segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

E o salário ó!


Por Douglas Barraqui

Se ladrões pudessem legislar a seu favor; ou se pudessem decidir pelas jurisprudência de seus atos bandido algum estaria na prisão. E quando membros de cargos eletivos (mesmo que cargos eletivos não possam ser interpelados como categoria profissional) legislam a seu próprio favor?

É evidente que os deputados, assim como todas as categorias de trabalhadores, têm direito de reajustes salariais. A grande discrepância, mesmo que tentamos nos colocar no lugar dos deputados, é eles mesmos reajustarem os próprios salários e o pior acima de qualquer índice inflacionário.

Os deputados decidiram por eles mesmos em um aumento de 61,8%, assim seus míseros salários passaram de R$ 16,5 para 26,7 mil. Isso tudo fora a conjuntura de regalias e maracutaias que faz do cargo de deputado ser aspirado por analfabetos, personalidades falidas, atores e cantores sem sucesso e endividados. É auxilio moradia, verba para telefone, aluguel de escritório, correios isso para não dizer que eles recebem até o décimo quinto salário por ano.

O fato é que o aumento salarial dos deputados só nos parece esdrúxulos, para o caso do Brasil, quando percebemos a dantesca diferença entre a remuneração de outras categorias a exemplo de professores e médicos da rede pública, e profissionais da saúde de modo geral e policiais. É uma situação que gera no trabalhador, cidadão brasileiro, que vive das migalhas de R$ 510,00, o sentimento de traição, abandono e roubo. Um verdadeiro crime de “lesa-trabalhador” brasileiro.

O ideal e aceitável, até certo ponto, seria um reajuste vinculado ao reajuste dos cargos de legislativo e do executivo como presidente, ministros, governadores e secretários de Estado. Ou, o mais cabível, um reajuste que acompanhe o valor da inflação do país, isso sim é um reajustes. Agora o que foi feito pelos nossos representantes eu entendo, mesmo sendo leigo em leis, como inconstitucional e no mínimo antiético.

Eles merecem uma remuneração a altura do cargo? Sim. Mas, tenhamos clareza de qual é essa altura para que não fiquem tão altos e nós tão embaixo. Enquanto isso “e o salário ó”.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Valdenses: quem eram os verdadeiros pobres de Lyon

Por  Douglas Barraqui, Jéssica Veríssimo Lopes e Keila Nascimento

Tive a oportunidade de trabalhar com duas jovens e dedicadas alunas do curso de História da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES); e o resultado foi um trabalho muito bem pesquisado, em termos de referência biografias, sobres o Valdenses “os verdadeiros pobres de Lyon”. O trabalho em equipe desenvolvido abaixo agregou valores fundamentais para que este se configurasse como uma pesquisa conceito “A”. Tomei liberdade de fazer algumas alterações quanto na estética, nada que comprometesse o conteúdo do trabalho, para que o mesmo aqui fosse publicado. Quero também lembrar que se trata de um trabalho para primeiras análises: feito a partir de levantamentos bibliográficos, portanto, sintético. Espero que apreciem.

O contraste riqueza e pobreza

Durante a Idade Média sabe-se que a riqueza e o poder da Igreja Católica eram frequentemente contestados. Inclusive esse era um dos principais argumentos dos hereges da época para acusá-la. Segundo Falbel, estes fatos despertaram em algumas almas pias o nobre desejo de restabelecer a vida pobre de Jesus e da Igreja primitiva, para poder influenciar o povo com a palavra e com o exemplo.

Homens, como Roberto de Arbrissel, fundador da Ordem Fontevrault; Noberto de Xanten, fundador da Ordem Premonstratense; Francisco de Assis em 1210, e seus companheiros cultivavam todo o ideal de pobreza apostólica e da pregação ambulante. Semelhantemente em seus princípios, os valdenses, grupo de pregadores leigos fundado por Pedro Valdo, acabou opondo-se à Igreja e se transformando em heresia.

Pedro Valdo e os pobres de Lyon

Os valdenses, também conhecidos como Pobres de Lyon ou lioneses por causa de sua origem e sabots porque usavam tamancos de madeiras, surgiram na cidade de Lyon, cidade populosa, importante centro comercial, mantinha relações comerciais com o Oriente, Itália e Germânia. O comércio gerou prosperidade econômica no local que, contudo, não possuía uma vida política estável.

Em 1173 Frederico I reconheceu ao arcebispo de Lyon os direitos de suserania sobre a cidade e a região ao redor. O poder eclesiástico passou a governar a cidade com direitos de justiça, de cunhar moedas e recrutar tropas. Enquanto isso, os condes de Forez arrecadavam as taxas sobre as terras e os direitos senhoriais sobre os campos circundantes. A situação econômica não garantia aos homens enriquecidos poder político, os quais se sentiam isolados. Lyon também abrigava uma multidão de fugitivos, pobres e esfarrapados. A Igreja exercendo os poderes eclesiástico e temporal e, sem interesse em desenvolver o comércio com os reinos vizinhos, criava tensões entre a rica burguesia mercantil e o poder espírito-temporal que regia a cidade.

Pedro Valdo era um rico comerciante que por volta de 1173 ficou profundamente abalado pela leitura das sagradas escrituras. Em relação a seu nome, há divergências entre Valdo, Valdesius, Vaudès. Quanto ao nome Pedro, diz-se que ele só o teria agregado tardiamente, na segunda metade do século XIV, justificado pelo desejo desses seguidores de fazer retroceder a origem histórica do movimento aos tempos apostólicos. Porém, autores de uma historiografia confessional protestante comungam com a idéia de que o movimento se originou por volta do século II, nos vales alpinos e piemonteses, donde teria se originado não só o nome da seita, mas também o de Valdo, um topônimo para um seguidor como tantos outros.

Temos então em Lyon um rico comerciante que em um domingo de 1173 escutava um artista ambulante. Muito interessado em suas palavras, Valdo o ouviu narrar a vida de santo Aleixo, um jovem que deixa a rica casa paterna indo para o Oriente e que ao regressar a Roma anos depois, vive durante muito tempo como mendicante, abrigando-se sob uma escadaria a porta da casa paterna, sem ser reconhecido.

Profundamente impressionado Valdo procura na manhã seguinte uma escola de teologia onde busca conhecimentos que lhe permitam salvar sua alma. Pergunta ao mestre qual a melhor maneira de alcançar a Deus e a vida eterna, recebendo como resposta a citação das palavras de Jesus ao jovem rico: “se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu, e vem, e segue-me” [1]. Alguns autores citam outras situações que teriam concorrido para a conversão de Valdo, como a morte repentina de um amigo durante uma reunião de mercadores. Outros mostram Valdo como um homem rico que, tendo ouvido frequentemente o evangelho, considerava compreender exatamente seu significado.

A pobreza voluntária pela renúncia extrema se tornara no século XII uma espécie de culto que levou homens, que reconheciam a riqueza e poder da Igreja como sendo, muitas vezes, a fonte de grandes males, a procurar restabelecer o modo de vida apostólico como meio de influir de maneira mais eficaz sobre o povo, juntando o exemplo à palavra.

Após sua conversão, Valdo se sentiu premido pela necessidade de salvar sua alma despertada pelo que lhe acontecera e, percebendo que o clero se preocupava demais com o exercício do poder temporal e a aquisição de bens e de menos com seu rebanho não podendo lhe oferecer soluções, decide procurá-las por si só e se entrega ao caminho da renuncia extrema e pobreza voluntária, que afinal não era nenhuma novidade, como o melhor meio de alcançar a vida eterna.

Assim decidido Valdo não esquece as necessidades familiares, dando à mulher, o direito de escolher entre seus bens móveis e os imóveis que compreendiam terras, bosques, campos, casas, águas, vinhedos, além de moinhos e fornos — o que nos dá uma idéia do montante de sua fortuna — tendo ela escolhido as propriedades. Coloca então suas duas filhas na Ordem de Fontevrault, que tinha ligações com o modo de vida que escolhera, dando a elas parte da fortuna como dote.

