quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

HiStO é HiStÓrIa HOJE: 23 DE DEZEMBRO DE 1888 VINCENT VAN GOGH ENTREGA A PRÓPRIA ORELHA A UMA PROSTITUTA

Prof. Douglas Barraqui

Vincent Van Gogh - Auto retrato com a orelha cortada - 1889

Em 23 de dezembro de 1888, véspera de Natal, a prostituta Rachel recebeu um presente inusitado de um cliente, uma orelha ensanguentada e enrolada em um lenço branco. O dono da orelha era, nada mais nada menos que um dos maiores pintores pós-impressionistas da história, Vincent Willem van Gogh.

Vincent van Gogh tinha um sonho: fundar uma colônia de artistas em Arles, no Sul de França, local de paisagens belíssimas. Seu sonho era compartilhado pelo pintor francês Eugène-Henri-Paul Gauguin. Porém, os desentendimento entre as duas mentes brilhantes era comum.

No dia 23 de dezembro de 1888, Gauguin e van Gogh discutem. Gauguin resolve sair para uma caminhada e é seguido por Van Gogh que o surpreende com uma navalha aberta. Gauguin assustado decide pernoitar em uma pensão. Cheio de remorso e transtornado, Vincent corta um pedaço de sua orelha direita, embrulha em um lenço branco e leva, como presente, a uma prostituta Rachel, com a qual o artista mantinha relações. Junto um bilhete que dizia: "Guarde com cuidado”. O artista retorna à sua casa e deita-se para dormir como se nada acontecera. A polícia é avisada e encontra-o sem sentidos e ensanguentado.

Já reabilitado após 14 dias no hospital, van Gogh pinta o Auto-Retrato com a Orelha Cortada. O episódio trágico convenceu van Gogh da impossibilidade de montar uma comunidade de artistas em Arles. Gauguin, o amigo artista, se afasta: "Vincent e eu não podemos simplesmente viver juntos em paz, devido à incompatibilidade de temperamentos".

Vincent van Gogh faleceu em 29 de julho de 1890, após um disparo acidental feito por dois jovens que manejaram uma arma em más condições. Van Gogh vendeu apenas um quadro em vida, o Vinhedo Vermelho, por 400 francos. Hoje suas obras valem milhões. Van Gogh  foi uma mente brilhante de seu tempo. E assim como muitos outros só foi reconhecido como tal após sua lapide estar selada.

REFERÊNCIAS:

WALTHER, Ingo F.. In: Taschen. Vincent Van Gogh. [S.l.: s.n.].


CABANNE, Pierre. In: Thames and Hudson. van Gogh. 1974 ed. Alemanha: [s.n.], 1974. Capítulo: Saint-Rèmy 3rd May 1889 - 16th May 1890. , 189 p.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O MUNDO DO MEU ALUNO EM UM DESENHO INUSITADO

Hoje ao corrigir uma prova de recuperação fui surpreendido com uma obra de arte:



Meu aluno foi capaz de transportar para uma pintura de Carlos Julião (1770 - retrata a mineração de diamantes no período colonial da história do Brasil) robôs, naves espaciais, caos, violência, guerra e fogo. Uma intervenção um tanto quanto inusitada. Excelente noção de perspectiva e, eu diria, em 3D. A questão que avaliaria seu aprendizado foi deixada em branco.

Tirando as habilidades artísticas do meu aluno, fiquei por alguns minutos a me perguntar. O porquê daquele desenho? O porquê de robôs transportados para um mundo de exploração, violência e escravidão?

MINHA CONCLUSÃO APÓS ALGUNS MINUTOS ANALISANDO A OBRA:

Este na verdade não é o mundo do século XVIII - o mundo do pacto colonial, da sociedade escravista, da exploração da metrópole sobre a colônia. É o retrato do mundo do meu aluno. O mundo do meu aluno é um mundo de guerras, caos, violência e, por que não, escravidão. Hoje vivemos um novo tipo de escravidão, somos escravos das máquinas.

Quando saímos de casa sem o celular é como se faltasse uma parte do nosso corpo. Um dia sem jogar videogame é motivo de discórdia e mesmo violência entre do filho contra a mãe. Uma semana sem internet, redes sociais, e sem compartilhar e curtir; a criança terá febre, vômitos, convulsões. Sintomas muito parecidos de um dependente químico.


O meu mundo, o mundo da bolinha de gude, do pião, da amarelinha, do pique-pega, pique-bandeira, foi substituído pelo mundo em 3D. Com direito a robôs e naves espaciais. Não estou dizendo que é um mundo melhor ou pior. É apenas o mundo do meu aluno. Meu aluno apenas desenhou o mundo dele. 

Referência:

JULIÃO, Carlos.  Brazil, Da Mineração, De Diamantes, Arte Brasileira, Imagem Da, Mineração De, 1770 Carlos, Desenhos Em História do Brasil.

sábado, 12 de dezembro de 2015

O QUE PODEMOS APRENDER COM O RELÓGIO CUCO, MAQUIAVEL, TROPICÁLIA, A LEGIÃO E O CALYPSO

Prof. Douglas Barraqui

A Suíça em 5 anos de estabilidade política e econômica produziu o relógio cuco. A Itália submersa em crise política com seus principados em guerra, instabilidade econômica produziu Maquiavel, Michelangelo, Torquato.

Momentos de estabilidade e tranquilidade nos deixam letárgicos e anestesiados. Eu diria até mesmo acomodados. Momentos de crise e instabilidade, uma situação de incomodo, nos abre um leque de opções para mudanças, transformações. Eu diria superação.

Veja o exemplo na música: a década de 70, marcada pela tragédia do regime militar, censura, repressão, perseguição política e torturas, produziu  Francisco Buarque de Hollanda, Elis Regina, Geraldo Vandré e Caetano Veloso. A década de 80, a “década perdida” com inflação acumulada ao ano em 365,9%, e 90 da “geração Coca Cola”, produziu a Legião Urbana, Paralamas e Titãs. Os últimos 15 anos de um país passando por uma relativo desenvolvimento econômico e estabilidade, chegamos a condição de 6ª potência econômica mundial, produziu-se banda Calypso.


Calypso não é melhor ou pior que a Legião Urbana. São apenas filhos de seus respectivos momento histórico. Nosso país hoje oferece as condições perfeitas, oportunidade de mudança, transformação e acima de tudo superação. Então pare de ficar lamentando sobre a crise, reclamando desse ou daquele governo e mexa o seu rabo. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

MARIA QUITÉRIA “MULHER MACHO SIM SENHOR”

Prof. Douglas Barraqui
Maria Quitéria (Domenico Failutti, 1920)

Hábil com as armas, disciplinado e audacioso o soldado Medeiros, herói da luta pela independência do Brasil, era na verdade Maria Quitéria de Jesus Medeiros. Em 1823 Maria Quitéria foi a primeira mulher a assentar praça numa unidade militar das Forças Armadas Brasileiras. Foi também a primeira mulher a entrar em combate defendendo o Brasil.

Maria Quitéria nasceu no sítio do Licurizeiro, uma pequena propriedade no Arraial de São José das Itaporocas, na comarca de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, atual município de Feira de Santana no estado da Bahia. A data mais aceita pelos historiadores para o seu nascimento é o ano de 1792. Foi filha primogênita dos portugueses nascidos na colônia do Brasil Gonçalo Alves de Almeida e Quitéria Maria de Jesus.

Em 1822 quando eclodiram as lutas pela independência do Brasil Maria Quitéria, pediu autorização ao pai para se alistar, tendo este negado. Fugiu para a casa de sua meia-irmã, Teresa Maria, casada com José Cordeiro de Medeiros e, com o auxílio de ambos, cortou os cabelos e vestindo-se como um homem, dirigiu-se à vila de Cachoeira, onde se alistou sob o nome de Medeiros, no Regimento de Artilharia. Mas, duas semanas depois, acabou sendo descoberta pelo pai.

