quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Pensamento Pedagógico em Roma

Por Douglas Barraqui

Considero a educação uma das práticas mais humanas, levando em consideração o seu significado e influência no caráter existencialista do homem. Assim sendo com base em dois autores bem didáticos, Maria Lúcia Aranha e Moacir Gadotti, tracei um esboço de como a educação era pensada em Roma e qual era o ideal de homem romano. Para tanto, preocupei-me em delimitar algum paralelo com o pensamento pedagógico dos gregos, que de certo modo e até certo grau, influenciou a educação romana.

Os romanos, bem como os gregos, não valorizavam o trabalho manual, seus estudos eram essencialmente humanistas. O que viria a ser humanistas? Roma desenvolveu a concepção de império formado de vários povos, sem discriminar os vencidos e ainda lhe dando o direito a cidadania romana, em troca do pagamento de impostos. Humanitas: é pensar uma cultura universalizada. Equivale à Paidéia grega, distingue-se dela por se tratar de uma cultura predominantemente humanística e, sobretudo cosmopolita e universal, buscando aquilo que caracteriza o homem, em todos os tempos e lugares. É uma concepção que não se restringe ao ideal de homem sábio, mas se estende à formação do homem virtuoso, como ser moral, político e literário. A humanistas, dada na escola romana, seguia as seguintes fases:

  • Ditado de um fragmento do texto, a título de exercício ortográfico;
  • Memorização do fragmento;
  • Tradução do verso em prosa e vice-verça;
  • Expressão de uma mesma idéia em diversas construções;
  • Análise das palavras nas frases;
  • Composição literária;
Assim era instruída a elite romana. Enquanto os gregos e sua pedagogia enfatizavam a visão filosófica ou o predomínio da retórica, Roma, por sua vez, adotava uma postura mais gramática, voltada para o cotidiano, para a ação política. É o domínio da retórica sobre a filosofia. A agricultura, a guerra, a política constituía o programa que um romano nobre deveria realizar. Os escravos aprendiam as artes e os ofícios nas casas onde serviam.

No apogeu do Império Romano, ou seja, no auge de suas conquistas, os enormes tentáculos do império necessitavam de escolas que viessem a preparar os futuros administradores. Quando os romanos impuseram o latim a numerosas províncias, o sistema educacional romano dividia-se em três graus:

1)     Ludi-magister: educação elementar;
2)     Gramático: que corresponde ao que hoje chamamos de ensino secundário;
3)     A educação superior romana seria a retórica, o ensino do direito e da filosofia;

Pela primeira vez na história, e isso quem vai nos dizer é Moacir Gadotti na obra História da Idéias Pedagógicas, um Estado se ocupa diretamente com a educação. Para vigiar as escolas, foram treinados os supervisores-professores, cujo regimento tinha caráter militar. Direitos e deveres, eis o que ensinavam os romanos:

  • Direito do pai sobre o filho (pater potestas). No lar o pai inflingia sobre os filhos, e nas escolas os castigos podiam ser severos, incluindo açoites;
  • Direito do marido sobre a esposa (manus);
  • Direito do senhor sobre os escravos (patestas dominica);
  • Direito do homem livre sobre um outro que a lei lhe dava por contrato ou por condenação judiciária (manus capare);
  • Direito sobre a propriedade (dominiun).

Assim a educação romana, podemos constatar, era utilitária e militarista, organizada pela disciplina e justiça. Todos as cidades e regiões conquistadas, apesar de se serem consideradas aliadas de Roma, eram submetidas aos mesmos hábitos e costumes, à mesma administração. Dessa forma os romanos conseguiram atingir um fenômeno, que é chamando por muitos autores, de “romanização”, obra que foi terminada pelo cristianismo.

Roma teve vários teóricos da educação dentre os quais podemos destacar: Catão, “o antigo” (234-149 a.C.): preconizava a formação do caráter, defendendo o retorno às raízes romanas, a tradição contra a influência helênica.

Marco Terêncio Varrão (116 - 27 a.C.): partidário de uma cultura romano-helênica, com base na “virtus”romana: pietas, honestitas, austeritas. Escreveu uma enciclopédia didática, onde discutia o ensino da gramática. Compôs sátiras, que viriam a orientar os jovens na “virtu”, com máximas edificantes.

Marco Túlio Cícero (106 - 43 a.C.): ampliou o vocabulário latino, apoiado na experiência com o mundo grego e na erudição. Valorizou a fundamentação filosófica do discurso, tornando-se um dos mais claros representantes da humanitas romana. Compreendia que a educação integral do orador requer: cultura geral, formação jurídica, aprendizagem da argumentação filosófica, bem como o desenvolvimento de habilidades literárias e até teatrais, igualmente importante para o exercício da persuasão. Cícero será inclusive um dos principais modelos dos pedagogos para os renascentistas.

Sêneca (por volta de 4 a.C. – 65): insiste na educação para a vida e para a individualidade. Concebe a filosofia como um instrumento capaz de orientar o homem para o bem viver. A filosofia teria a função de ensinar a verdadeira vida humana, que não se confunde com o gozo dos prazeres, voltada que está para o domínio das paixões, já que a felicidade consiste na tranquilidade da alma. Enfatizado a educação moral, dando menos importância à retórica, Sêneca parte da premissa que a educação deveria ser prática e vivificada pelo exemplo.
 


Plutarco (por volta de 46 – depois de 119): dava ênfase em uma educação que procurasse mostrar a biografia dos grandes homens, para que assim servissem de exemplos vivos de virtude e de caráter. Reconhece a importância da música e da beleza na educação.

Marco Fábio Quintiliano (por volta de 35 – depois de 96): Foi um dos mais respeitado pedagogo romano. Defendia que o estudo devia dar-se num espaço de alegria (schola), onde o ensino da leitura e da escrita devia ser oferecido pelo mestre do brinquedo (ludi-magister). Marco Fábio Peconizava: 

  • Distancia-se da filosofia, preferindo os aspectos técnicos da educação, sobretudo da formação do orador.
  • Valoriza a psicologia como instrumento para conhecer a individualidade do aluno.
  • Sugere, para iniciação às letras, o ensino simultâneo da leitura e da escrita, criticando as formas vigentes por dificultar a aprendizagem.
  • Recomenda alternar trabalho e recreação para que a atividade escolar seja menos árdua e mais proveitosa.
  • Considera importante que a criança aprenda em grupo, por favorecer a competição, de natureza altamente saudável e estimulante.
  • Recomenda a prática dos exercícios físicos, realizada sem exageros.
  • Valoriza a busca da clareza, a correção, a elegância e os clássicos como Homero e Virgílio no estudo de gramática, reconhecendo os aspectos estético, espiritual e ético.
"Trazido o menino para o perito na arte de ensinar, este logo perceberá a sua inteligência e o seu carácter."
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

ARANHA, Maria Lúcia. História da Educação. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Moderna, 1996.

GADOTTI, Moacir. História das idéias pedagógicas. 3. ed. - São Paulo: Ática, 1995. 319p.

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