Além disso, reservou recursos para duas obras importantes: devolveu os bens que havia adquirido indevidamente e deu grande quantidade aos pobres. O evangelho que narra o encontro de Jesus com o rico publicano Zaqueu, por ocasião da entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, quando este promete a Jesus dar metade de seus bens aos pobres e devolver valores quadruplicados àqueles a quem houvesse defraudado pode ser a justificativa para tão inusitada ação. A fortuna foi distribuída aos pobres durante a grande fome que assolou a região da Gália e da Germânia por volta de 1176. Também, encomendou a tradução do Evangelho para o provençal, fez um acordo com dois homens da Igreja para que um fizesse a tradução para a língua vulgar enquanto o outro a transcrevia. Essa ação teria peso importante no desenvolvimento das suas relações com a Igreja. Aos que não criam e o tomavam por louco, explicava que deixara de dar mais importância às riquezas que a Deus, servindo mais as criaturas que ao criador.

Pobre, afastado da família, estudando com afinco as Escrituras, Valdo passa a viver como pregador itinerante conquistando adeptos, assumindo, o dever do apóstolo, pregando nas estradas e praças, reunindo junto a si um grupo numeroso que envia para as aldeias vizinha a fim de conquistar seguidores. Esse grupo praticava a instrução do Evangelho, eram homens e mulheres humildes, que iam de um país a outro incitando os que ouviam a fazer o mesmo. Caracterizavam-se pelas roupas e calçados que usavam, uma simples túnica de lã sem tingimento e sandálias de madeira, chamadas sabot. Vale lembrar que a princípio isso não provoca reações dos bispos, já que, como dissemos, tal modo de viver não constituía novidade nessa época.

Os valdenses atraem a atenção do clero lionês apenas quando passam a pregar em língua vulgar, o provençal, citando as Escrituras mandadas traduzir por Valdo e fazendo criticas a esse clero, rico e poderoso. O episcopado estava sendo atingido pelas severas criticas, já que era luxuoso e apontava para uma salvação ligada ao pagamento de taxas, dízimos e impostos, apresentando um contraste acentuado em relação a esse grupo de pregadores mendicantes, que buscam essa mesma salvação seguindo o caminho estreito e difícil da vida apostólica.

Por volta de 1170 a cidade de Lyon passou ao controle dos bispos. Seu arcebispo, Guichard, havia iniciado a construção de uma nova igreja primacial, a catedral de São João Batista. A afirmação do poder temporal do bispo e a construção da catedral, que possivelmente originava o recolhimento de mais taxas, dízimos e ofertas que propiciassem fundos para a obra, tornavam o episcopado sensível ao grupo.

O grupo saia aos pares, pregando o Evangelho. Eram contrários a todo juramento e a aplicação da pena de morte. Ocupavam-se dos doentes, fracos, dos órfãos e prisioneiros, abriam escolas para os necessitados. Ademais, apontavam para o clero rico e os prelados poderosos e criticavam os bispos e os padres, opinando sobre matérias religiosas. Por isso, o arcebispo de Lyon os colocou sob interdito e suspeita de heresia, proibindo-lhes a pregação, porém os valdenses sentiam que tinham o dever de levar aos outros as verdades que descobriam. Aproveitaram então a Igreja reunida em Roma para a realização do concílio geral convocado pelo papa Alexandre III (1159-1181) e resolveram se apresentar à assembléia para que não ficassem dúvidas quanto a sua ortodoxia e para pleitear junto ao pontífice o direito a pregação.

O III Concílio de Latrão

Este concílio tinha entre as razões para sua convocação a necessidade de acabar com os resquícios do cisma, consolidar a reconciliação do Papa com o Imperador Frederico I Barbaruiva, restaurar a doutrina que muito sofrera durante os longos anos do cisma (1159-1178) e condenar as heresias.

A intenção dos Pobres de Lyon até ali era de permanecer fiéis a Igreja Romana, por isso recorreram ao papa contra a interdição que lhes fora imposta. Consideram-se discípulos obedientes e não concordavam com o exclusivo direito a pregação dado aos clérigos. Ressaltavam que parte do clero via sua função antes de tudo como uma profissão, ao contrário deles que agiam com entusiasmo e interesse. Esse discurso incomodava as forças estabelecidas enquanto que o povo admirava e ouvia esses homens. Vêem-se então como reformadores que reivindicam o direito de pregar, estendendo-o até mesmo as mulheres. Sendo combatido pelo episcopado, seja no sentido de achar-se espoliado em um direito exclusivo, por homens, a seu ver sem nenhum preparo, seja pelo teor do discurso que lhes apontava as mazelas e atingia outro de seus direitos exclusivos, o de ouvir as confissões dos fiéis e indicar-lhes a penitência.

Chegados a Roma, Valdo e seus seguidores são bem recebidos pelo papa Alexandre III, que determina uma comissão para analisar sua ortodoxia e a permissão para pregarem. Esta comissão teria sido presidida pelo inglês Walter Map que os interrogou a respeito de sua fé. Sem conhecimentos teológicos, os valdenses se deixaram apanhar pelos questionários escolásticos da comissão. Essa se empenhou em mostrar, através do debate teológico, que os valdenses, embora perfeitamente ortodoxos, não estavam preparados para o ministério da pregação. Eram, para Map, pretensiosos na sua crença de terem sido escolhidos por Deus para pregarem. Também chamou de arrogante sua pretensão ao direito de viver de esmolas, criticando-os ainda por sua equivocada interpretação das Escrituras e seu desconhecimento do latim. Desse modo, a comissão conciliar decidiu-se pela condenação dos valdenses, contudo, Alexandre III, aprovou o modo de viver de Valdo, concedendo ao grupo, verbalmente, a permissão de pregar, desde que tivessem a aprovação do clero paroquial ou dos bispos, e que se limitasse a falar sobre pontos morais e não doutrinais.

Interessava a Alexandre III que os valdenses, cujo propósito era de permanecerem fielmente ligados a Igreja, ajudassem no combate a heresia cátara. Esses posicionamentos de combate ao catarismo, já o tinham os pobres de Lyon que o reafirmaram, tendo ao que parece, Valdo e seus adeptos, inicialmente aceito essas decisões, regressando a Lyon, onde se dedicaram a combater os cátaros como desejava o Papa. De qualquer modo, Alexandre III interditou-lhes virtualmente a pregação, ao condicioná-la a obtenção de licença do clero local, pois muitos dentro desse clero pensavam como a comissão e, assim, os negaram o direito de pregar.

A profissão de fé

Depois que os valdenses retornaram a Lyon, parece que eles submeteram-se as ordens papais por algum tempo. Não se sabe com precisão quando Valdo teria realizado sua profissão de fé. Alguns historiadores a consideram como um documento ortodoxo no qual Valdo demonstra não ser um cátaro e sim um católico desejoso de imitar a vida dos apóstolos.

Valdo declara nesse documento seu ideal de vida com a mais estrita pobreza, com caridade, sem trabalhar, e defendendo os preceitos evangélicos com a autorização das autoridades eclesiásticas. Acrescenta-se que Valdo continuou fiel a essa profissão feita em 1180 mesmo após a condenação de 1184. Neste documento, Valdo invoca Pai, Filho e Espírito Santo, bem como a virgem Maria, identifica-se e estende a profissão a todo o grupo. Declara diante dos Evangelhos sua crença na Trindade e na mais pura fé ortodoxa.

Um dos pontos em que se basearão futuras acusações de heresias sobre os valdenses é que não aceitavam a administração dos sacramentos por ministros indignos. Afirmam, também, sua crença no julgamento dos mortos de acordo com as obras que realizaram em vida, e não duvidam que esmolas, sacrifícios e ações beneficentes podem auxiliar os mortos, ou seja, aceitariam as indulgências e as ações pelos mortos. Criam e pregavam a pobreza evangélica e a mendicância, aceitando como doações apenas vestimenta e comida diária. Defendem a crença de que aqueles que cuidaram em ter uma vida digna distribuindo aos outros suas possessões e observando os mandados de Deus poderiam ser salvos. Esclarecem ainda seu intuito ao fazer essa profissão de fé, diferenciar os “verdadeiros” hereges — os cátaros — deles, pois os valdenses se consideravam.

Podemos observar que todas as afirmativas enquadram-se perfeitamente na ortodoxia, justificando a decisão papal de 1179. A data mais provável para a realização da profissão de fé é reconhecida por historiadores como sendo final de 1180 ou início de 1181, perante uma assembléia a que compareceu a nobreza lionesa e que teria sido co-presidida pelo arcebispo da cidade, Guichard, e o legado pontifício e arcebispo de Chartres Henri de Claraval.