O Major José Antônio da Silva Castro, avô do poeta Castro Alves, que na época era comandante do Batalhão dos Voluntários do Príncipe, mais conhecido como "Batalhão dos Periquitos", se colocou do lado de Maria Quitéria que acabou sendo incorporada às tropas. Em seu uniforme foi acrescentado um saiote estilo escocesa.

A amazona seguiu com seu batalhão para defesa da Ilha da Maré em 29 de outubro de 1822. Integrando a Primeira Divisão de Direita, lutou ainda em Conceição, Pituba e Itapoã. Em fevereiro de 1823, participou com grande bravura do combate da Pituba, quando atacou uma trincheira inimiga, onde fez vários prisioneiros portugueses, segundo alguns autores apenas dois, escoltando-os, sozinha, ao acampamento.

Em 31 de março de 1823, alcançou o posto de Cadete, recebeu, por ordem do Conselho Interino da Província, uma espada e seus acessórios. Em 2 de julho de 1823, vestindo uniforme de cor azul, com saiote por ela elaborado, além de capacete com penacho, Maria Quitéria foi saudada e homenageada pela população em festa de Salvador. General Pedro Labatut, enviado por D. Pedro I para o comando geral da resistência, conferiu-lhe as honras de 1º Cadete. E no dia 20 de agosto foi recebida no Rio de Janeiro pelo próprio Imperador D. Pedro I, que a condecorou com a Imperial Ordem do Cruzeiro, no grau de Cavaleiro.

Mesmo vestindo roupas de soldado, muitos cronistas da época diziam que Maria Quitéria mantinha sua feminilidade e tinha uma beleza marcante. Casou-se com o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha Luísa Maria da Conceição. Após a morte do marido mudou-se com a filha para Salvador, onde ficou parcialmente cega e faleceu no anonimato em 1853.

Por Decreto da Presidência da República, de 28 de junho de 1996, Maria Quitéria foi reconhecida como Patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. A sua imagem encontra-se em todos os quartéis, estabelecimentos e repartições militares da Força, por determinação ministerial.

REFERÊNCIAS:

AMARAL, Braz do. História da Independência da Bahia. Salvador: Livraria Progresso Ed., 1957.

PALHA, Américo. Soldados e Marinheiros do Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército-Editora, 1962. p. 47-51.


SILVA, Joaquim Norberto de Souza. Brasileiras Célebres (ed. fac-similar). Brasília: Senado Federal, 1997.

domingo, 29 de novembro de 2015

DEDO NO CU INCOMODA MAIS OS OLHOS DO QUE O ÂNUS

Prof. Douglas Barraqui

O 22º Festival MIX Brasil de Cultura da Diversidade, trouxe uma atração no mínimo inusitada: “performance Macaquinho” que conta com nove atores que exploraram os ânus alheios, uns dos outros.



ISSO É ARTE?

A ARTE tem um poder de estimulante sobre nos seres humanos: um livro pode nos fazer chorar, um filme pode nos deixar triste, uma música pode nos deixar felizes, ou tocar nossa paixão por alguém e o dedo no cu de alguém pode nos causar ojeriza. A arte consegue tocar nossos sentidos, emoções e pensamentos.

A ARTE pode ser inúmeras coisas. E uma das coisas mais importantes, a saber, sobre a arte é que ela “RECRIA O MUNDO EM QUE VIVEMOS”. Esse mundo, dependendo de quem observa, pode ser mais belo ou mais feio; mais ou menos significativo. Porém, de alguma forma, esse mundo novo revela alguma coisa diferente sobre essa mesma realidade.

Embora a beleza esteja indissociavelmente ligada à arte, esta não é necessariamente, e nem tem que ser, bela. Arte nem sempre é algo belo e maravilhoso. Pode ser feia, de causar espanto e ojeriza, mas não deixa de ser arte por isso, desde que consiga tocar nossas emoções arte é arte.

As perguntas que devemos fazer são outras:

1)    De onde veio a CRIATIVIDADE para a “performance Macaquinhos"?

2)    Durante muito tempo o artista foi visto de um jeito especial, dotado de um TALENTO especial ou de uma INSPIRAÇÃO. De onde viria a INSPIRAÇÃO para essa manifestação, no mínimo anti-higiênica?

3)     Se a arte recria o mundo em que vivemos, que mundo essa performance estaria recriando?

Se a arte, de fato, recria o mundo em que vivemos. E esse mesmo mundo serve de inspiração para a criatividade do artista. QUE MUNDO SERIA ESSE?

Aqui eu recorro a Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, um dos intelectuais mais respeitados da atualidade, especificamente o que ele trata como sendo o “MUNDO LÍQUIDO”. Recorro, também, ao filósofo estadunidense Marshall Berman e sua obra, que é uma crítica a modernidade, “TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR”, originalmente um frase de Karl Marx.

Hoje vivemos em um mundo líquido. Assim como a água, os valores se escorrem, se perdem ao evaporar, fluem e se moldam. Assim como o ar, tudo se esvai, evapora, é levado pelo vento que é o ar em movimento.

Vivemos em um mundo em que os valores facilmente se vão, se moldam, se escorrem. Vivemos em um mundo, uma sociedade, em que ninguém mais se preocupa com o próprio umbigo ou o próprio nariz, ou o próprio cu. Estamos preocupados com o do outro. Temos que “cutucar”, olhar, bisbilhotar, tocar, cheirar. Isso acontece em nossas interações sociais, no trabalho, na escola, com os amigos em um bar, na família e, principalmente, nas redes sociais.

Ao “bisbilhotarmos” a vida do outro, o que nos interessa é justamente o que causa escárnio, o que fede, a parte mais asquerosa e nojenta do outro. Aqui entra o cu da “performance macaquinho”.

Por exemplo: ninguém está interessado no vídeo do you tube “Jovem ajuda vovozinha atravessar avenida”. Mas, todos estão interessados em “senhora é atropelada por um caminhão de gás”. Paramos para ver, tiramos fotos, filmamos e postamos nas redes sociais. Em algumas horas milhares de compartilhamentos e likes. Repito: o que nos interessa é o que nos causa escárnio, ojeriza, o que fede. E buscamos isso no outro.

A “performance macaquinho” foi aplaudida, pessoas pagaram para assistir. Mas, como seria recebida essa mesma performance nas décadas de 70, 80 e 90? Na década de 70, muito provavelmente, todos, inclusive os espectadores, seriam presos, torturados e acusados mancomunar com o comunismo – isso porque enfiar o dedo no cu do outro é coisa de comunista. Na década de 80, a década perdida, crise econômica, moeda desvalorizada, inflação que chegou há fechar o ano acumulada em 365,9%, muito provavelmente não teria dinheiro para realização de tal performance. Na década de 1990 todos seriam presos por atentado violento ao pudor.

Agora lanço outras reflexões, outros problemas:

1)    O QUE FEZ O NOSSO MUNDO SE TORNAR TÃO LÍQUIDO?

2)    COMO É POSSÍVEL VALORES SE PERDEREM TÃO RAPIDAMENTE?


3)    COM OS VALORES SE ESCORRENDO, SENDO LEVADOS TÃO RAPIDAMENTE, PARA QUE DIREÇÃO NOSSO MUNDO ESTÁ CAMINHANDO?

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

MAPAS HISTÓRICOS - MAPA DE ERATÓSTENES (220 A.C.)

Prof. Douglas Barraqui

Abaixo, uma reconstituição (de autor não identificado) do mapa de Eratóstenes, de cerca de 220 aC. O matemático grego e bibliotecário da Alexandria usou os levantamentos do mundo conhecidos, após as conquistas de Alexandre, o Grande.


O mapa acima foi por mim adaptado do original Mapa de Eratóstenes. Disponível em http://www.mapas-historicos.com/mapa-eratostenes.htm. Acesso em 25 de novembro de 2015.


Fonte: http://www.mapas-historicos.com/mapa-eratostenes.htm

DEZ MANDAMENTOS DO PROFESSOR

Prof. Leandro Karnal


A sabedoria do mais influente legislador do Ocidente, Moisés, sintetizou uma concepção de mundo em Dez Mandamentos. Como bom educador, o ex-príncipe do Egito sabia que longos códigos são de difícil acesso. Curioso notar que constituições muito breves, como a norte-americana, passam dos dois séculos e constituições prolixas, como todas as brasileiras , caducam em prazos muito curtos.

