sábado, 23 de maio de 2009

Você é um burguês?


By Douguera

O ódio ao burguês é tão velho quanto o próprio burguês. A muito, ele é considerado o bode expiatório das desgraças do mundo e sobre seus ombros recaíram, e recaem, um desprezo temperado a um ódio discriminador. A igreja os via como adoradores do demônio por praticarem o lucro e a usura; os escritores românticos, em suas obras, lhes deram papéis de vilões; comunistas e nazistas, em suas respectivas conjunturas, deram ao burguês o título de “inimigo público número um”. E por fim acabaram por serem odiados por eles mesmos.

Uma classe social sem status, sem tradição e declaradamente sem honra, ela apenas ostenta um título, por sinal muito frágil à dominação: a riqueza. Mas, horas vejamos, qualquer um, imbuído de seus esforços, pode ser, assim como também pode deixar de ser rico. Poderia ela ostentar todo dinheiro do mundo, todavia esse dinheiro não lhe assinala nenhum lugar, o dinheiro não vai comprar ou provar sua “virtu”.

Em seus idos de revolução o burguês defendeu com todas as suas forças a igualdade e a universalidade dos homens, que foram, de forma significativa, esboçados no lema “
liberté, egalité e fraternité”[1],todavia, acabaram por se embebedar e afogar em sua própria contradição, da desigualdade produzida pela sua riqueza e pela virulenta progressiva competição entre seus próprios irmãos. Assim, a idéia de igualdade não passou do horizonte imaginário dessa classe e o burguês acaba por se tornar infiel a seus próprios princípios.

Em suma o que o burguês inventou voltou-se contra ele com tanta violência a ponto de terem seus corpos humanos trucidados pelos regimes totalitários – aqui me refiro ao massacre dos judeus pela Alemanha nazista e a violência do regime de Stalin na URSS. Ele um dia derrubou a aristocracia de seu trono, no entanto acabou por incorporar essa mesma aristocracia; a igualdade e a liberdade o apavoram, a ponto de lhes causar calafrios; foram arquitetos da democracia, mas seus governos descaradamente sujeitos a corruptibilidade, minam suas bases de forma a fazer
Clístenes [2] remoer-se na sepultura.

O dinheiro faz o burguês ser odiado. Volta-se contra ele o preconceito da aristocracia, o ciúme e a inveja dos pobres e um profundo alargado desprezo dos intelectuais. Um ódio que tomou proporções avassaladoras com o comunismo e com o fascismo. O culto a nação, cuja incrível força foi mostrada pela Primeira Grande Guerra, fundiu-se em uma vontade política libertadora, que afloraram de forma surpreendente e nuca vista antes em forma de ideologias apaixonantes: esquerda e direita, (respectivamente comunismo e fascismo) abrem um vasto campo de movimento anti-burguês e suas diferenças acabaram por serem diluídas na Segunda Grande Guerra.

Mas, o que quero de fato é por uma pedra no seu sapato: Em uma definição marxista o burguês é aquele que detem a posse dos meios de produção, todavia, já podemos, e isso é mais que perceptível, falar na existência de um modelo comportamental no qual também podemos usar para definir um burguês. Por fim, todo aquele que prega a idéia de igualdade e liberdade pode ser chamado de um burguês em potencial e no mínimo um simpatizante. Ao preservar valores como o de igualdade, liberdade e individualidade não estaríamos sendo tão burguês quanto os próprios burgueses? Deste modo a própria existência da sociedade burguesa não passaria de um mito e acabamos por nos fazer e se tornar inimigos de nós mesmos.


[1] liberté, egalité e fraternité. Lemas da Revolução Francesa de 1789.
[2] Clístenes - Legislador ateniense considerado o fundador do sistema democrático em
Atenas, também conhecido como o “pai da democracia”.

Bibliografias:
FURET, François. O passado de uma ilusão. São Paulo: Siciliano, 1995. 599p.
SOARES, Geraldo Antonio. A utopia liberal: um ensaio sobre a historicidade do mercado como regulador econômico social. Vitória: Edufes, 2000
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Um comentário:

aldeoni disse...

QUANDO VOCÊ DESCOBRIR ME AVISE ATE HOJE NÃO SEI O QUE REALMENTE SOU...