Lyon, situada em importante entroncamento de rotas comerciais, estava sujeita a várias pressões: querelas entre Império e Igreja, os problemas comuns às regiões fronteiriças entre reinos, a disputa já antiga entre o episcopado e os condes de Forez e Roanez, a resistência da nobreza local ao fato do poder temporal passar as mãos do arcebispo, o aparecimento de uma rica burguesia. As tensões criadas pelo grupode Valdo são sentidas duplamente pelo arcebispo Guichard, ao concentrar os poderes espiritual e temporal, e são certamente agravadas pelo início da construção da catedral primacial de São João Batista, iniciada por ele e que só será consagrada em 1244, considerada ainda hoje como uma das mais belas igrejas góticas da região. Essa construção demandava em constantes solicitações de doações, taxas e dízimos, contrastando violentamente com a vida, doações e pregação daqueles que “seguiam nus o Cristo nu” e desejavam o culto sem luxo, a Igreja sem bens e o Papa sem poder temporal.

De qualquer forma, o desejo papal em aproveitar os valdenses no combate ao catarismo, principal problema da Igreja na região do Midi, pesou na decisão do arcebispo e eles tiveram aceita sua profissão de fé e reconhecido seu direito a pregar, enquanto respeitassem as limitações impostas.

Os valdenses respeitaram tais limites por muito tempo, mas ao encetar grandes polêmicas não lembravam o respeito à recomendação de não entrarem em assuntos que envolvessem doutrina. Tais polêmicas, portanto, na mesma medida em que os mantém afastados do catarismo, criam um fosso entre eles e a Igreja, tornando mais nítida a diferença de posições e criando novas tensões com o Episcopado, que se agravam com a morte de Guichard (1181).

O período em que a sede lionesa esteve vaga, contribuiu para que o grupo valdense, menos pressionado, se tornasse mais audacioso, o que só iria deixar mais tensas as relações com o novo arcebispo, que assumiria em 1182, Jeans de Bellesmains, de origem inglesa. A Igreja então encontrava-se num período de transição, já que Lúcio III, o novo papa, havia sido coroado há pouco tempo (setembro de 1181), depois do longo pontificado de Alexandre III, que protegera os valdenses em 1179. Esses novos líderes, tanto Lúcio III quanto Bellesmains, necessitam afirmar a liderança. O catarismo se havia fortalecido em todo o Languedoc, chamando cada vez mais a atenção, tanto da Igreja quanto dos senhores temporais e dos valdenses. Em pouco tempo o arcebispo percebeu que o controle sobre o grupo dos Pobres de Lyon estava irremediavelmente perdido, pois ainda que admoestados, instados a obedecerem ao Papa, não são demovidos de pregarem o Evangelho da maneira que o entendem, sendo então excomungados pelo arcebispo e expulsos da cidade pelo senhor feudal, isto é, Bellesmains.

"Ide e pregai o evangelho a toda a criatura”

O movimento valdense se espandiu pela região do Languedoc, multiplicando-se com uma rapidez incrível através de toda a Europa. A Igreja, não sem razão, começou a alarmar-se seriamente. Os valdenses se espalharam de Lyon, tanto para o norte e o leste quanto para o sul e o oeste, e desde 1192 eram bastante numerosos na Lorena. Falbel refere-se a essa grande difusão do valdismo, situando-a não só no Piemonte e na Sabóia, mas também na Germânia, na Boêmia, na Moravia, na Polônia e na Hungria e na região meridional da Itália.

Temos, portanto, que os valdenses espalharam-se por boa parte da Europa, tendo atingido a França, o Languedoc, Aragão, o norte da Itália, a Boêmia e a Germânia, portanto territórios caros não só a Igreja, mas também ao Imperador e aos reis de Aragão e da Inglaterra (Pedro II e Henrique II possuem grandes feudos na região), alarmando as duas esferas de poder. Nada mais natural que quando acordam um encontro em Verona para resolver vários assuntos pendentes e de grande importância para as relações entre Igreja e Império, Lúcio III e Frederico I, dêem atenção ao combate à heresia, publicando, em separado, constituições sobre o assunto.

O Sínodo de Verona (1184)

A decretal do papa Lúcio III no sínodo de Verona de 1184, teve grande importância para a evolução da inquisição medieval, instaurando uma nova prática ao colocar cada bispo como juiz ordinário em questões de heresia na visita que obrigatoriamente devia fazer a sua diocese a cada dois anos buscando por si mesmos os hereges, sem aguardar uma acusação formal.

A bula inicia-se revelando as razões para sua decretação, abolir a depravação das diversas heresias que estavam em diversas partes do mundo, além de propor a renovação do vigor eclesiástico para que a simplicidade católica resplandecesse na Igreja limpa, sem a contaminação de falsos dogmas. Há também referência à presença de patriarcas, arcebispos e muitos príncipes de diversas partes.

A Igreja, podendo contar com o forte apoio do braço secular ao tratar com os hereges, condenou com anátema perpétuo os cátaros, patarinos, os Humilhados ou Pobres de Lyon, aos passaginos, josefinos e arnaldistas. É a primeira vez que se nomeiam os valdenses em uma condenação, aparecendo como humilhados ou pobres de Lyon, nomes que eles próprios utilizavam e que é contestado como falso. Desse modo, o anátema perpétuo cai sobre aqueles que ensinam algo diverso do que a Igreja Romana prega e observa e em qualquer um que seja julgado herege pela mesma Igreja, ou por cada bispo em suadiocesee até mesmo por clérigos em caso de sede vacante.

O documento também faz referência à forma como os herejes devem ser tratados e também aqueles que simpatizam com a heresia, seja ela qual for, a encobrem ou defendem, sejam clérigos ou laicos, enfatizando que devem ser entregues a potestade secular para o justo Castigo. Outros pontos enfatizados são o comum acordo entre as autoridades eclesiástica e imperial nas legislações que regem o combate a heresia, e a extensão das investigações e das penas a todos os estamentos da sociedade, sejam clérigos ou laicos, condes, barões, magistrados, cônsules das cidades ou os que exercem ofício público. As penas envolvendo a pessoa do herege vão da perda da dignidade e ordem eclesiástica e dos benefícios no caso de clérigos, a da perda dos bens, no caso de laicos, cujos bens deveriam ser entregues as igrejas a que serviam. No caso dos nobres e magistrados, estes eram despojados da honra que tinham obtido, excomungados e suas terras colocadas sob interdito eclesiástico. Ainda, nesse período, tornou-se comum na Europa deixar ao arbítrio de cada um a vida do herege, deixando impune seu assassino.

Sabemos que a excomunhão e o anátema não foram às únicas formas de reação por parte da Igreja, temos “a via do colóquio” tentada muitas vezes, com poucos resultados. Inocêncio III apesar das reiteradas condenações aos valdenses e a outras heresias não perdeu as esperanças de trazer de volta ao seio da Igreja as alas mais moderadas do movimento, que já demonstrava cisões internas devidas, talvez, a maneira como se desenvolvia a seita nos diversos lugares para onde se estendeu e as influências e perseguições que sofria nestes lugares.

Os valdenses

Os valdenses foram, então, obrigados a viverem clandestinamente, recolhendo secretamente simpatizantes entre os seculares, que lhes ofereciam comida ou hospitalidade. “Pois eles mesmos, como Perfeitos, haviam renunciado o trabalho manual e dedicavam-se com exclusividade à pregação ambulante e à assistência pastoral de seus adeptos” [3]. Ainda quanto esse assunto há divergências entre os historiadores, alguns acreditam que eles eram tecelões. Cumpriam o tríplice voto da pobreza, castidade e da obediência aos superiores, isto é, ao próprio Valdo, como um encarregado de Deus, e aos bispos, presbíteros e diáconos que ordenavam. As Sagradas Escrituras, que recomendavam para leitura, tinham o valor de regra doutrinal absoluta e de código jurídico.

A seita não conseguiu manter-se unida por muito tempo, dvidindo-se em dois grupos no ano de 1210, que continuou mesmo após a morte do fundador, em 1217 [3]. Os franceses do Languedoc, Provença, Delfinado, que mantiveram alguns laços com a Igreja, continuaram a frequentar os cultos oficiais, apesar de insistirem em admitir somente o Evangelho como lei religiosa e de criticarem severamente o clero. Já os valdenses italianos desligaram-se completamente da Igreja e criaram um culto especial. Passaram a negar, provavelmente sobre influência dos cátaros, o Purgatório, o valor da oração pelos defuntos e as missas de sufrágio, o culto dos santos, as indulgências, o juramento, o serviço militar e a pena de morte, admitindo como sacramento apenas o batismo, a eucaristia e a penitência.