Inspirados neste exemplo, elaboramos os Dez Mandamentos do Professor. Estes dez mandamentos são fruto de uma experiência particular e não se pretendem eternos ou válidos em qualquer ocasião. Gostaria apenas de fornecer a colegas, como você leitor, uma reflexão particular, que possa ser aprofundada, reinterpretada ou rejeitada de acordo com a sua experiência.

O que me levou a pensar nestes princípios é a mesma angústia que assola qualquer educador: como ser um bom profissional, ensinar, transformar meu aluno e fazer parte desta transformação? Como superar o tédio dos meus alunos, a indisciplina, a irrelevância de algumas coisas que faço e meu próprio cansaço? Como não considerar a sala um fardo e o relógio um inimigo? Como parar de achar que só vivo a partir do fim-de-semana? A partir destes questionamentos, você está permanentemente convidado a adensar ou criticar, fazer seus outros dez ou sintetizar a dois ou três, pois, quem acha que pode melhorar a aula que dá, já começou a viver educação. E quem não acha que pode? Bem, deixa para lá! Ensinar não é a única profissão do mundo…

PRIMEIRO MANDAMENTO: CORTAR O PROGRAMA!

Quase todas as disciplinas foram perdendo aulas ao longo das décadas anteriores. Não obstante, os programas nem sempre acompanharam estes cortes. Pergunte-se: isto é realmente importante? Este conteúdo é essencial? Não seria melhor aprofundar mais tais tópicos e menos outros? Se a justificativa é a pressão do vestibular, ela não pode ocupar 11 anos de Ensino Médio e Fundamental. Se a justificativa é uma regra da escola ou um coordenador obsessivo, lembre-se: o Diário de Classe sempre foi o documento por excelência do estelionato. A coragem da grande tesoura é essencial. Dar tudo equivale a dar nada. Ensinar a pensar não implica esgotar o conhecimento humano.

-SEGUNDO MANDAMENTO: SEMPRE PARTIR DO ALUNO!

Chega de lamentar o aluno que não temos! Chega de lamentar que eles não lêem, a partir de uma nebulosa memória do aluno perfeito que teríamos sido (nebulosa e duvidosa). Este é o meu aluno real. Se, para ele, Paulo Coelho é superior a Machado de Assis e baile Funk é superior a Mozart, eu preciso saber desta realidade para transformá-la. Se ele é analfabeto devo começar a alfabetizá-lo. Se ele está no Ensino Médio e ainda não domina soma de frações de denominadores diferentes devo estar atento: esta é minha realidade. A partir do zero eu posso sonhar com o cinco ou seis. A partir do imaginário da perfeição é difícil produzir algo. A Utopia, desde Platão e Thomas Morus, tem a finalidade de transformar o real, nunca de impossibilitá-lo.

-TERCEIRO MANDAMENTO: PERDER O FETICHE DO TEXTO!

Em todas as áreas, em especial nas humanas, os alunos são instigados quase que exclusivamente ao texto. Num mundo imerso na imagem e dominado por sons e cores, tornamos o texto central na sala de aula. Devemos estar atentos ao uso de imagens, música, sensorialidades variadas. O texto é muito importante, nunca deve ser abandonado. Porém, se o objetivo é fazer pensar, o texto é apenas um instrumento deste objetivo maior. Há pessoas que pensam e nunca leram Camões e há quem saiba Os Lusíadas de cor e não pense. Lembre-se de que há outros instrumentos. A sedução das imagens deve ser uma alavanca a nosso favor, nunca contra. Usar filmes, propagandas, caricaturas, desenhos, mapas: tudo pode servir ao único grande objetivo da escola: ajudar a ler o mundo, não apenas a ler letras.

-QUARTO MANDAMENTO: POSSIBILITAR O CAOS CRIATIVO.

Fomos educados a um ideal de ordem com carteiras emparelhadas e, mesmo no fundo do nosso inconsciente, este ideal persiste. Qual professor já não teve o pesadelo de perder o controle total de uma sala, especialmente na noite mal dormida que antecede o primeiro dia de aula? Devemos estar preparados para o caos criador e para o lúdico. Alunos andando pela sala, trocando fragmentos de textos ou imagens dados pelo professor, discussões, encenações, o professor recitando uma poesia ou mandando realizar um desenho: tudo pode ser canal deste lúdico que detona o caos criativo. Surpreenda seus alunos com uma encenação, com um silêncio, com um grito, com uma máscara. Uma sala pode estar em ordem e ninguém aprendendo e pode estar com muitas vozes e criando ambiente de aprendizado. Lembre-se o silêncio absoluto é mais importante para nós do que para os alunos. É difícil vencer a resistência dos colegas e da própria escola a isto. Lógico que o silêncio também deve ser um espaço de reflexão, mas é possível pensar que há valor num solo gentil de flauta, numa pausa ou num toque retumbante de 200 instrumentos.

-QUINTO MANDAMENTO: INTERDISCIPLINAR!

Assim mesmo, entendido o princípio como um verbo, como uma ação deliberada. É fundamental fazer trabalhos com todas as áreas. Elaborar temas transversais como o MEC pede e, ao mesmo tempo, libertar o aluno da idéia didática das gavetas de conhecimento. Não apenas áreas afins (como História e Geografia), mas também Literatura e Educação Física, Matemática e Artes, Química e Filosofia. É preciso restaurar o sentido original de conhecimento, que nasceu único e foi sendo fragmentado até perder a noção de todo. O profissional do futuro é muito mais holístico do que nós temos sido até hoje.

-SEXTO MANDAMENTO: PROBLEMATIZAR O CONHECIMENTO.

Oferecer ao aluno o cerne da ciência e da arte: o problema. Não o problema artificial clássico na área de exatas, mas os problemas que geraram a inquietude que produziu este mesmo conhecimento. A chama que vivou os cientistas e artistas é transmitida como um monumento inerte e petrificado. Mostrem as incoerências, as dúvidas, as questões estruturais de cada matéria. Mostrem textos opostos, visões distintas, críticas de um autor ao outro. Nunca fazer um trabalho como: “O Feudalismo” ou “O Relevo do Amapá”; mas problemas para serem resolvidos. Todo animal (e, por extensão, o aluno) é curioso. Porém, é difícil ser curioso com o que está pronto. Sejamos francos: se é tedioso ler um trabalho destes, qual terá sido o tédio em fazê-lo?

-SÉTIMO MANDAMENTO: VARIAR AVALIAÇÕES.

Provas escritas são válidas, como a vitamina A é válida para o corpo humano. Porém, avaliações variadas ampliam a chance de explorar outros tipos de inteligência na sala. As outras avaliações não devem ser vistas como um trabalhinho para dar nota e ajudar na prova, mas como um processo orgânico de diminuir um pouco a eterna subjetividade da avaliação.

-OITAVO MANDAMENTO: USAR O MUNDO NA SALA DE AULA!

O mundo está permeado pela televisão, pela Internet, pelos jornais, pelas revistas, pelas músicas de sucesso. A escola e a sala de aula precisam dialogar com este mundo. Os alunos em geral não gostam do espaço da sala porque ele tem muito de artificial, de deslocado, de fora do seu interesse. Usar o mundo da comunicação contemporânea não significa repetir o mundo da comunicação contemporânea; mas estabelecer um gancho com a percepção do meu aluno.

-NONO MANDAMENTO: ANALISAR-SE PESSOALMENTE!

A primeira pessoa que deve responder aos questionamentos da educação é o professor. Somos nós que devemos saber qual o motivo de dar tal coisa, qual a relevância, qual a utilidade de tal leitura. O professor é o primeiro que deve saber como tal ciência transformou a sua vida. Isto implica fazer toda espécie de questão, mesmo as incômodas. Se eu não fico lendo tal autor por prazer e nem o levo aos meus passeios como posso exigir que um jovem ou uma criança o façam? Qual a coerência do meu trabalho? Minha irritação com a turma indisciplinada é uma espécie de raiva por saber que eles estão certos? Minha formação permanente me indica novos caminhos? Estou repetindo fórmulas que deram certo quando eu era aluno há 20 ou mais anos? É necessário um exercício analítico-crítico muito denso para que eu enfrente o mais duro olhar do planeta: o do meu aluno.

