domingo, 5 de abril de 2015

RESSURREIÇÃO: A HISTÓRIA E O GRANDE DOGMA DO CRISTIANISMO

Por Douglas Barraqui

A revista Veja deste mês trás em sua capa “o poder da ressurreição: como o grande dogma do cristianismo resiste em um mundo cada vez mais cético”.  Por que, depois de pouco menos de 2 000 anos, a crença na ressurreição de Jesus Cristo, um dos mais extraordinários mistérios da fé, ainda exerce efeito tão arrebatador?

Acreditar na ressurreição de Cristo, você pode me dizer, trata-se de uma questão de fé. Sim, trata-se de uma questão de fé, mas a história, também, nos dá uma visão privilegiada desse acontecimento ímpar do cristianismo.

Flávio Josefo, historiador judeu que viveu de 37 d.C. até o ano 100, em seu livro “Antiguidades Judaicas”, livro 18, parágrafos 63 e 64, escrito em 93 em grego koiné, diz sobre Jesus Cristo:

"Havia neste tempo Jesus, um homem sábio [, se é lícito chamá-lo de homem, porque ele foi o autor de coisas admiráveis, um professor tal que fazia os homens receberem a verdade com prazer]. Ele fez seguidores tanto entre os judeus como entre os gentios. [Ele era o Cristo.] E quando Pilatos, seguindo a sugestão dos principais entre nós, condenou-o à cruz, os que o amaram no princípio não o esqueceram; [ porque ele apareceu a eles vivo novamente no terceiro dia; como os divinos profetas tinham previsto estas e milhares de outras coisas maravilhosas a respeito dele]. E a tribo dos cristãos, assim chamados por causa dele, não está extinta até hoje."

Alguns podem até contestar o testemunho de Flávio Josefo, pois seus textos poderiam ter sido alterados pelos monges copistas da Idade Média. Primeiro, os monges copistas eram, grande maioria, analfabetos justamente para não alterarem os textos que copiavam. Segundo, as cópias em árabe, feitas por muçulmanos, trazem a mesma observação sobre Jesus Cristo.

Os mais céticos contestam mesmo os evangelhos dizendo que a ressurreição de Cristo nada mais é do que uma pura e simples propaganda. Porém, a forma como esse acontecimento único está disposto nos evangelhos nos mostra o contrário: Primeiro, a ressurreição era uma das doutrinas da antiguidade que poucos ousavam acreditar e aceitar. Comprar mais essa idéia seria se colocar ainda mais em perigo em um momento de perseguição dos cristãos. Segundo, na antiguidade, o testemunho de uma mulher era facilmente invalidado. Mas, curiosamente, a primeira a avistar e testemunhar Cristo ressuscitado foi Maria Madalena. Se, de fato, fosse uma propaganda, o primeiro a ser testemunho da ressurreição de Cristo deveria ter sido um homem, mas assim não o foi. 

Não estou aqui, portanto, para desmistificar a sua fé, tão pouco contestar seu ceticismo. Quero apenas pontuar como a história pode dar sua contribuição para um dos acontecimentos mais singulares da história do cristianismo.

Referência:


JOSEFO, Flávio. Seleções de Flávio Josefo, Editora das Américas, 1974, tradução de P. Vicente Pedroso.


DONINI, Ambrogio. História do Cristianismo. Lisboa, Edições 70, s/d

2 comentários:

pauloveras disse...

Bela visão amigo, ainda mais sob a ótica de um historiador.

Ivani Medina disse...

Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo, eu já tinha uma ideia formada que pode parecer esdrúxula: a perseguição aos judeus. Portanto, nada de Bíblia, teologia e história das religiões. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado à conclusão alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no máximo, sabiam que o que se pensava saber não era verdade. É isso o que a nossa cultura espera de nós, pois não tolera indiscrições. Como o mundo não havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histórica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros séculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro “Jesus existiu ou não?”, de Bart D. Ehrman, exponho algumas das conclusões as quais cheguei e as quais o meio acadêmico de forma protecionista insiste ignorar.

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