Tereza Aline Pereira de Queiroz, nos alerta para o fato de que a questão da pobreza voluntária foi utilizada tanto por homens que a Igreja qualificou de santos como por outros que foram estigmatizados como heréticos. Podemos estabelecer semelhanças entre Pedro Valdo e Francisco de Assis, porém estes episódios demonstram que “nem sempre o problema das minorias anatemizadas encontrava-se no teor de suas pregações, mas sim no fato de atuarem fora do controle da autoridade religiosa estabelecida” [4].

Muitos valdenses foram levados à fogueira e outros reconquistados pela persuasão pacífica. Para a recuperação dos valdenses, Inocêncio III reuniu, em Milão, os Humiliati numa ordem religiosa e fundou as companhias dos Católicos Pobres (1208) e dos Lombardos Reconciliados (1210).

A hierarquia valdense

Essa crença herética declarava que a Igreja fora pura e incorrupta até a época de Constantino, quando o Papa Silvestre ganhou a primeira possessão temporal para o Papado, iniciando, assim, o sistema de uma Igreja rica, poderosa e temporal.

A heresia reconhecia em sua própria Igreja uma tríplice hierarquia de diácono, presbítero e bispo: A Ordem do Bispado - O Bispo era chamado entre eles de maioral; era eleito para esse cargo pelos presbíteros e diáconos. A cerimônia da eleição de um bispo era realizada com uma prece comum, uma confissão privada e depois pública de seus pecados. Em seguida, um maioral ou, na falta deste, um presbítero recitava o Pai Nosso, impondo as mãos sobre o eleito, a fim de que recebesse o Espírito Santo. Logo depois, todos os presentes, segundo a sua hierarquia, impunham as mãos sobre o eleito. Competia ao bispo administrar os sacramentos da penitência, da ordem e da eucaristia, e outorgar aos presbíteros o direito de pregar o Evangelho e de ouvir as confissões. Podia absolver todos que confessassem seus pecados.

A Ordem do Presbiterato – Após a oração e a confissão dos pecados, o maioral e os outros presbíteros impunham suas mãos. Era o maioral que conferia a Ordem do Presbiterato por imposição das mãos. Esses presbíteros deviam ouvir as confissões dos pecadores, mas não podiam absolvê-los dos pecados e tão pouco celebrar. Contudo, podiam ordenar um bispo, caso todos os outros estivessem mortos.

A Ordem do Diaconato – O diácono era ordenado após a prece e a confissão dos pecados, o maioral recitava o Pai Nosso e somente ele impunha as mãos ao ordenado, a fim de que este recebesse o Espírito Santo. Depois de ordenado o diácono passava a pertencer ao estado e à condição de valdense pelos votos de pobreza, castidade e obediência. Só após a ordenação é que eram considerados Perfeitos; os demais, Crentes, deveriam prover a subsistência dos Perfeitos.

Ao diácono competia ajudar o maioral e os presbíteros em suas necessidades materiais. Entretanto, ele não tinha direito de ouvir confissões. Os bispos, presbíteros e diáconos eram escolhidos dentre os leigos, sem distinção entre ignorantes e letrados, com a condição de provarem ter pertencido anteriormente à seita.

Como era vista a heresia no IV Concílio de Latrão

A convocação para o IV Concílio de Latrão se fez com uma antecedência de mais de dois anos, abril de 1213, tendo sido enviada a todo bispo, todo abade da Igreja e toda ordem religiosa, isto é, cisterciense, premonstratense, hospitalário e templário, reis e autoridades de toda a Europa. Convidando-as para extirpar o vício, semear a virtude, corrigir todo o abuso e reformar os costumes; eliminar a heresia e reforçar a fé; fazer calar a discórdia e estabelecer a paz; eliminar a opressão e favorecer a liberdade; induzir os príncipes e o povo cristão a socorrer a Terra Santa.

Realizou-se em novembro de 1215, em três sessões (11, 20 e 30 de novembro), na presença de uma assembléia de duas mil, duzentas e sessenta e três pessoas, vindas de todo o mundo ‘civilizado’. Suas decisões são consideradas o mais importante corpo único de legislação disciplinar e reformadora da Igreja Medieval. A atenção dada ao combate as heresias fica clara já nas primeiras constituições.

O cânone 1 é uma profissão da ortodoxia católica emitida contra os erros dos cátaros, valdenses e outros hereges não identificados. Afirma a crença na Trindade; no poder de Deus, criador de toda a criatura; na queda do homem em pecado, pela sugestão do demônio, na concepção virginal de Maria, com a colaboração do Espírito Santo, e a dupla natureza de Cristo (humana e divina); na validade de oficiar os sacramentos ligada ao sacramento da ordem: só um sacerdote regularmente ordenado poderia consagrar o pão e o vinho para que se transubstanciem no corpo de Cristo e efetuar o batismo, quer de crianças, quer de adultos, bem como apontar a penitência àqueles batizados que tornarem a pecar. Afirma ainda a certeza da vida eterna não só para as virgens e os que observam a continência, mas igualmente para os fiéis casados que se acercam de Deus, com “fé reta e vida honesta”.

O terceiro cânone condena toda a heresia, excomungam anatematizam toda a heresia contra a ortodoxia e fé católica,condenando os hereges em bloco, sem nomeá-los separadamente como em 1184. A invectiva contra aqueles que se desviavam da fé católica continua nessa longa constituição, entregando a autoridade secular, para ser punido com pena adequada, aquele convicto de heresia e por ela condenado, sendo que os clérigos que incorressem nessa condenação deviam primeiramente ser degradados de toda a dignidade eclesiástica. Dispõe também dos bens dos condenados, confiscando-os, se leigos e, atribuindo-os a Igreja de que os receberam, no caso de clérigos. Aos suspeitos de heresia caberia demonstrar sua inocência, ou seria considerado culpado e anatematizado e, se permanecessem nessa condição por um ano, seriam considerados hereges, sujeitos a condenação.

Nem mesmo as autoridades seculares estavam livres de suspeita, devendo ser exortados e, se necessário, constrangidas pela censura eclesiástica a fazer juramento público de defender a fé e exterminar, nas terras sob sua jurisdição, a todo o herege. O príncipe temporal que negligenciasse o combate à heresia em suas terras, deveria ser ferido com a excomunhão pelo metropolitano e se durante um ano, não cumprisse com seu dever, deveria ter seu caso relatado ao pontífice, para que seus vassalos fossem liberados da fidelidade e a sua terra seja ocupada por um católico. As ordenações contra aqueles que de algum modo ajudam ou defendem hereges continuam, ainda no mesmo cânone, recomendando a excomunhão com a agravante de que se não houver retratação dentro de um ano, sejam considerados infames e incapazes de ascender a cargo público, de testemunhar, de fazer testamento e receber herança. Exemplifica-se dizendo que se tal pessoa for um juiz, sua sentença não terá valor; se for advogado, sua defesa não será aceita; se for notário, os documentos que compilou não terão valor. Aos que fossem excomungados por essa razão, seriam negados os sacramentos da Igreja, privados de sepultura cristã e suas esmolas e ofertas recusadas.

A longa ordenação prossegue alertando bispos e arcebispos, que devem, pessoalmente, ou através de um enviado idôneo, visitar suas dioceses ao menos uma vez ao ano, para verificar através de pessoas igualmente idôneas, se há sinais de hereges e, os encontrando, deve puni-los segundo os cânones. Adverte que o bispo que por negligência ou lentidão em agir, não liberasse sua diocese da heresia, seria deposto e substituído por outro.

No cânone 10, volta-se a tratar da pregação, necessária a salvação do povo cristão, já que é a nutrição da alma. É a reiteração do monopólio do oficio de pregar. Fica bem claro que a pregação dos hereges era altamente incômoda. O pregador indicado pelo bispo, deveria também ouvir confissões e impor penitências, só poderia ser um religioso, ordenado regularmente, nunca um leigo.

Quanto ao cânone 13, neste fica proibida a criação de novas ordens religiosas, para evitar que a excessiva variedade de ordens causasse a confusão na Igreja. Recomenda-se àqueles que desejam abraçar a vida religiosa que o façam em uma ordem já aprovada, do mesmo modo que se uma nova casa religiosa for fundada, que assuma regra e ordenação já aprovadas.