-DÉCIMO MANDAMENTO: SER PACIENTE!

Hoje eu acho que ser paciente é a maior virtude do professor. Não a clássica paciência de não esganar um adolescente numa última aula de sexta-feira, mas a paciência de saber que, como dizia Rubem Alves, plantamos carvalhos e não eucaliptos. Nossa tarefa é constante, difícil, com resultados pouco visíveis a médio prazo. Porém, se você está lendo este texto, lembre-se: houve uma professora ou um professor que o alfabetizou, que pegou na sua mão e ensinou, dezenas de vezes, a fazer a simples curva da letra O. Graças a estas paciências, somos o que somos. O modelo da paciência pedagógica é a recomendação materna para escovar os dentes: foi repetida quatro vezes ao dia, durante mais de uma década, com erros diários e recaídas diárias. As mães poderiam dizer: já que vocês não querem nada com o que é melhor para vocês, permaneçam do jeito que estão que eu não vou mais gritar sobre isto (típica frase de sala de aula…).

Sem estas paciências, seríamos analfabetos e banguelas. Não devamos oferecer menos ao nosso aluno, especialmente ao aluno que não merece nem quer esta paciência este é o que necessita urgentemente dela. O doente precisa do médico, não o sadio. O aluno-problema precisa de nós, não o brilhante e limpo discípulo da primeira carteira. Há alguns anos eu falava de alguns destes princípios e uma senhora redargüiu dizendo que ela fazia tudo isto e muito mais e, mesmo assim, os alunos estavam cada vez piores e com menos resultados. Olhei para esta professora e senti nela o reflexo de meus cansaços também. A única coisa que me ocorreu lembrar é uma alegoria, com a qual encerro este texto:

Na nossa cultura há um modelo de professor: Jesus. A maioria absoluta das pessoas no Brasil é cristã, mas a alegoria serve também para os que não são. Tomemos a história de Jesus independente da nossa orientação religiosa. Comparemos: Jesus teve 12 alunos escolhidos por ele! Eu tenho 30, 60, 100, escolhidos por um rigoroso processo de seleção: inscreveu, pagou, entrou. Jesus teve alunos em tempo integral por três anos: eu tenho por duas ou quatro aulas semanais, por um período mais curto. Os alunos de Jesus deixaram tudo para segui-lo, o meu não deixa quase nada e não quer acompanhar nem meu pensamento, quanto mais minhas propostas existenciais. Fiel aos novos ditames do MEC, Jesus deu um curso superior em três anos. Para quem acredita, Ele fazia milagres, coisa que nós certamente não fazemos naquele sentido. A aula, de Jesus, assim, era reforçada por work-shops. A auto estima e a confiança de Jesus era enorme: o cara simplesmente dizia que era o Filho de Deus, que ressuscitava mortos, andava sobre as águas, passava quarenta dias sem comer e não tinha medo de ninguém.

Eu não tenho esta convicção. Melhor: as aulas eram ao ar livre, sem coordenação, sem direção, sem colegas e os pais dos alunos não apareciam para reclamar! Bem, após 3 anos de curso intenso com todos estes reforços, chegou a prova final. Na agonia do Horto os três melhores alunos dormiram, quando o Mestre estava chorando sangue. O tesoureiro da turma denunciou o professor à Delegacia de Educação por 30 moedas. O líder da classe, Pedro, negou que tivesse tido aula por três vezes diante da supervisora de ensino: nunca vi este cara antes… Outros nove fugiram sem dar notícia e não compareceram à prova final: o Calvário. O mais novo e bobinho, João, foi até lá, mas não fez nada para impedir que os guardas matassem o professor. Se considerarmos João, com boa vontade, o único aprovado, teremos uma média de êxito de 8.33%, baixa demais para os padrões das Delegacias de Ensino e alvo de demissão sumária por justa causa.

O professor morreu e, para quem acredita, voltou para uma recuperação de férias. Reuniu os reprovados e disse: mais uma chance. Um dos alunos, Tomé, pediu para colocar o dedo no diploma do professor para ver se era de verdade. Primeira pergunta do líder da turma, Pedro: “Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?” Ou seja, o melhor aluno não aprendeu nada!

Esta pergunta mostra o oposto da aula dada, pois ele achou que o curso tinha sido sobre política e, na verdade, tinha sido sobre Teologia… Objetivos não atingidos: 100% ! Novos milagres, mais 40 dias defeedback, apostilas, recuperação, reforço de férias. Final de curso pirotécnico: subiu ao céu entre nuvens e anjos assistentes-pedagógicos disseram que o mestre tinha ido para a sala dos professores eterna e não mais voltaria. O curso estava encerrado, todas as lições tinham sido dadas para aquela nata de 11 homens. O que eles fizeram? Foram se esconder numa casa, todos apavorados.

O mestre mandou um módulo auto-instrucional de reforço, o Espírito Santo, um anabolizante. Só então, com uma força externa, eles começaram a entender, e finalmente tiveram aquela famosa reação bovina: HUMMMM…

Bem, eu disse à professora que me questionava: se Jesus teve tantos insucessos apesar de condições tão boas, a senhora quer ser mais do que Ele? Hoje eu diria para qualquer profissional: faça o máximo, mas apenas o máximo, e deixem o resto por conta do resto. A frase parece autista, mas é muito importante. Nós temos um limite: a vontade do aluno, da instituição e da sociedade como um todo. Não transformamos nada sozinhos, mas transformamos. O primeiro passo é a vontade. O segundo começa daqui a pouco, naquela sala difícil, com aquela turma sentada no fundo e naqueles angustiantes dez minutos que você vai levar para conseguir fazer a chamada… Vamos lá?


FONTE: http://docslide.com.br/documents/dez-mandamentos-do-professor.html

terça-feira, 24 de novembro de 2015

MAPAS HISTÓRICOS - IMPÉRIOS COLONIAIS DO SÉC. XVIII


O mapa acima, bem como sua legenda, foi por mim adaptado do original Mapa dos impérios coloniais no século 18. Disponível em: http://www.reino-unido.net/mapa-imperio.htm. Acesso em 24 de novembro de 2015. 

Fonte: http://www.reino-unido.net/mapa-imperio.htm

domingo, 22 de novembro de 2015

COMO APRENDER COM O BULLYNG E AS PANCADAS DA VIDA

Prof. Douglas Barraqui

Por vezes, como professores, nós temos que ser psicólogos e orientadores:

Há algum tempo atrás um aluno chegou para mim e disse:

– professor eu estou sofrendo bullying e isto está me traumatizando.
Nesta hora eu usei a minha parca experiência de vida e disse ao meu aluno:

– menino olha aqui, na minha época não tinha essa coisa de bullyng. Na minha época não havia traumas. Minha vó materna, Catarina, dizia “eu vou te dar para o homem do saco” - que tempos depois descobri não passava de um pobre mendigo maltrapilho. Eu era tratado como Chantilly “bate que cresce”. Quando eu caia minhas tias gritavam: “coitadinho corre lá alguém”. Minha mãe dizia “é bom para crescer”.

Na escola eu sofria essa coisa ai que você chamou de bullying, que muito provavelmente você não sabe nem o significado da palavra. Apelidos dos mais saudosos e criativos: “testa de amolar facão”, “naréba” (devido a minha genética italiana expressa no nariz bem dotado herdado do meu pai), mas o que mais me perturbava era “esqueleto” (isso devido a minha magreza esquelética).

