de louros, como acontecia com os atletas gregos, não é somente o atleta que esta sendo premiado, mas também o próprio país que ele representa. Sinônimo de orgulho para os seus compatriotas, um espelho aos jovens futuros atletas e uma dose de entusiasmo dentro do louvor a vitória da pátria mãe do atleta.


Assim como nos atletas olímpicos, também podemos observar o ideal de beleza grego nos heróis dos mitos gregos, a exemplo de Aquiles, que participou do cerco à Tróia; Teseu, que derrotou minotauro no labirinto de Creta e Perseu que decapitou a medusa, isso sem citar Hercules.


Entre os gregos e o mundo contemporâneo: a ditadura dos padrões de beleza


Nos idos do século XIX, os ginásios multiplicavam-se e os manuais médicos começavam a chamar a atenção para as vantagens da prática de exercícios físicos como prerrogativa para uma vida saudável. No início do século XX, surge a concepção de que mulher magra era sinônimo de beleza. O corpo magérrimo tornou-se uma moda alguns e para outros uma obsessão. Os bons casamentos passaram a depender desse aspecto de “boa aparência”.


O cinema americano tomou o lugar de Paris nos ditames da moda e da beleza. Hollywood com seus estúdios, máquinas dos sonhos, do “american way of life”, e com o poder de sedução de suas estrela e galãs serviriam de modelo para a concepção de beleza que aplaca o mundo moderno.


A velhice passa a ser encarada como perda de prestígio e de afastamento do âmbito social, a obesidade entra para o hall das aberrações e torna-se um critério determinante, sinônimo, para a feiúra. A gordura se era assistida como um entrave aos novos tempos que exigem velocidade e agilidade.


As ditas carnudas dos anos de 1950, como Marilyn Monroe, eram substituídas por mulheres esqueletizadas. E uma onda de bulimia e anorexia nervosa começa a multiplicar entre os jovens. O magérrimo e o esqueleto a mostra passa a ser concebido como belo.


Uma tirania insólita da dita perfeição física. E com os avanços da medicina estética, o que não vem de fábrica pode ser facilmente adicionado ou retirado. Assim as mulheres e recentemente os homens constantemente entram nas salas de cirurgias para corrigir suas, ditas imperfeições.


O que podemos denotar, em uma analise do culto a forma entre os gregos e o homem moderno é que enquanto os gregos cultuavam o belo de forma que o corpo serve a um propósito maior; o homem contemporâneo, nas palavras de Mary Del Priori, serve ao corpo em vez de servir-se dele.


1, Prece de Sócrates. In PLATÃO. Fedro: texto integral. São Paulo: Martin Claret, 2003. pg. 125.


Bibliografia:


PLATÃO. Fedro: texto integral. São Paulo: Martin Claret, 2003. Pg. 125.


PRIORI, Mary Del. Corpo a corpo com a mulher: pequena história da transformação do corpo feminino no Brasil. São Paulo: Senac, 200. P61-98.

Um comentário:

Anônimo disse...

caraca, essa ultima frase fco top d+!
o homem serve ao corpo em vez de servir-se dele.
\O/