Recomenda-se no cânone 21, que todo fiel confesse e comungue ao menos uma vez ao ano, por ocasião da Páscoa. A confissão deve ser feita ao seu próprio pároco ou, com sua licença e por justo motivo, a outro sacerdote. Quem não o fizer fica sujeito a penas como a proibição de ingresso em igrejas e a negação de sepultura cristã. Ordena-se ainda ao confessor o respeito absoluto ao sigilo da confissão. Também aqui observamos um meio de controle e uma velada referência à heresia valdense, que associava a validade do sacramento à piedade do sacerdote que o oficiava. É o monopólio da confissão, através de um controle absoluto, uma vez que cada fiel deverá confessar-se apenas a seu pároco ou obter dele uma licença para fazê-lo a outro, não podendo fugir ao controle.

Outra tentativa de controle da população é imposto no cânone 22, ao enfermo é necessário tratar primeiro da alma para então do corpo, sendo condenado o “médico do corpo” que quando chamado a atender um doente não o induzir a chamar primeiro o “médico da alma”. Os médicos que não atendessem a essa constituição estariam sujeitos a penas, sendo excluídos do ingresso à igreja, monopoliza-se assim também a extrema unção. Ficavam proibidos também, sob risco de anátema, de prescreverem remédios que colocassem em risco a saúde da alma de seus pacientes. É fácil observar que se um doente recorre ao “médico do corpo”, mas recusa a atenção de um sacerdote, são grandes as possibilidades de que seja herege, além disso, se o médico recusar-se a chamar o padre, pode muito bem ser um herege e os valdenses eram conhecidos por suas habilidades médicas.

A simonia e cupidez do clero, outros pontos muito apontados pelos hereges contra a Igreja, são combatidos no cânone 66, como já o haviam sido no III Concílio de Latrão. Ao mesmo tempo em que são combatidos os exageros de alguns clérigos que cobravam por práticas litúrgicas como funerais, casamentos e batismos, dando força ao discurso das heresias anticlericais, preserva-se o “louvável costume” dos fiéis em ofertar para a Igreja, prática também combatida pelos valdenses que desejavam uma Igreja sem bens, mas que não fazia sentido a essa mesma Igreja abandonar.

O concílio procura ordenar o clero, moralizando-o, e fortalecer a centralização do poder papal e a independência da Igreja. Vale ressaltar que as ordenações relativas aos hereges, embora mais severas que as de 1179, não diferem muito do que se vinha fazendo na prática, sendo mais uma regulamentação de práticas já em uso por algumas autoridades seculares, que novidades apresentadas pela Igreja.

Conclusão

Concluímos os valdenses abraçaram uma vida de pobreza e oração. Defendiam a pregação realizada por todos, homens e mulheres, e negaram, em uma segunda fase, os sacramentos administrados por sacerdotes indignos, a aceitando apenas três sacramentos, o batismo, o casamento e a comunhão uma vez ao ano. Além disso, houve a negação do purgatório e das missas, orações e ofertas pelos mortos, bem como as indulgências. Afastaram-se, pois, da ortodoxia católica, tornando-se anticlericais e defendendo com fervor sua heresia. Justificavam-se com a citação bíblica de que alegando “Mais vale obedecer a Deus que aos homens” [5].

É interessante acrescentar que até nossos dias “existem grupos valdenses com denominações diversas nos Estados Unidos, no Uruguai e na Europa. Na região de Milão encontra-se o maior número de fiéis, que contam com igrejas, hospitais e escolas”[6].



REFERÊNCIA:

[1]. BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Trad. J. F. de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1986. Mateus, cap. 19 vers. 21.

[2]. FALBEL, Nachman. Heresias medievais. São Paulo: Perspectiva, 1977, p. 62).

[3]. Em relação à data em faleceu Valdo, os historiadores divergem, alguns falam em 1206 ou 1207, outros em 1179.

[4]. QUEIROZ, Tereza Aline Pereira de. As heresias medievais. 4 ed. São Paulo: Atual, 1988, p. 31.

[5]. BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Trad. J. F. de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1986. Atos 5: 29.

[6]. THOMÉ, Laura Maria Silva. Da ortodoxia a heresia: os valdenses (1170-1215). Dissertação de Mestre em História, Curso de Pós-Graduação em História, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná. 2004.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Trad. J. F. de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1986.

FALBEL, Nachman. Heresias medievais. São Paulo: Perspectiva, 1977.

QUEIROZ, Tereza Aline Pereira de. As heresias medievais. 4 ed. São Paulo: Atual, 1988.

THOMÉ, Laura Maria Silva. Da ortodoxia a heresia: os valdenses (1170-1215). Dissertação de Mestre em História, Curso de Pós-Graduação em História, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná. 2004.

domingo, 28 de novembro de 2010

A verdadeira face do combate ao crime no Rio

Por Douglas Barraqui

“Na paz prepare-se para a guerra, na guerra prepare-se para paz”; no caso do Rio de Janeiro, quando deveremos nos preparar para a paz? Bombas, tanques, tiros de fuzis rasgando a noite; o Rio virou Bagdá. Veículos em chamas, correria nas ruas, carros de polícia em alta velocidade; pena não ser mais um filme de Hollywood. A muito se falava de um Estado paralelo, o crime organizado, e de uma guerra não declarada que ceifava vidas humanas todos os dias. Hoje o que podemos dizer sobre o Rio de Janeiro? Continua lindo?

De 2000 a 2009, 822 ônibus foram queimados e depredados por bandidos no Rio. Desde o início dos ataques neste mês de outubro, pelo menos 100 carros de passeio, ônibus, motos, vans e caminhões já foram incendiados e, até sexta feira, dia 26, eram cerca de 50 mortos na capital, Região Metropolitana, Baixada Fluminense e em cidades do interior.  Mata-se mais no Rio de Janeiro do que em Israel. O que sobra é o choro das mães que perdem seus filhos.

Para o sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Gláucio Soares, a instalação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) resultou "numa redução considerável de renda" pelos traficantes, e na perda de um domínio territorial que já somava décadas. As UPPs culminaram na perda do monopólio territorial do tráfico, paralelamente as milícias, começaram a concorrer nas mesmas atividades ilícitas, coisas da concorrência do mundo capitalista. Então, restou aos traficantes protestar a perda de seu ganha pão queimando carros.

Então parabéns se você gostou dessa explicação. Agora entenda de fato os fatos: uma das origens históricas para o controle do tráfico sobre comunidades carentes do Rio remonta aos mandatos do ex-governador Leonel Brizola (1983-1987 e 1991-1994). A política brizolista, de que polícia não sobe morro, foi desastrosa porque deu tempo, e de sobra, para esses grupos estabelecessem suas bocas de fumo e seus domínios territoriais. As UPPs  puseram fim a esses domínios.

Há ainda uma motivação política por trás dos ataques, lembrando que estamos num momento de transição entre um mandato político e outro. A situação lembra a virada de 2006 para 2007, quando uma série de ataques, incluindo ônibus queimados e policiais mortos, foi realizada antes da posse do governador Sérgio Cabral. A única diferença e que os ataques de agora pareceram muito mais articulados e coordenados.

E por último o país do futebol não poderia correr o risco de manchar de sangue a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. O Rio se tornou foco de atenção em função desses dois grandes eventos, que vão atrair muito investimento e muito turismo. Qualquer coisa que acontecer aqui, tipo um turista assaltado e morto por traficantes do Morro do Alemão, viraria uma manchete de prato cheio para a mídia internacional. Assim é melhor cortar o mal agora e, esperamos que seja, pela raiz.

E hoje, garimpando informações para escrever o artigo que você está lendo meu caro leitor., me dei conta de como o crime organizado gera divisas, incentiva o lucro, nutri a mídia. Em uma das reportagens com o título “Soldados do Bope vão invadir Alemão em blindados da marinha”, logo abaixo do texto consta “links patrocinados”, com as seguintes propagandas: “Manutenção de Vidros Blindados Vamos Até Você! Cartão 3x Sem Juros”; “Excelência em Blindagem para carro, venha blindar seu carro agora mesmo” e, a minha prefirida, “Camiseta do Bope, compre agora R$ 60 camiseta faca na caveira”. Rio babilônia.

Fontes:





quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A surdez: um olhar sobre as diferenças

Analise por Douglas Barraqui

Um Olhar Sobre o Nosso Olhar Acerca da Surdez e das Diferenças é um texto de Carlos Skliar, disponível no livro, “A surdez: um olhar sobre as diferenças,  por ele organizado. Skliar é docente da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; pesquisador de “necessidades educacionais especiais, a surdez” e fundador do Núcleo de Pesquisas e Estudos para Surdos (NUPES).