Ai você me pergunta o que eu fazia para revidar? Eu te respondo: nada. Aristóteles, aluno de Platão e mestre de Alexandre, o Grande, em seus escritos sobre a ética disse que havia uma linha entre a coragem e a imprudência e entre  a prudência e a covardia. Revidar ao bullying que eu sofria seria imprudente. Na melhor das hipóteses eu só apanharia em 99,9% dos casos. Mas, eu não era covarde. Eu reagi a minha maneira: entrava na brincadeira, ria de mim mesmo. Mas, no fundo crescia algo dentro de mim que dizia, não farei isso com ninguém. Eu serei uma pessoa muito melhor do que eles são  – anos depois eu descobriria que isso tinha um nome, que se tratava do caráter.

A última vez que soube sobre um daqueles garotos da minha tenra infância ele estava prezo. Isso de fato não me faz melhor do que ele que está na cadeia, mas me faz uma pessoa prudente e com coragem, uma pessoa de caráter. Então eu disse ao meu aluno: 

– seja prudente e tenha coragem, seja um menino de caráter.


Alguns minutos depois meu aluno estava na sala da diretora com o olho roxo. Ele entendeu tudo errado. Mas, posso te dizer que em 99,9% dos casos as pancadas da vida são os maiores e melhores mestres. 

sábado, 21 de novembro de 2015

O QUE VOCÊ QUER FAZER COM A SUA VIDA?

D. João V, equanto jovem,
pintura atribuída a Pompeo Batoni

Conta-se a lenda que D. João V, grande monarca de Portugal, o “rei pedreiro e arquiteto por excelência”, ao visitar Mafra, vila portuguesa no Distrito de Lisboa, perguntou a um pedreiro:

– O que você está fazendo?

– Estou quebrando pedras. Respondeu o pedreiro.

Mais a frente perguntou a outro:

– O que você está fazendo?

– Estou lixando madeira. Respondeu outro pedreiro.

O rei caminhou mais um pouco e perguntou ao mais simples que preparava a cal:

– O que você está fazendo?

E ele respondeu:

– Estou construindo uma catedral.


O QUE VOCÊ QUER FAZER COM A SUA VIDA? CORTAR PEDRAS? LIXAR MADEIRAS? OU CONSTRUIR CATEDRAIS?

terça-feira, 17 de novembro de 2015

FUNDAMENTALISMO NOS OLHOS DOS OUTROS É REFRESCO

Prof. Douglas Barraqui


Após os últimos acontecimentos na França eu pude notar como algumas pessoas pelas redes sociais, a mídia, e mesmo alguns intelectuais, tendem a estereotipar o oriente e vê-lo resumido a tons de cinza e vermelho sangue. Como se oriente fosse apenas um lugar de lindas e sensuais dançarinas do ventre e perigosos homens barbudos e fundamentalistas que explodem bombas no corpo.



É interessante como o ocidente construiu esse discurso de que o oriente, em especial o muçulmano, seguidor do Islã, quer seja ele da vertente xiita ou sunita, é predominantemente fundamentalista. Mas, o mais pavoroso é a visão de alguns que acreditam verdadeiramente que todos, absolutamente todos, os muçulmanos saem por ai cortando cabeças, jogando aviões em torres e explodindo bombas no corpo.

  

Vou dizer categoricamente: existe nesse discurso uma pitada de darwinismo social, aquele mesmo que via o negro africano como inferior e o branco europeu como superior; mesmo discurso que dará origem  ao apartheid na África do Sul e as Leis Jim Crow nos EUA.  A maior parte das notícias que são divulgadas, reproduzidas e propagadas pelo ocidente é de um oriente atrasado, sem civilização, dominados pela barbárie.



Não vamos se hipócritas: mata-se no oriente médio em nome da fé, como também se mata no ocidente em nome da fé. O que muda é apenas o nome da religião.



São bárbaros fundamentalistas, porque as mulheres são subjugadas, são avessos a democracia, em um reino de terror onde as liberdades foram extirpadas. Ou seriamos nós, os ocidentais, os fundamentalistas por querer colocar na cabeça de um muçulmano de que ele deve deixar a sua mulher mostrar o rosto, de que a melhor forma de governo é a democracia, e que as liberdades do homem é o ápice do desenvolvimento humano. Serei franco: fundamentalismo nos olhos dos outros é refresco. 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

MAPAS HISTÓRICOS - VICE-REINO DO BRASIL (1774-1815)


O mapa acima, bem como sua legenda, foi por mim adaptado do original em VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. Vol. Único. 1 Ed. São Paulo, Ed. Scipione, 2010. Pg. 21. 

REFERÊNCIA:

VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. Vol. Único. 1 Ed. São Paulo, Ed. Scipione, 2010.

domingo, 15 de novembro de 2015

O QUE VENDE MAIS DO QUE ÁGUA?

Prof. Douglas Barraqui


Você já notou como desgraças, tragédias, e as diversas formas de violência vendem tão bem; são tão facilmente propagadas e disseminadas pela mídia e pelas redes sociais? Todos se dizem probos, pacifistas e moralistas na hora de se condenar, por exemplo, a violência incutida no porte de armas, porém se tiver a oportunidade de amarrar o ladrãozinho favelado no poste e descer a ripa, assim o fará.

Nós temos várias formas de ver as desgraças do nosso mundo. Somos perfeitamente capazes de enxergar com nitidez e Interpretar com clareza as várias formas de violência e de ódio, latente ou que explodem em movimentos. Mas, é muito curioso como temos uma incapacidade quase inata de perceber a violência e o ódio em nós mesmos. Porém, ao mesmo tempo, notamos e sabemos muito bem como condenar no outro.

É uma tragédia em si só, mas o ódio, como bem perceberam e usaram os nazistas, é o instrumento catalisador para unir um grupo. Nós seres humanos temos um interesse pela violência que chega a ser algo mórbido. Somos capazes de curtir e compartilhar nas redes sociais aquele vídeo em que duas jovens na porta da escola se esbofeteiam até o sangue marejar. Mas, raramente, curtimos e compartilhamos aquele vídeo em que um jovem cede seu lugar no ônibus para uma senhora já cansada. Na verdade ninguém se quer se interessa em filmar esse tipo de coisas, leia-se aqui coisas boas.

Percebam que em nossa sociedade desgraças, tragédias e violência generalizada vendem, mais do que água no deserto. 

sábado, 14 de novembro de 2015

MAPAS HISTÓRICOS - DESCOLONIZAÇÃO DA ÁFRICA E DA ÁSIA

Prof. Douglas Barraqui

Da segunda metade do século XIX até a década de 1950, vários povos estiveram subjugados aos ditames políticos das ricas nações capitalistas. Com o passar do tempo, a expansão desse modelo econômico e a concorrência comercial viriam a colocar as chamadas nações imperialistas em guerra por cada precioso palmo dessas regiões durante as duas conhecidas guerras mundiais. 

Após a Segunda Guerra Mundial, chega ao fim o período em que as principais potências econômicas do mundo buscavam assegurar seus interesses econômicos por meio da exploração da África e da Ásia. Em linhas gerais, o enfraquecimento das nações européias, agentes principais no processo de colonização de tais áreas, não permitia o uso dessa política, que depois de quase um século, foi responsável por conturbações e mortes em escalas nunca antes imaginadas.


O mapa acima, bem como sua legenda, foi por mim adaptado do original em VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. Vol. Único. 1 Ed. São Paulo, Ed. Scipione, 2010. Pg. 25. 

REFERÊNCIA:

VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. Vol. Único. 1 Ed. São Paulo, Ed. Scipione, 2010.


SOBRE O TERROR E O FUNDAMENTALISMO

Prof. Douglas Barraqui

Há uma tênue linha que separa o fanatismo do fundamentalismo. Ao longo da história o homem endeusou outros homens, enalteceram atitudes e usaram a religião para tanto. Mas sempre digo para meus alunos: o problema não está nesta ou naquela religião; o problema não está no cristianismo, no islã, budismo, induísmo; não está em Cristo ou em Ala; neste ou naquele livro sagrado. O problema está em nós, homens. Estamos tão cheios, anestesiados, dopados de nossa própria “filosofia”.

Alguns podem até dizer que viver em função da religião é como viver na Caverna de Platão. E eu sempre digo para os meus alunos que não há nada de errado em ter fé. O problema é o que você faz com a sua fé.

