sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Por uma nova Escola por uma nova Educação

Por Douglas Barraqui


Hoje a que pé anda nossas escolas? Ela é a instituição capaz de formar o sujeito ético, preparado para o exercício da cidadania, e para a vida em sociedade? A educação pode ser considerada um processo integral na formação humana? podemos considerar essas indagações como parâmetros fundamentais e universais sobre os fins da educação.

Em nossa sociedade acredita-se fielmente na Educação como o caminho necessário para a formação do sujeito cidadão. Não é por menos que o Artigo 205 da Constituição Brasileira e o artigo 22 da Lei de Diretrizes de Base da Educação Nacional bem como o Relatório Condorcet, aprovado na assembléia Francesa, em 1792, elencam a Educação como primordial em termos de preparação do sujeito para a vida pública, cidadão.

Considera-se como fundamentos para a formação do sujeito ético a liberdade da vontade, a autonomia para organizar os modos de existência e a responsabilidade pelas suas ações. Compreende-se assim que este deve ser o objetivo da educação.

Podemos reconhecer que ação educativa é um processo regular desenvolvido em todas as sociedades humanas,  e que seu objetivo é preparar os indivíduos em crescimento para assumirem papeis sociais relacionados à vida coletiva: à reprodução das condições de existência (trabalho); comportamento justo na vida pública; uso responsável dos conhecimentos e habilidades disponíveis no tempo e no espaço onde a vida dos indivíduos se realiza.

Ser cidadão é exercer uma função social. O texto constitucional sugere que o conceito de cidadania resulte de uma função social – a prática da cidadania – onde o seu significado emerge. O ato concreto do exercício da cidadania que dá sentido ao termo cidadão. Portanto, cidadania é o atributo aplicado ao cidadão e, mais importante ainda: recebe sua legitimidade na ação educativa.

A cidadania se constrói, então, nos fundamentos da liberdade, da autonomia e da responsabilidade. O exercício da cidadania compreende em duas ações interdependentes: a primeira refere-se à participação lúcida do individuo em todos os aspectos da organização e da condução da vida privada e coletiva; A segunda, a capacidade que estes indivíduos adquirem para operar escolhas.

Através dessas considerações podemos assistir a democracia como sendo o projeto mais completo e ambicioso de todos os tempos. Os cidadãos munidos dos instrumentos da cidadania, tornam-se construtores de formas organizativas e de ação na vida pública. Essa forma de organização social e de ação política denomina-se Democracia. Logo a democracia é o modo como seres humanos autônomos, livres e responsáveis articulam as diversas vontades e capacidades individuais e coletivas para construir um modo de viver que lhes permita o mais alto grau possível de exercício de sua liberdade, em espaço público. 

Quero então destacar a hipótese levantada por Neidson Rodrigues em seu texto, Educação: da formação humana à construção do sujeito ético: primeiro, de que devem ser tomados por cidadãos, ou estão aptos a exercerem a cidadania, todos aqueles que se encontram integrados à vida social; segundo, para que essa integração ocorra, os indivíduos precisam ser portadores de habilidades para exercício de uma função útil e reconhecida como legitima para si próprio, para a sua família e para a comunidade; por fim, devem ser considerados não cidadãos todos aqueles que se encontram afastados ou desalojados dessas condições básicas do exercício da cidadania.

Para que chegamos no ideal de cidadão como deve ser, então, a Educação? Para Kant “o homem é a única criatura que precisa ser educada”. A educação é necessária para que o ser humano seja constituído. Isso se deve ao fato de que, segundo Kant, o homem não se define como tal no próprio ato de seu nascimento, pois nasce apenas como criatura biológica que carece se transformar, se re-criar como ser humano.

A formação do ser humano, para Kant, se dá de duas maneiras: de fora para dentro, ele precisa ser educado por uma ação que lhe é externa, assim os mais velhos teriam de educar os mais novos; e de dentro para fora, onde educar compreende acionar os meios intelectuais de cada educando para que ele seja capaz de assumir o pleno uso de suas potencialidades físicas, intelectuais e morais para conduzir a continuidade de sua própria formação.