Neste texto Skliar parte do pressuposto de que o surdo é assistido sob uma ótica antropológica, histórica-social. Aborda, de maneira bem clara, a questão da surdez, problematizando e questionando a constante rotulação  de deficiência.

Skliar aponta para a existência de uma ideologia dominante, criada pela cultura oral, que impõe ao surdo seu modo de vida. Uma ideologia que define o surdo com supostos traços negativos, com rótulos do tipo: desvio de normalidade, falta e deficiência. Um estigmatismo que, segundo o autor, contamina a educação desenvolvida para os surdos.

A surdez é apontada pelo nosso autor como uma diferença a ser politicamente reconhecida, uma identidade. Todavia essa ideologia dominante, que o autor chama de “ouvitismo”, configura-se em um conjunto de representações segundo o qual o surdo é obrigado a olhar-se e a narrar-se como se fosse um ouvinte.

De fato o “ouvitismo” teve como base os textos da medicina, a autoridade dos pais e, até mesmo, dos próprios surdos que acabavam por negar sua condição. Deste modo o “ouvitismo” foi de fato, é o que expõe o Skliar, uma forma de “colonização” do currículo que acabou equiparando os surdos aos doentes mentais. Tal conjuntura leva incondicionalmente ao fracasso escolar que muitas das vezes é atribuído ao fracasso dos professores; a metodologia de ensino tidas como limitadas; e ao próprio surdo pela sua condição biológica natural.
Skliar diz que a educação dos surdos não fracassou, ela apenas conseguiu os resultados previstos em função dos mecanismos e das relações de poderes e de saberes atuais. O autor nos diz ainda que o que de fato fracassou foi a representação da ideologia dominante a cerca do que é o sujeito surdo; os direitos linguísticos e de cidadania; as teorias de aprendizagem; a epistemologia dos professores ouvintes na aproximação com seus alunos surdos. O fracasso da educação de surdos, portanto, tem raízes históricas e políticas.

O autor trás, ainda, uma discussão sobre as narrativas e os contrastes binários, como: “normalidade/anormalidade; Maioria Ouvinte/minoria surda ouvinte/surdo; língua oral/língua de sinais.” Concepções que sempre trás a hegemonia do primeiro termo sobre o segundo. É nada mais nada menos do que um sistema ouvitista de valores.

No contraste binário ouvinte/surdo o autor argumenta que a intenção de que as crianças surdas fossem, no futuro, capazes de ser adultos ouvintes, originou doloroso jogo de identidade entre os surdos. Como que ser ouvinte fosse como ser falante, ou ser branco, homem, profissional e letrado. Ser surdo significa ser não falante e, portanto, não é ser humano.

Quando a maioria Ouvinte/minoria surda Skliar diz que há um discurso que define a comunidade surda como uma minoria lingüística e que a língua de sinais é utilizada por um grupo restrito. O autor nos dá exemplos que desmistificam tal argumento: na Inglaterra existem cinquenta mil surdos que falam a língua de sinais britânica, quase a mesma quantidade de pessoas que falam o gaulês. A língua de sinais americana é a terceira língua mais falada nos EUA. E os Índios Urubus-Kaapor do Brasil, são majoritariamente ouvintes, mas utilizam uma língua de sinais para comunicação.

Por fim uma analise sobre a questão da língua oral/língua de sinais, o autor diz que nas escolas de surdos continua se reproduzindo uma oposição entre oralidade e gestualidade. Argumenta ainda que língua de sinais e a língua oral não constituem uma oposição e não podem ser vistas ou interpretadas como tal, mas sim canais diferentes de comunicação.

Skliar defende a criação de políticas linguísticas , de identidade comunitárias e culturais; o desenvolvimento de um processo cultural específico com a participação dos surdos nos debates lingüísticos, educacionais, escolares e de cidadania. Que a língua de sinais seja posta ao alcance de todos os surdos, isso é o principio de uma política linguística, dentro de um projeto educacional mais amplo. A surdez deve ser concebida como uma experiência visual; para tanto é necessário olhar para o surdo com e sua cultura com sua própria lógica, sua própria historicidade, seus próprios processos e produções. Os estudos surdos em educação devem ser pensados como um território de investigação educacional e de proposições políticas. O autor, portanto lança uma visão sobre a questão da inclusão, dando um novo olhar sobre as diferenças das pessoas.

Concluo, portanto que a base argumentativa de Skliar demonstra a problemática da imposição da cultural ouvinte sobre o surdo e seu modo de vida sem considerar os hábitos e vivências deste, sem “escutá-lo” e ignorando desta forma sua constituição cultural, gestual. É fato que, de uma forma quase que geral, a sociedade entende a surdez enquanto uma deficiência e que, concequentimente, acaba por enquadrar o surdo em um modelo clínico necessário de correção. É esse um dilema que tem que ser mudado e é o que argumenta nosso autor.

O texto, portanto, é uma leitura fundamental que nos permite lançar um novo olhar sobre os surdos e ao mesmo tempo propõe rumos possíveis a todos sobre a problemática que atinge a educação para os surdos.

Bibliografia:
SKLIAR, Carlos. Um olhar sobre o nosso olhar acerca da surdez e das diferenças. In: ______. A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Editora Mediação, 1998b. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Eleições: o novo reality show da televisão brasileira

Por Douglas Barraqui

Eu estava ficando orgulhoso da democracia brasileira, até esse segundo turno das eleições 2010. O nível dos discursos dos nossos candidatos à presidência chegou a tal ponto, de baixarias, insultos e infâmias que o IBOP está sendo comparado a dias de decisão em um desses reality show da televisão.

O que é isso caro eleitor? É fato que tanto Dilma quanto Serra estão preparados para governar o Brasil. O povo brasileiro tem essa percepção e o reflexo é visto nas pesquisas que apontam para um empate entre os dois candidatos. Mas, por que o nível e a animosidade, entre os dois peso pesados da política nacional, baixou tanto?

O PT, desde 2003, mama em uma teta bem gorda e não quer largar. O PSDB mamou, de 1995 a 2003, é quer sentir o gosto novamente. E a disputa pelo poder deixa o campo da democracia, um dos projetos mais ousados da história da humanidade, para partir para a “baixocracia”. Vence quem for mais baixo, arrogante, medíocre e hipócrita.

Nos debates do segundo turno eu esperava, e acredito que o povo brasileiro também, que os candidatos adotassem uma postura mais centrada em suas propostas. Mas, essa possibilidade foi descartada logo no primeiro debate eleitoral. O troca-troca de acusações foi constante e o povo brasileiro não sabe mais quem é o lobo e quem é o cordeiro.

Não estou aqui para dizer a você, meu caro leitor, que esse candidato é melhor que o outro para votar nesse e não naquele. Quero apenas que você tenha bom senso. Não se constroem países com insultos, ou ataques. Mas, sim com propostas, com projetos e principalmente com democracia.

sábado, 9 de outubro de 2010

Judeus: Demonizados e Excluídos no Medievo


Judeus rezando no Yom Kipur, de Maurycy Gottlieb


Associar judeus ao Diabo e marginalizá-lo foi uma rotina dentro do discurso cristão, inserido na realidade medieval. As condições precárias de Israel em termos de escassez de recursos naturais e a perseguição do período romano, culminram na diáspora (dispersão) judaica ou Galut. Dispersos pela Europa e depois pela América, se configuravam como um povo sem pátria, uma etnia sem nação.

Na Europa, durante o período medieval, em uma sociedade definida segundo a ótica da Igreja Católica, estamental, dividida em ordens: os que rezam, os que lutam e os que trabalham (oratores, bellatores e laboratores), os judeus não podiam ser senhores, não podiam pertencer ao clero, não podiam ser servos, nem juram vassalagem. Resumindo eram excluídos da sociedade medieval.

Excluídos no campo, a maioria dos judeus foram para as cidades passando a se dedicar ao comércio e ao artesanato. Comercializar passa a ser uma profissão tipicamente judaica. A partir do século XI a nascente burguesia cristã entrará em choque com os judeus. As Corporações de Oficio conspiraram para obter a expulsão dos judeus do comércio e do artesanato. Foi um processo paulatino fruto da ambição da burguesia cristã em dominar o comércio.