Não seja tolo ao ponto de pensar que Islãmismo é sinônimo de terrorismo. A Al Qaeda, o Taleban,  o Al Shabaab ou mesmo o Estado Islâmico não foram os inventores do fundamentalismo ou mesmo do terrorismo. Não sejamos justiceiros afoitos ao ponto de achar que o mundo árabe deve ser enfrentado, o islã deve ser combatido. É justamente aqui que estamos sendo tão fundamentalistas quanto os terroristas da Al Qaeda, do Taleban,  do Al Shabaab e do Estado Islâmico.

Digo e repito “os fundamentalismos”, porque há várias formas de fundamentalismo,  estão presentes no cristianismo, no judaísmo, no islamismo; no modo como seu pai te educa, no modo como seu professor te reprende, nas palavras de um pastor de um padre, do vizinho que acha que é dono do corredor do prédio; em mim e em você que chegamos mesmo a pensar que a melhor forma de resolver o terrorismo é com guerra e mais terror. Em nossa atual “filosofia”, em nosso tempo, posso te dizer: de terror e fundamentalismo todo mundo tem um pouco. 

MAPAS HISTÓRICOS - O IMPÉRIO DE ALEXANDRE, O GRANDE - SÉC. IV A. C.

Prof. Douglas Barraqui

Alexandre III Magno, ou Alexandre, o Grande, rei da Macedônia, filho do imperador Fellipe II e Olímpia, princesa de Epiro, nasceu em julho de 356 a .C, na região de Pella na Babilônia. Alexandre, conquistou o Império Persa, foi um dos mais importantes militares do mundo antigo, e construiu com guerras e alianças um dos mais notáveis império do mundo antigo.

Alexandre fundou várias cidades ao longo de seus territórios, muitas das quais se chamaram Alexandria em sua homenagem. Bem situadas e bem pavimentadas, essas cidades contavam com serviço de abastecimento de água. Eram autônomas, mas sujeitas aos editos do rei. Os veteranos gregos de seu exército, bem como os soldados jovens, negociantes, comerciantes e eruditos, se instalaram nelas, levando consigo a cultura e a língua gregas. Assim, Alexandre estendeu amplamente a influência da civilização grega e preparou o caminho para os reinos do período helenístico e para a posterior expansão do que viria a se tornar o Império Romano.


O mapa acima, bem como sua legenda, foi por mim adaptado do original em VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. Vol. Único. 1 Ed. São Paulo, Ed. Scipione, 2010. Pg. 09. 

REFERÊNCIA:

VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. Vol. Único. 1 Ed. São Paulo, Ed. Scipione, 2010.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

MAPAS HISTÓRICOS - POVOS E MIGRAÇÕES ENTRE OS SÉCULOS IV E X


O mapa acima, bem como sua legenda, foi por mim adaptado do original em VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. Vol. Único. 1 Ed. São Paulo, Ed. Scipione, 2010. Página 10. 

REFERÊNCIA:

VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. Vol. Único. 1 Ed. São Paulo, Ed. Scipione, 2010.

MAPAS HISTÓRICOS - CAPITANIAS HEREDITÁRIAS SÉC. XVI

Prof. Douglas Barraqui


O mapa abaixo é um recente analise do historiador Jorge Cintra que contesta a historiografia tradicional quanto a real configuração das capitanias hereditárias da América Portuguesa quando foram criadas na primeira metade do século XVI, apontando-se alguns problemas de representação e propondo um novo desenho a partir de fontes primárias como as cartas de doação e forais e a cartografia da época, em particular o mapa de Bartolomeu Velho.

As principais alterações propostas referem-se às linhas de divisa nas capitanias do norte, que devem correr segundo meridianos e não segundo paralelos; à particular configuração das capitanias do sul, com linhas dirigindo-se a noroeste; à divisão em quinhões das capitanias de Aires da Cunha e de João de Barros e à existência de terras não distribuídas.


Os mapas acima foram por mim adaptados do original em VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. E da página do Jornal "O Globo": Novo mapa de capitanias hereditárias poderia constar em livros didáticos a partir de 2017.

Referências:


VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. Vol. Único. 1 Ed. São Paulo, Ed. Scipione, 2010.


HISTÓRA DO IMPOSTO DE RENDA


O imposto sobre a renda ou imposto sobre o rendimento é um tributo da espécie imposto existente em vários países, em que cada contribuinte, seja ele pessoa física ou pessoa jurídica, é obrigado a pagar uma certa porcentagem de sua renda para o governo, nacional ou regional, a depender de cada jurisdição. O cálculo do tributo tem por base uma nova riqueza produzida pelo contribuinte, seja por fruto de trabalho, capital, ou ambos (rendimentos tributáveis), sobre a qual se aplica uma porcentagem (alíquota), obedecendo tabela produzida pelo organismo fiscalizador de cada país.

O conceito de um imposto sobre a renda é uma inovação moderna e pressupõe várias coisas: uma economia monetária, contas razoavelmente precisas, um entendimento comum de receitas, despesas e lucros, e de uma sociedade ordeira com registros confiáveis. Pela maior parte da história da civilização estas condições não existiram e os impostos foram baseados em outros fatores. Impostos sobre a riqueza, posição social e propriedade dos meios de produção (geralmente terras e escravos) eram muito comuns. Práticas como o dízimo ou uma oferta de primícias existiram desde os tempos antigos, e pode ser considerado como um precursor do imposto de renda, mas faltava precisão e certamente não foram baseados em um conceito de aumento líquido.

No ano 10, o Imperador Wang Mang da Dinastia Xin instituiu uma taxa sem precedentes - o imposto de renda - a uma taxa de 10% dos lucros para profissionais e trabalhadores especializados (previamente, todas as taxas ou eram por cabeça ou sobre a propriedade). Ele caiu 13 anos depois, no ano 23, e as políticas prévias de laissez-faire foram restauradas na Dinastia Han.

Um dos primeiros registros de um imposto sobre a renda moderno vem de 9 de janeiro de 1799, instituído na Inglaterra para financiar a defesa contra Napoleão. Após a vitória ele foi extinto, mas ressurgiu várias vezes anos depois.

Na década de 1910, o presidente Theodore Roosevelt tentou impor o imposto de renda progressivo para pessoas físicas EUA. Quando a Suprema Corte do país declarou o imposto inconstitucional, Roosevelt aplicou-o para corporações, tributando o lucro; posteriormente, com a décima-sexta emenda à Constituição norte-americana, finalmente o imposto de renda progressivo sobre pessoas físicas passou a ser cobrado naquele país. O modelo adotado nos EUA tornou-se, então, base para a cobrança deste imposto ao redor do mundo.

No Brasil a primeira tentativa de implantação de um imposto de renda ocorreu em 1843, mas o sistema econômico da época não produzia muitos contribuintes e o tamanho do país inviabilizava a implantação. Tentou-se novamente, entre 1864 e 1870, para financiar a Guerra do Paraguai, também sem sucesso.

O imposto atual foi instituído em 1922, após amplos debates, com a proposta de financiar a saúde, educação e o desenvolvimento urbano, com taxas variando entre 8 e 20%, com as maiores sendo pagas pelos de remuneração mais alta.

O Ministério da Fazenda era o responsável pelo processamento e pela fiscalização das declarações. Com o aumento da população contribuinte em 1964 criou-se o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) com a missão de executar o processamento das declarações. Alguns anos depois, em 1968, criou-se a Secretaria da Receita Federal com a missão de fiscalização das declarações.

Fonte:


NÓBREGA, Cristóvão Barcelos da. 80 anos de imposto de renda no Brasil: um enfoque da pessoa física. [S.l.]: Secretaria da Receita Federal, 2004. 174 p.