Mas, há um problema que, Neidson Rodrigues enfatiza:  nenhum individuo isoladamente, por melhor preparo que tenha, será capaz de oferecer a outro a plenitude da formação de que ele necessita, bem como nenhuma instituição, ainda que seja definida como educativa, poderá dar conta desse papel. Essa tarefa é de responsabilidade ampla, ou pelo menos deveria assim ser. Educar como formador de sujeito humano, é, tradicionalmente, a tarefa da família a começar pelos pais; da comunidade; da religião (sem distinção de credo) e as instituições sociais como o Estado e seus aparelhos, a justiça, os partidos políticos, as organizações da sociedade civil.

O que ocorre nos últimos tempos é uma desintegração dessas unidades educativas. Os pais estão cada vez mais ausentes da vida dos filhos, desde os primeiros  dias  de suas vidas, por força de suas profissões. Igualmente, a Igreja deixou de representar uma instituição unitária e hegemônica capaz de dar direção moral, alguns consideram que a ciência roubou esse cenário. Às novas gerações e as comunidades desapareceram ou se fragmentaram em sites de relacionamentos nas páginas da internet. 

A Escola e a Educação, portanto, se encontram em um novo tempo. Mas ainda é a instituição e o fundamento que conseguem se manter presetes em termos de universalidade. Assim cada vez mais a escola exercerá ou poderá exercer um papel que a ela jamais foi atribuído em tempos passados: o de ser a instituição formadora dos seres humanos.

Isso tem acontecido na medida em que os meios e as formas tradicionais de Educação acham-se de tal modo corroídas, começam a ser direcionadas para a escola os olhares dos povos, na esperança de que esta exerça uma função educativa e não apenas a da escolarização. Assim será necessário uma outra visão da Escola, dos conteúdos escolares, do papel dos educadores e da relação da Escola com a sociedade.”

“As crianças serão enviadas para a Escola cada vez mais cedo e nela permanecerão por tempo mais extenso. E isso será porque a escola deverá exercer o tradicional papel das famílias, das comunidades, da igreja, e ainda, o que lhe era próprio: desenvolver conhecimento habilidades. Ela deverá se ocupar com a formação integral do ser humano e terá como missão suprema a formação do sujeito ético.”

A Escola e a Educação, portanto, devem ser repensadas em seu tempo. Podem ser filhas de outros tempos, mas não se pode fechar os olhos para os novos tempos. Pode até ser que não conseguiremos a melhor Educação, ou aquela que se espere como ideal, mas que consigamos repensar a melhor educação possível. Preparando o individuo para encontrar-se com “partícipe de um processo civilizatório, no qual se torna responsável com o bem estar pessoal e dos outros, e com a incessante busca da felicidade”, em uma vida em sociedade.

BIBLIOGRAFIA:

RODRIGUES, Neidson. Educação: da formação humana à construção do sujeito ético. Educação e sociedade, Campinas, V.22, n. 76, out. 2001.

3 comentários:

Dan disse...

Oi Douglas,

Belo texto, bem construido e mostrando como está a EDUCAÇÃO no país. Nao dá para ter um povo ético, com moral e criativo se não melhorarmos primeiro a saúde e depois a educação, precisamos construir um futuro digno para todos.


Abraços

Isabela Pimentel disse...

A situação do ensino em nosso país não é a melhor, mas, o primeiro passo, é debater, construir, para depois modificar.
A mudança começa em nós, e vai crescendo, quando a transmitimos aos outros.

Parabéns pelo texto!

Abraço,
Isabela
http://hojeempauta1.blogspot.com

ESCOLA E COMUNIDADE disse...

Caro professor Douglas ao ler este texto sobre a nossa tão precaria educação,fiquei aliviada por existir mais alguém que concorda comigo na calamidade que é nossa educação pública.Comecei a seguir teu blog e te convido a seguir o meu e deixar um comentário.São pequenos textos escritos por mim.