Expulsos do comércio, só restou-lhes a opção de se dedicarem à usura (empréstimo de dinheiro a juros), prática condenada veementemente pela Igreja. Contraditoriamente, embora taxados como pecadores contra Deus, os judeus eram necessários e fundamentais para a expansão econômica comercial dos negócios nas cidades, mesmo assim foram expulsos de vários países.

De fato, até antes mesmo de ser concorrente econômico do burguês cristão, o judeu já era assistido como deicida, pária, inferior e nocivo. As heresias e a questão judaica eram confundidas como facetas de uma mesma luta  dualista, entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo. Associar o judeu com heresia e/ou com o Demônio passa a ser algo comum.

Diversos mitos auxiliavam o discurso de demonização, a exemplo o rito do crime ritual: seria o assassinato de um cristão para obter o sangue, que seria utilizado na produção de pães ázimos para a páscoa judaica (pessach). Outro mito é o de envenenamento de poços, fruto da união entre judeus e leprosos. A bruxaria e o satanismo foram igualmente associados a eles. O Shabat (sábado judaico, dia de descanço) era confundido com o Sabá das bruxas. A própria prática do empréstimo de dinheiro a juros seria plano arquitetado pelo diabo com os judeus para por fim a sociedade cristã.

O discurso demonizador ganha terreno. A Igreja acelera as campanhas de conversão e de combate ao Diabo. Franciscanos e Dominicanos se dedicam à missão de converter os judeus e de combater os hereges e as bruxas. O Talmud, registro das discussões rabínicas que pertencem à lei, ética, costumes e a história do judaísmo, foi queimado aos montes na frente da Catedral de Notre Dame. Acusavam o livro de serem repletos de blasfêmias contra Jesus. Da queima de livros passaram a queimar seres humanos sob a alegação de heresia judaizante (inquisição ibérica, séculos XIV e XV).

Século XIX, e a aversão ao judeu reaparece sob a forma de racismo. O nazismo cooptou esse discurso, uma pseudociência do século XIX, que serviu de justificativa para a idéia anti-semita defendida por Hitler.

A queima de exemplares de Talmud é repetida, agora no século XX, quando Hitler mandou que queimassem todos os livros de autores judeus. E a queima de seres humanos se repete com as câmaras de gás e os campos de concentração, o genocídio dos judeus na Alemanha.

A crença de que os judeus são sempre hábeis comerciantes, usurentos, sovinas, e poucos generosos tem origem, portanto, no medievo em meio ao discurso cristão de demonização dos judeus. Uma imagem parcial e distorcida de uma etnia culturalmente rica.  

Bibliografias consultadas:

BEREZIN, Rifka. Caminhos do Povo Judeu. São Paulo: FIESP, V. III, 1974.

FELDMAN, Sergio Alberto. Os judeus no imaginário medieval: Diabolização de uma minoria. In: Tuiuti, Ciência e Cultura, n.º 11, 1999.

MARCCOBY, Hiam. O Judaísmo em julgamento. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Pensamento Pedagógico em Roma

Por Douglas Barraqui

Considero a educação uma das práticas mais humanas, levando em consideração o seu significado e influência no caráter existencialista do homem. Assim sendo com base em dois autores bem didáticos, Maria Lúcia Aranha e Moacir Gadotti, tracei um esboço de como a educação era pensada em Roma e qual era o ideal de homem romano. Para tanto, preocupei-me em delimitar algum paralelo com o pensamento pedagógico dos gregos, que de certo modo e até certo grau, influenciou a educação romana.

Os romanos, bem como os gregos, não valorizavam o trabalho manual, seus estudos eram essencialmente humanistas. O que viria a ser humanistas? Roma desenvolveu a concepção de império formado de vários povos, sem discriminar os vencidos e ainda lhe dando o direito a cidadania romana, em troca do pagamento de impostos. Humanitas: é pensar uma cultura universalizada. Equivale à Paidéia grega, distingue-se dela por se tratar de uma cultura predominantemente humanística e, sobretudo cosmopolita e universal, buscando aquilo que caracteriza o homem, em todos os tempos e lugares. É uma concepção que não se restringe ao ideal de homem sábio, mas se estende à formação do homem virtuoso, como ser moral, político e literário. A humanistas, dada na escola romana, seguia as seguintes fases:

  • Ditado de um fragmento do texto, a título de exercício ortográfico;
  • Memorização do fragmento;
  • Tradução do verso em prosa e vice-verça;
  • Expressão de uma mesma idéia em diversas construções;
  • Análise das palavras nas frases;
  • Composição literária;
Assim era instruída a elite romana. Enquanto os gregos e sua pedagogia enfatizavam a visão filosófica ou o predomínio da retórica, Roma, por sua vez, adotava uma postura mais gramática, voltada para o cotidiano, para a ação política. É o domínio da retórica sobre a filosofia. A agricultura, a guerra, a política constituía o programa que um romano nobre deveria realizar. Os escravos aprendiam as artes e os ofícios nas casas onde serviam.

No apogeu do Império Romano, ou seja, no auge de suas conquistas, os enormes tentáculos do império necessitavam de escolas que viessem a preparar os futuros administradores. Quando os romanos impuseram o latim a numerosas províncias, o sistema educacional romano dividia-se em três graus:

1)     Ludi-magister: educação elementar;
2)     Gramático: que corresponde ao que hoje chamamos de ensino secundário;
3)     A educação superior romana seria a retórica, o ensino do direito e da filosofia;

Pela primeira vez na história, e isso quem vai nos dizer é Moacir Gadotti na obra História da Idéias Pedagógicas, um Estado se ocupa diretamente com a educação. Para vigiar as escolas, foram treinados os supervisores-professores, cujo regimento tinha caráter militar. Direitos e deveres, eis o que ensinavam os romanos:

  • Direito do pai sobre o filho (pater potestas). No lar o pai inflingia sobre os filhos, e nas escolas os castigos podiam ser severos, incluindo açoites;
  • Direito do marido sobre a esposa (manus);
  • Direito do senhor sobre os escravos (patestas dominica);
  • Direito do homem livre sobre um outro que a lei lhe dava por contrato ou por condenação judiciária (manus capare);
  • Direito sobre a propriedade (dominiun).

Assim a educação romana, podemos constatar, era utilitária e militarista, organizada pela disciplina e justiça. Todos as cidades e regiões conquistadas, apesar de se serem consideradas aliadas de Roma, eram submetidas aos mesmos hábitos e costumes, à mesma administração. Dessa forma os romanos conseguiram atingir um fenômeno, que é chamando por muitos autores, de “romanização”, obra que foi terminada pelo cristianismo.

Roma teve vários teóricos da educação dentre os quais podemos destacar: Catão, “o antigo” (234-149 a.C.): preconizava a formação do caráter, defendendo o retorno às raízes romanas, a tradição contra a influência helênica.

Marco Terêncio Varrão (116 - 27 a.C.): partidário de uma cultura romano-helênica, com base na “virtus”romana: pietas, honestitas, austeritas. Escreveu uma enciclopédia didática, onde discutia o ensino da gramática. Compôs sátiras, que viriam a orientar os jovens na “virtu”, com máximas edificantes.

Marco Túlio Cícero (106 - 43 a.C.): ampliou o vocabulário latino, apoiado na experiência com o mundo grego e na erudição. Valorizou a fundamentação filosófica do discurso, tornando-se um dos mais claros representantes da humanitas romana. Compreendia que a educação integral do orador requer: cultura geral, formação jurídica, aprendizagem da argumentação filosófica, bem como o desenvolvimento de habilidades literárias e até teatrais, igualmente importante para o exercício da persuasão. Cícero será inclusive um dos principais modelos dos pedagogos para os renascentistas.

Sêneca (por volta de 4 a.C. – 65): insiste na educação para a vida e para a individualidade. Concebe a filosofia como um instrumento capaz de orientar o homem para o bem viver. A filosofia teria a função de ensinar a verdadeira vida humana, que não se confunde com o gozo dos prazeres, voltada que está para o domínio das paixões, já que a felicidade consiste na tranquilidade da alma. Enfatizado a educação moral, dando menos importância à retórica, Sêneca parte da premissa que a educação deveria ser prática e vivificada pelo exemplo.
 


Plutarco (por volta de 46 – depois de 119): dava ênfase em uma educação que procurasse mostrar a biografia dos grandes homens, para que assim servissem de exemplos vivos de virtude e de caráter. Reconhece a importância da música e da beleza na educação.