MAPAS HISTÓRICOS - ÁFRICA NA IDADE MODERNA SÉC. XV A XVII

Prof. Douglas Barraqui

Escritos que datam da Antiguidade Clássica já nos ajudam a estudar a história da África, antes disso temos fósseis e vestígios arqueológicos. Já nos últimos idos da era terciária e no início da era quaternária o homem já deixava sua impressão na África. Não é à toa arqueólogos e historiadores concordam com a expressão “berço da humanidade”. A maioria dos restos e vestígios de hominídeos como australopitecos, atlantropos, homens de Neandertal e de Cro-Magnon, são encontrados em lugares diferenciados da África. O que faz dessa parte do mundo um lugar de suma e singular importancia do ponto de vista do processo evolutivo da espécie humana.

Compreender a história da África, portanto é compreender a história da humanidade.


O mapa acima, bem como sua legenda, foi por mim adaptado do original em VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. Vol. Único. 1 Ed. São Paulo, Ed. Scipione, 2010. 

REFERÊNCIA:

VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil: ATLAS. Vol. Único. 1 Ed. São Paulo, Ed. Scipione, 2010.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

HiStO é HiStÓrIa HOJE: 9 DE NOVEMBRO, RUY BARBOSA E "O PLANO CONTRA A PÁTRIA"

Prof. Douglas Barraqui
Ruy Barbosa de Oliveira

Em 9 de novembro Ruy Barbosa de Oliveira, jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador, um dos intelectuais mais brilhantes do seu tempo, publica “Plano contra a Pátria”.

Neste documento no qual aludia à revolução na hipótese da substituição do Exército pela Guarda Nacional. Para Ruy Barbosa depois de feita a República, a federação, a separação entre a Igreja e o Estado, a separação dos poderes, o regime presidencialista, entre outros, seriam instituídos.

O documento é um dos articuladores da Revolução Republicana. Ao meu ver é de uma atualidade singular e, seria, adaptando-se determinados vocábulos e circunstâncias, perfeitamente adequado ao momento político atual de polarização, corrupção e desejo de mudança de uma parcela significativa do povo brasileiro.

Veja o manifesto abaixo:

“Já ninguém se ilude quanto aos desígnios da empreitada, a cuja execução estamos assistindo. Os atos sucessivos do Ministério da Guerra e do Ministério da Justiça, providencialmente reunidos nas mesmas mãos, em relação ao exército e à guarda nacional não deixam dúvida nenhuma sobre o projeto subterrâneo, que o gabinete acaricia, e cujo desenlace se aproxima rapidamente. A cada canto, no seio de todas as classes, nos círculos de todas as ordens de ideias e interesses, não há quem não reconheça, quem não aponte, quem não discuta a longa trama tortuosa, que se vai desdobrando para um fim evidente; e é mister que a imprensa não abafe o eco do sentimento geral, da apreensão geral, da geral antipatia, com que os espíritos mais diversos nas conveniências, nos princípios, nas aspirações se ajustam na reprovação desse enredo e na previsão, mais ou menos clara, das suas consequências funestas.

Uma prevenção malévola incha de maquinações temerárias o ânimo do governo contra o exército e a armada. Quanto mais a população se aproxima dessas classes, quanto mais com elas simpatiza, quanto mais estreita afinidade se estabelece entre a vida civil e a vida militar, quanto mais a força armada se retempera nas fontes vivas da evolução nacional, tanto mais profunda se acentua, nas influências que hoje dominam e absorvem a coroa, a desconfiança contra esse elemento de paz, de segurança, de liberdade. Enquanto, noutros países, a realeza se compraz, se expande e se revê no desenvolvimento dos exércitos de mar e terra, buscando fazer deles um laço de união indissolúvel entre a monarquia e a nacionalidade, aqui, nestes últimos tempos, à medida que a obscuridade eterna vai descendo sobre o espírito do Imperador, uma suspeita maligna envesga contra o soldado brasileiro as disposições da camarilha atarefada em preparar a sucessão do Conde d’Eu. Coube ao Partido Liberal a desgraça de achar-se, num período de gravidade suprema como este, sob a direção de homens, cuja ambição se ufana de assentar o pedestal da sua glória sobre o aviltamento dos seus concidadãos. Entregaram-no, pois, traído, a essa obra nefasta em benefício das más inspirações do terceiro reinado, cujo empreiteiro-mor compreendeu a vantagem de encapar a orientação liberticida dos seus intuitos sob a responsabilidade de um partido ostensivamente consagrado às reformas liberais, persuadindo-se de que a bandeira destas, a sua popularidade, o seu engodo poderiam habilitá-lo a triunfar contra o país, consorciando habilmente a astúcia com a força, mediante a eliminação ob-reptícia do exército brasileiro.

Os documentos dessa conjuração aí avultam na história destes últimos meses, harmonicamente entretecidos numa urdidura, cuja evidência só não se patenteia aos idiotas. Por sobre a armada passa o vagalhão do ministro da Marinha, açoitando-a, estalando-a, enlameando-a, atirando-a ao longe, desagregada, rota, esparsa, na expectativa de anular-se164 lhe o civismo, e arruinar-se-lhe a solidariedade pela dispersão, pela cizânia, pela instabilidade das posições. Com o exército uma política insidiosa e tenaz usa alternativamente a corrupção e a violência, empenhadas no mesmo propósito com a mais óbvia harmonia de colaboração. Um a um vão-se-lhe destacando os batalhões para os pontos mais longínquos do império, enquanto uma contradança incessante transfere os comandantes dos corpos, buscando levar a toda a parte a confusão da incerteza, e desdar sistematicamente os vínculos estabelecidos pela confraternidade militar entre superiores e inferiores, entre soldados e oficiais.

Ao mesmo passo, contra todos os compromissos do Partido Liberal, sem a menor explicação plausível na situação interior e exterior do país, organiza-se rapidamente, na corte, a guarda nacional. Os banqueiros presenteados pelo ministério, co-interessados na política mercantil que o absorve, são chamados a comandar os novos batalhões, atropeladamente recrutados, retribuindo ao governo em atividade na consumação deste seu empenho benesses, com que ele profusamente os mimoseia nas honras heráldicas, nos arranjos bancários, nas empresas industriais. Graças a essa permuta de serviços, o fardamento, o armamento, o municiamento completam-se com uma celeridade inaudita, que não se poderia exceder, se tivéssemos o inimigo devastando-nos a fronteira, e a salvação da nossa integridade territorial pusesse urgentemente em contribuição toda a energia do Governo. Este não põe rebuço nas suas preferências pela instituição rediviva, alvo do ridículo geral no dia da sua reaparição e da antipatia pública no rápido curso de seu desenvolvimento. Um oficial que, a 7 de setembro, levantara a espada, na Rua do Ouvidor, contra as gargalhadas dos espectadores, teve dias depois numa condecoração o prêmio da façanha. Põe-se timbre em dar à nova milícia armas de excelência superior às tropas de linha. Encomenda-se-lhe, ao que se diz, artilheria Krupp, à custa dos argentários, que vieram converter a guarda nacional em um ramo armado dos bancos. Aceleram-se-lhe violentamente os exercícios. Empregam-se os inválidos em brunirlhe e assear-lhe o armamento. E, para que nada falte à pompa do seu triunfo, assegura-se que, à míngua de praças adestradas nas suas fileiras, artilheiros de linha, carnavalescamente fantasiados em guardas nacionais, figurarão solenemente, a 2 de dezembro, na parada das milícias do príncipe consorte.

Entanto, o exército ir-se-á escoando, batalhão a batalhão, até desaparecer da capital do império o último soldado, e ficar o Rio de Janeiro entregue às forças do Conde d’Eu: a polícia, a guarda cívica, a guarda nacional.

Para encobrir as intenções reais da traça inenarravelmente maligna e grávida de perigos, que acabamos de bosquejar, dando-lhe visos de legitimidade, a velhacaria explorada consiste na mais pérfida e caluniosa propaganda contra o bom nome do exército e da esquadra, maculados pelas intrigas oficiais, cuja senha se cifra em descrever as nossas forças militares como um ninho de revolução e indisciplina. A falsidade é digna da causa, a que serve.

m apoio dessa atoarda, propalada com insistência, com jeito, com uniformidade sistemática pelos atos do governo, pelas insinuações da sua imprensa, pelas confidências aparentes de seus familiares, não há, em toda a nossa história, um fato, uma circunstância, um vislumbre de prova indiciativa. Percorramos a crônica destes últimos três anos, desde a primeira emergência da questão militar, desde que os seus sintomas iniciais, denunciando os passos de ensaio na luta do governo contra o exército e armada, coincidiam com a moléstia do Imperador e a iminência da ascensão de sua filha ao trono. Onde em todo esse largo trato 165 de tempo o menor toque de rebeldia no procedimento dos nossos bravos soldados, dos nossos gloriosos oficiais?

