quinta-feira, 21 de março de 2013

Um olhar sobre a Reforma luterana


Por Douglas Barraqui 
MARTINHO LUTERO

“Ajuda-me, Sant’ Ana! Eu me tornarei um monge”. Essas foram as palavras de Martin Luther ou Luder; mais conhecido como Martinho Lutero, o homem que mudaria os rumos da Igreja.

Martinho Lutero nasceu na Alemanha em 10 de novembro de 1483. Filho de Hans Luther e Margarethe Lindemann, integrantes de uma pequena burguesia ascendente, era do desejo de sua família que Lutero seguisse a carreira pública, especialmente a de advogado; e assim foi mandado a diversas escolas, em 1501, aos dezessete anos, ingressou na Universidade de Erfurt. Se formou em bacharel e posteriormente mestre. E em 1505, ao voltar de uma visita à casa dos pais, em meio a uma tempestade com muitos raios, teria prometido a Santa Ana que, se o salvasse, se tornaria um monge.  Aderiu à ordem dos agostinianos. Em 1507, foi ordenado sacerdote. No ano seguinte começou a lecionar teologia na Universidade de Wittenberg.

Porém, em meio aos seus estudos teológicos, Lutero se deparou com uma crise espiritual envolvendo a questão da soterologia – estudo da salvação do homem. Em 1515 Lutero passaria pela chamada “experiência da Torre”: no alto da torre de Wittenberg, estudando a fim de encontrar respostas para as questões envolvendo a salvação, se deparou com o Salmo 30 – “liberta-me em tua justiça” – e assim Lutero passou a compreender a justiça de Deus, não como algo punitivo, mas sim como sendo a demonstração da misericórdia de Deus frente aos pecadores. Depois disso, conta Lutero em sua autobiografia: “me senti renascido, entrando no paraíso por suas portas abertas”.
Igreja do Castelo em Wittenberg

E em 1517 Lutero escreve as 95 teses, um convite aberto ao debate sobre algumas posturas morais da Igreja – documento que em vias de fato é contestado por alguns historiadores. As 95 teses, diz a tradição, foram afixadas nas portas da Igreja do Castelo de Wittenberg e a escrita desse documento teria sido motivada em meio a uma campanha de cobrança de indulgência, organizada por Johann Tetzel – “assim que uma moeda tilinta no cofre, uma alma sai do Purgatório”: eram as palavras de Tetzel que fez de sua campanha de perdão dos pecados um verdadeiro comércio de compra e venda da salvação.

EXPLICAÇÕES PARA AS REFORMAS

De fato a idéia de Reformar a Igreja não é nova na Idade Moderna. E quando buscamos explicações para as Reformas alguns historiadores acabaram por ter uma visão simplista e limitada concentrando-se apenas na decadência moral da igreja – temas como: luxo exacerbado do alto clero; a não obediência ao celibato clerical; a questão envolvendo a indulgência e a prática da simonia. Outros autores buscaram explicações muito mais amplas para as causas que desencadearam a Reforma: Emile Leonard, vai nos dizer que a razão de ser da Reforma está na própria crise espiritual da Igreja. Ou seja, é na própria religião que se deve buscar a natureza da Reforma.

Historiadores marxistas elencam uma explicação de cunho sócio-econômico. O próprio Marx vai dizer que “a religião é filha da economia”: assim a Reforma era resultado do modelo capitalista daquele momento histórico. As transformações de caráter sócio-econômicas surgidas após o Renascimento comercial – o que podemos destacar como a ascensão da classe burguesa – teve como resultado a necessidade de um novo senso comum religioso que beneficiaria a burguesia que aos olhos da igreja era má vista pela prática do lucro e da usura. O que fazem os marxistas, portanto, é relacionar a Reforma com o surgimento da sociedade Burguesa e sua ascensão.

Outros ainda buscam uma visão Holística para as causas da Reforma, como é o caso de Henri Hauser: apontando para as causas da Reforma como um emaranhado de fatores econômicos, sociais e religiosos, indissolúveis: “A reforma do século XVI teve um duplo caráter de revolução social e revolução religiosa. As classes populares não se sublevaram somente contra a corrupção dos dogmas e os abusos do clero. Também o fizeram contra a miséria e a injustiça. Na bíblia não buscaram somente a salvação pela fé, mas também a prova da igualdade original de todos os homens”.

Uma outra interpretação muito singular quanto às causas da Reforma é a de Quentin Skinner. Ele faz uma interpretação de caráter político e será o autor que mais terei atenção neste artigo, não porque sua explicação seja a mais plausível ou a única a via de fatos, mas sim porque sua obra nos ajudará a compreender a importância da doutrina luterana na formação do absolutismo.

Particularmente eu me identifico com a visão de Cornelius Castoriadis que estabelece uma relação entre a religião e a filosofia: a partir da Idade Média a cultura Ocidental fez um resgate da filosofia grega – feita pela igreja em São Tomas de Aquino. A escolástica medieval, portanto, é um “conbinado” de Aristotelismo e cristianismo. Falando a grosso modo, o tomismo tentou compreender Deus, suas práticas, origem e dogmas usando a filosofia. Castoriadis diz que isso vai ser paradoxal e contraditório.
Mapa da Alemanha indicando as cidades pelas quais Lutero passou

A SALVAÇÃO PELA FÉ

Lutero fundamentou sua doutrina na salvação pela fé, rompendo, desse modo, com a pregação tomista de que o homem por intermédio da fé e das boas obras alcançaria a salvação. Esta idéia de Lutero está bem descrita em sua obra “De Servo Arbítrio”: obra em que ele reafirma as idéias de Santo Agostinho.