Marco Fábio Quintiliano (por volta de 35 – depois de 96): Foi um dos mais respeitado pedagogo romano. Defendia que o estudo devia dar-se num espaço de alegria (schola), onde o ensino da leitura e da escrita devia ser oferecido pelo mestre do brinquedo (ludi-magister). Marco Fábio Peconizava: 

  • Distancia-se da filosofia, preferindo os aspectos técnicos da educação, sobretudo da formação do orador.
  • Valoriza a psicologia como instrumento para conhecer a individualidade do aluno.
  • Sugere, para iniciação às letras, o ensino simultâneo da leitura e da escrita, criticando as formas vigentes por dificultar a aprendizagem.
  • Recomenda alternar trabalho e recreação para que a atividade escolar seja menos árdua e mais proveitosa.
  • Considera importante que a criança aprenda em grupo, por favorecer a competição, de natureza altamente saudável e estimulante.
  • Recomenda a prática dos exercícios físicos, realizada sem exageros.
  • Valoriza a busca da clareza, a correção, a elegância e os clássicos como Homero e Virgílio no estudo de gramática, reconhecendo os aspectos estético, espiritual e ético.
"Trazido o menino para o perito na arte de ensinar, este logo perceberá a sua inteligência e o seu carácter."
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

ARANHA, Maria Lúcia. História da Educação. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Moderna, 1996.

GADOTTI, Moacir. História das idéias pedagógicas. 3. ed. - São Paulo: Ática, 1995. 319p.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Por uma nova Escola por uma nova Educação

Por Douglas Barraqui


Hoje a que pé anda nossas escolas? Ela é a instituição capaz de formar o sujeito ético, preparado para o exercício da cidadania, e para a vida em sociedade? A educação pode ser considerada um processo integral na formação humana? podemos considerar essas indagações como parâmetros fundamentais e universais sobre os fins da educação.

Em nossa sociedade acredita-se fielmente na Educação como o caminho necessário para a formação do sujeito cidadão. Não é por menos que o Artigo 205 da Constituição Brasileira e o artigo 22 da Lei de Diretrizes de Base da Educação Nacional bem como o Relatório Condorcet, aprovado na assembléia Francesa, em 1792, elencam a Educação como primordial em termos de preparação do sujeito para a vida pública, cidadão.

Considera-se como fundamentos para a formação do sujeito ético a liberdade da vontade, a autonomia para organizar os modos de existência e a responsabilidade pelas suas ações. Compreende-se assim que este deve ser o objetivo da educação.

Podemos reconhecer que ação educativa é um processo regular desenvolvido em todas as sociedades humanas,  e que seu objetivo é preparar os indivíduos em crescimento para assumirem papeis sociais relacionados à vida coletiva: à reprodução das condições de existência (trabalho); comportamento justo na vida pública; uso responsável dos conhecimentos e habilidades disponíveis no tempo e no espaço onde a vida dos indivíduos se realiza.

Ser cidadão é exercer uma função social. O texto constitucional sugere que o conceito de cidadania resulte de uma função social – a prática da cidadania – onde o seu significado emerge. O ato concreto do exercício da cidadania que dá sentido ao termo cidadão. Portanto, cidadania é o atributo aplicado ao cidadão e, mais importante ainda: recebe sua legitimidade na ação educativa.

A cidadania se constrói, então, nos fundamentos da liberdade, da autonomia e da responsabilidade. O exercício da cidadania compreende em duas ações interdependentes: a primeira refere-se à participação lúcida do individuo em todos os aspectos da organização e da condução da vida privada e coletiva; A segunda, a capacidade que estes indivíduos adquirem para operar escolhas.

Através dessas considerações podemos assistir a democracia como sendo o projeto mais completo e ambicioso de todos os tempos. Os cidadãos munidos dos instrumentos da cidadania, tornam-se construtores de formas organizativas e de ação na vida pública. Essa forma de organização social e de ação política denomina-se Democracia. Logo a democracia é o modo como seres humanos autônomos, livres e responsáveis articulam as diversas vontades e capacidades individuais e coletivas para construir um modo de viver que lhes permita o mais alto grau possível de exercício de sua liberdade, em espaço público. 

Quero então destacar a hipótese levantada por Neidson Rodrigues em seu texto, Educação: da formação humana à construção do sujeito ético: primeiro, de que devem ser tomados por cidadãos, ou estão aptos a exercerem a cidadania, todos aqueles que se encontram integrados à vida social; segundo, para que essa integração ocorra, os indivíduos precisam ser portadores de habilidades para exercício de uma função útil e reconhecida como legitima para si próprio, para a sua família e para a comunidade; por fim, devem ser considerados não cidadãos todos aqueles que se encontram afastados ou desalojados dessas condições básicas do exercício da cidadania.

Para que chegamos no ideal de cidadão como deve ser, então, a Educação? Para Kant “o homem é a única criatura que precisa ser educada”. A educação é necessária para que o ser humano seja constituído. Isso se deve ao fato de que, segundo Kant, o homem não se define como tal no próprio ato de seu nascimento, pois nasce apenas como criatura biológica que carece se transformar, se re-criar como ser humano.

A formação do ser humano, para Kant, se dá de duas maneiras: de fora para dentro, ele precisa ser educado por uma ação que lhe é externa, assim os mais velhos teriam de educar os mais novos; e de dentro para fora, onde educar compreende acionar os meios intelectuais de cada educando para que ele seja capaz de assumir o pleno uso de suas potencialidades físicas, intelectuais e morais para conduzir a continuidade de sua própria formação.

Mas, há um problema que, Neidson Rodrigues enfatiza:  nenhum individuo isoladamente, por melhor preparo que tenha, será capaz de oferecer a outro a plenitude da formação de que ele necessita, bem como nenhuma instituição, ainda que seja definida como educativa, poderá dar conta desse papel. Essa tarefa é de responsabilidade ampla, ou pelo menos deveria assim ser. Educar como formador de sujeito humano, é, tradicionalmente, a tarefa da família a começar pelos pais; da comunidade; da religião (sem distinção de credo) e as instituições sociais como o Estado e seus aparelhos, a justiça, os partidos políticos, as organizações da sociedade civil.

O que ocorre nos últimos tempos é uma desintegração dessas unidades educativas. Os pais estão cada vez mais ausentes da vida dos filhos, desde os primeiros  dias  de suas vidas, por força de suas profissões. Igualmente, a Igreja deixou de representar uma instituição unitária e hegemônica capaz de dar direção moral, alguns consideram que a ciência roubou esse cenário. Às novas gerações e as comunidades desapareceram ou se fragmentaram em sites de relacionamentos nas páginas da internet. 

A Escola e a Educação, portanto, se encontram em um novo tempo. Mas ainda é a instituição e o fundamento que conseguem se manter presetes em termos de universalidade. Assim cada vez mais a escola exercerá ou poderá exercer um papel que a ela jamais foi atribuído em tempos passados: o de ser a instituição formadora dos seres humanos.

Isso tem acontecido na medida em que os meios e as formas tradicionais de Educação acham-se de tal modo corroídas, começam a ser direcionadas para a escola os olhares dos povos, na esperança de que esta exerça uma função educativa e não apenas a da escolarização. Assim será necessário uma outra visão da Escola, dos conteúdos escolares, do papel dos educadores e da relação da Escola com a sociedade.”

“As crianças serão enviadas para a Escola cada vez mais cedo e nela permanecerão por tempo mais extenso. E isso será porque a escola deverá exercer o tradicional papel das famílias, das comunidades, da igreja, e ainda, o que lhe era próprio: desenvolver conhecimento habilidades. Ela deverá se ocupar com a formação integral do ser humano e terá como missão suprema a formação do sujeito ético.”

A Escola e a Educação, portanto, devem ser repensadas em seu tempo. Podem ser filhas de outros tempos, mas não se pode fechar os olhos para os novos tempos. Pode até ser que não conseguiremos a melhor Educação, ou aquela que se espere como ideal, mas que consigamos repensar a melhor educação possível. Preparando o individuo para encontrar-se com “partícipe de um processo civilizatório, no qual se torna responsável com o bem estar pessoal e dos outros, e com a incessante busca da felicidade”, em uma vida em sociedade.

BIBLIOGRAFIA:

RODRIGUES, Neidson. Educação: da formação humana à construção do sujeito ético. Educação e sociedade, Campinas, V.22, n. 76, out. 2001.