Começou esse período na situação conservadora, sob o ministério Cotegipe, em conseqüência de infrações palpáveis do direito militar, cometidas por ele. Na sua resistência circunspecta, respeitosa, cordata contra o abuso, obedeceu o exército a impulsos condenáveis, desconhecendo a razão, e impondo o capricho? Mas a nação inteira pronunciou-se por ele. Mas o Partido Liberal em peso levantou-se contra o governo, argüindo-o de tirania contra os brios da farda brasileira, exortando-a a não esmorecer no conflito, e fraternizando com ela, nas confabulações particulares, na imprensa, no parlamento. Mas a representação nacional, pelo seu único órgão são e prestigioso, o Senado, reprovou a atitude ministerial. Mas o atual presidente do Conselho, o senador Afonso Celso, foi exatamente quem iniciou, naquela câmara, a moção, onde se convidava o gabinete a recuar de um caminho hostil à legalidade. Mas o gabinete mesmo reconheceu o seu erro, retratando-se dele, penitenciando-se publicamente da culpa, e cedendo sem reservas ao exército o que o exército reclamava.

Teve a questão a sua segunda fase no ministério 10 de março. Mas de onde proveio ela? Do infausto pensamento, já então externado pela família imperial, mediante fatos materiais e escandalosos, de criar uma guarda sua contra a nação, de entrincheirar-se na escória das ruas contra o povo, de semear pelas sarjetas da cidade os primeiros germens da guerra civil. E que fez o exército? Onde sofreu por ele a ordem pública, a segurança da propriedade, a autoridade dos poderes constituídos? Qual foi o dia, em que a imprensa o tachou de ameaçar a nação? Quando é que o jornalismo brasileiro deixou de estar ao seu lado, animando-o, aplaudindo-o, coroando-o?

Com o ministério Ouro Preto sobrevém a terceira crise da questão formidável. Mas por quê? Exatamente porque o inaugurador da situação liberal timbra em pautar o seu governo pelo padrão dos abusos, que a sua parcialidade exprobrava, com toda a eloqüência da sua indignação, aos dois gabinetes conservadores. Metendo no seu seio o Barão de Ladário, esse ministério nasceu com uma bomba no flanco. Esse nome era um programa contra a marinha. Contra o exército o ministério 7 de junho reviveu, desenvolveu, entretém a colisão por uma série de revoltas formais contra a legalidade e a dignidade militar:
Pela prisão do tenente Carolino;
Pela denegação caprichosa do conselho de guerra;
Pela demissão do coronel Mallet a bem do serviço;
Pela exoneração insidiosa do general Miranda Reis;
Pela censura à oficialidade da segunda brigada a propósito da legítima expansão dos seus sentimentos em aplauso de um mestre venerando cuja palavra o ministro da Guerra escutara em silêncio aquiescente;
Pela ordem que remove para as fronteiras do império o tenente Carolino, roubando-lhe as garantias da defesa militar, e entregando a justiça, no exército, ao arbítrio administrativo;
Pela segunda tensão transparente nessa reconstituição violenta da guarda nacional;

Pela missão implicitamente confiada a esta no seu armamento em condições superiores ao da força de linha;
Pela dispersão gradual dos batalhões.

E como tem resistido, até hoje, o exército a esses desmandos, a essas prevaricações, a essas crueldades? Simplesmente requerendo o cumprimento da lei, e deixando aos órgãos da opinião a discussão dos seus direitos. Não obstante, um sistema de suspeita, de prevenção, de espionagem se estabeleceu contra ele, como se fosse uma Internacional armada, uma maçonaria carbonária, uma arregimentação de desordeiros refolhados, de cuja presença fosse necessário varrer as imediações do trono, para o entregar nos braços das hostes pretorianas, a cuja inconsciência César confia a herança de seu genro. Infelizmente para o governo, a população o conhece, discerne claramente os interesses a que ele serve, os projetos que encuba, os instrumentos de que se utiliza.

O povo brasileiro sabe a que procedências se vai buscar a nova guarda nacional, evocada com a instantaneidade de um improviso, e não perde, iludido pelo disfarce dos novos figurinos, a fisionomia da desordem, da capangagem, do elemento anárquico, subversivo e irresponsável, meneado, nas eleições, pelos cabecilhas locais. O povo brasileiro não esquece que essa polícia, armada agora à Comblain, para poder medir forças com a tropa de linha, representou sempre o princípio perturbador, a passividade malfazeja, a violência impune nos anais desta cidade, onde, nos dias da questão abolicionista, foi preciso enjaulá-la, certa vez, num quartel, para evitar sanguinosas desforras contra os sentimentos liberais da população fluminense. O povo brasileiro sabe, enfim, que o exército não personifica senão as grandes tradições da pátria, na paz e na guerra, e que os que não confiam nele, é porque têm razões para desconfiar da – nação.

Na sua transição para o terceiro reinado a monarquia orleanizada precisa de massas brutas, de forças passivas, para arremessar contra o país, cortando-lhe a evolução natural, e levantando, neste continente, uma potência anti-americana, sob a influência dos preconceitos incuráveis das velhas casas reinantes da Europa, expatriadas pela liberdade vitoriosa e trazidas a estas plagas pela nossa má estrela como agoureiras aves de arribação. Mas o exército, que não se compõe de revolucionários, também não consta de janízaros. Não é áulico, nem político. Não pertence à dinastia, nem às facções. É nacional, e é constitucional. É a guarda das instituições contra a desordem e contra a tirania. É a soberania da lei armada. É o baluarte das nossas liberdades orgânicas contra as conspirações, que as ameaçarem. Forma em torno do direito popular a trincheira impenetrável do heroísmo; e as opiniões, as propagandas, as reivindicações pacíficas expandem-se legalmente à sombra da sua imparcialidade tutelar. Não há de prestar à escravidão política os ombros com que destruiu a escravidão civil. Aqui está por que as prevenções palacianas se voltam hoje contra o exército, ao mesmo tempo que nele se concentram as esperanças liberais. Com o instinto desta missão nacional, com a consciência deste papel patriótico, o exército não pode, e certamente não há de subscrever a sua própria extinção, e muito menos o aniquilamento pela desonra, pela calúnia, pela ilegalidade, pela proscrição, essa espécie de morte moral, a que parece quererem condená-lo, antes de dissolvê-lo. Se o Partido Liberal, pois, não é um rótulo, um disfarce, uma mentira, considere na terrível responsabilidade, em que se vai emaranhando, com a sua submissão implícita às combinações urdidas na política inepta e calamitosa do Visconde de Ouro Preto. Ao próprio gabinete, se ainda lhe restasse ouvido para ouvir o Conselho, ou a súplica dos que não negociam com o bem público, ao ministério mesmo, em nome de todos os deveres que ligam indivíduos e governos à pátria e à humanidade, adjuraríamos a fugir esse despenhadeiro, renunciando ao intento de dispersão do exército e entrega da capital à tríplice guarda do paço. Há quase sempre alguma coisa impalpável e misteriosa no seio dos acontecimentos, que conspira contra as conspirações, mesmo quando essas vêm de cima para baixo; e esse elemento do imprevisto bem poderia voltar-se contra os conspiradores de Sua Majestade”.

Fonte: Diário de Notícias, 9 de novembro de 1889.

Referências:

Diário de Notícias, 9 de novembro de 1889.


ARAÚJO, Gisele Silva. Tradição liberal, positivismo e pedagogia: a síntese derrotada de Rui Barbosa. Perspectivas, São Paulo, v. 37, p. 113-144, jan./jun. 2010.