Tomás de Aquino usou argumentos filosóficos para demonstrar “a verdade” dentro das crenças do cristianismo, o que ficou bem evidente em sua obra “Suma Contra os Gentios”. O tomismo virou a filosofia oficial da Igreja e também foi declarada a única filosofia verdadeira. E Tomás de Aquino seria feito mestre da Escolástica Medieval um conjunto de doutrinas teológicas e filosóficas que combinava aristotelismo com a crença cristã. A soterologia de Aquino defendia a salvação pela fé e pelas boas obras e a soterologia de Lutero à fé: eis o conflito.

Trata-se, portanto, de uma questão de interpretação que muito além de pura e simplesmente romper com o tomismo, trás autoridade para a bíblia e retira a função e a autoridade da Igreja em seu caráter institucional.
"Pela autoridade de todos os santos, e em misericórdia perante ti, eu absolvo-te de todos os pecados e crimes e dispenso-te de quaisquer castigos por 10 dias" - Uma indulgência vendida, com autoridade do papa, por João Tetzel em 1517

AS CONCEPÇÕES DE LUTERO

As concepções de Lutero passaram pelo: I - Conciliarismo – subordinava a autoridade do papa à comunidade dos fieis representada pelo concílio; II - Eclesiologia – trata-se do entendimento de Lutero sobre a natureza da Igreja (Lutero entende a Igreja como uma congregação de fieis e não como uma instituição hierarquizada). III – sacerdócio universal – este ponto envolve a questão do batismo (para Lutero pelo batismo somos todos sacerdotes), Lutero tinha inaugurado o sacerdócio universal.

Ao mesmo tempo a questão “sacerdócio universal” terá enormes implicações quando Lutero assiste a Epistola de São Paulo aos romanos, “todas as autoridades vem de Deus”: Quando todos são pautados como sacerdotes um em especial, o príncipe, terá além da autoridade política a autoridade religiosa. É inaugurado, então, o “direito divino dos monarcas”; o que fortalece enormemente o poder dos príncipes e afirma o poder temporal acima da Igreja. Lutero ainda vai dizer que cabe ao príncipe proteger a Igreja. A reforma Luterana, em via de práticas, permitiu a formação dos príncipes frente à Igreja Católica.

Quentin Skinner destaca que os príncipes passaram a ter uma autoridade política e religiosa: quando um príncipe ordenar ao seu súdito que faça o mal, o súdito deve recusar; o príncipe utilizara de sua autoridade para punir o súdito e, segundo Lutero, o súdito não deve reagir.  Trata-se de um posicionamento de “passividade” frente a autoridade dos príncipes.

Lutero qualifica a Igreja como autoridade interposta; defende o sacerdócio universal, rompendo assim como a separação entre leigos e religiosos – assim se faz valer: “mediante ao batismo somos todos sacerdotes”. Lutero então derruba a divisão entre estado religioso e estado laico.

CONSEQUÊNCIAS DAS PRETENSÕES DE LUTERO PARA A IGREJA

Em linhas gerais as concepções de Lutero tiram da Igreja sua jurisdição e uma série de seus privilégios específicos – Antes a igreja era uma instituição visível, hierarquizada, dotada de poderes que influenciavam a vida dos homens e os Estados.

Lutero condena a pretensão da Igreja em ter um papel e poder temporal. O reino dos homens, segundo Lutero, é ordenado por Deus – trata-se de um domínio distinto já que a espada está nas mãos das autoridades seculares para manter a paz, tendo portanto, o poder coercitivo.

Portanto, o que podemos notar é uma relação de obediência e subserviência em Lutero – aqui retomamos o ponto da questão da “passividade” frente aos príncipes.

O SUCESSO DA DOUTRINA LUTERANA

Skinner atribui o sucesso da doutrina luterana a três razões básicas que, em certo grau, estão relacionadas direta e indiretamente com a própria doutrina luterana: 1º) idéia luterana de insuficiência da razão; 2º) ênfase no caráter absoluto da vontade de Deus e 3º) o pecador deve colocar toda a sua confiança na vontade de Deus.
Igreja do CasteloWittenberg

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A reforma luterana foi um marco para a história do cristianismo e, porque não, da humanidade. O principio reformador, para alguns autores, é inato de nos humanos. Sem reduzir a importância de seus atores principais, digo que a reforma de Lutero é filha de seu tempo histórico, um momento em que o mundo cristão ocidental ansiava por uma nova postura moral e religiosa, eis a reforma de Lutero.

REFERÊNCIAS

LÉONARD, Émile G. O Protestantismo Brasileiro. Rio de Janeiro / São Paulo: JUERP/ASTE. 1981.

SKINNER, Quentin. A formação do pensamento político moderno. São Paulo, Companhia das Letras, 1996. 

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