terça-feira, 21 de abril de 2009

Annales By Douguera



Em oposição ao marxismo e a seu levante da massa proletária e ao conservadorismo exacerbado do pensamento positivista é que surge a corrente de pensamento Annales. Buscando uma história totalizante a revista dos Annales, fundada em 1929, por Marc Bloch e Lucian Febvre, trouxe uma nova abordagem para o estudo da história que até hoje pode ser sentida em caráter de influências e conseqüências. Retomando momentos históricos que foram sufocados pelos positivistas, ela saqueou as disciplinas do homem, sendo, portanto interdisciplinar para trazer a tona a reflexão e a prática técnica da história.

Por intermédio da interdisciplinaridade a história foi retirada de seu isolamento, fazendo com que novos problemas e metodologias, existentes em outras ciências sociais, fossem fagocitadas pelas formas de pensar em história: novos conceitos, inflexões, isso é claro, respeitando limites sem deixar corromper uma disciplina pela outra. Ao mesmo tempo em que se pensava em uma unidade de construção entre a história e as ciências sociais era reivindicado uma história de caráter científica experimental. A “história problema” e a “historia totalizante” (ambição dos marxistas bem antes dos Annales), surgem em detrimento à opulência da “narrativa histórica” e as “histórias parciais”.

Vai ser a obra do sociólogo François Simiand e de Henri Berr, a “Revue de Synthèse historique”, que terá grande influência no pensamento da escola dos Annales. Esse importante artigo, publicada em 1903, vai colocar em debate a metodologia tradicionalmente utilizada em história. O autor acreditava que seria possível uma unidade metodológica para todas as ciências sociais, dentre elas a história.

A escola dos Annales se dividiu basicamente em três fases, configurações que são fundamentais de serem compreendidas:
1. A primeira fase: “revolucionária”, para uns a mais inteligente e sensível, no contexto entre guerras, foi um momento de rompimento com a história política e dos simples eventos.
2. A segunda fase: após a II Grande Guerra, os Annales são uma corrente forte e poderosa, aproximam-se de uma “escola”; com conceitos (estrutural e conjuntural) e novos métodos ( História serial das mudanças na longa duração). Aqui se destacou Fernand Braudel.
3. A terceira: consegue exercer uma grande influência sobre a historiografia e por que não sobre o público leitor é marcada pela fraguimentação que, comumente chamamos de Nova História ou História Cultural.

O projeto era uma história que, em meio a suas propostas, fragmentos ou inflexões, apontasse para uma atuação mais ampla, rigorosa e interdisciplinar. Baniria de uma vez a “narrativa histórica” para instâncias secundárias. Todavia, mesmo com sua notória interdisciplinaridade, plasticidade e democracia os Annales não conseguiram vencer as limitações, dentre os quais não enfrentaram o presente. Além do mais, não que se possa chamar de defeito, não assistiam de uma visão progressista continuista da história, refutando a idéia de progresso e de revolução em grande parte.


Bibliografias Relacionadas:


BRAUDEL, Fernand. HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS. Editorial Presença, Lisboa, 1972.
BLOCH, Marc Leopold Benjamin – “Os reis taumaturgos: O caráter sobrenatural do poder régio, França e Inglaterra “ São Paulo, Companhia das letras, 1993,
FEBVRE, Lucien. COMBATES PELA HISTÓRIA. Editorial Presença, Lisboa, 1985.
GOFF, Jacques; NORA, Pierre (org.). HISTÓRIA: NOVOS PROBLEMAS, NOVAS
ABORDAGENS, NOVOS OBJETOS. Francisco Alves, 3 vol., Rio de Janeiro, 1976.
LOWY, Michael . AS AVENTURAS DE KARL MARX CONTRA O BARÃO DE MUNCHHAUSEN.
Busca Vida, São Paulo, 1987.
REIS, José Carlos – “Escola dos Annales – A inovação em história”. São Paulo , Paz e Terra, 2000.
REIS, José Carlos. NOUVELLE HISTOIRE E TEMPO HISTÓRICO. Ática, São Paulo, 1994.

sábado, 11 de abril de 2009

Positivismo By Douguera





Fundamentado na cientificidade e na organização técnica da sociedade moderna o positivismo encontra na experiência - análise e observação - a única forma de se chegar à verdade empírica. Idealizada pelo filósofo francês Auguste Marie Fraçois Comte (1758-1857), essa corrente de pensamento se fazia contrária à metafísica, defendendo que somente os fatos e fenômenos perceptíveis devem ser a razão do conhecimento.


Dentre as suas diversas premissas, destaca-se o fato de considerar que as sociedades humanas passam, de forma incondicional, por três estágios no decorrer de sua evolução.

  1. O estágio mitológico; identificado nas comunidades primitivas;
  2. O estágio teológico; perceptíveis em sociedades que se estruturam dogmaticamente em torno de religiões, a exemplo da sociedade cristã medieval;
  3. O estágio moderno; ocorrendo o afloramento das bases reacionais com o abandono do metafísico, como as sociedades industriais contemporâneas.


O positivismo teve um papel fundamental durante a transição monarquia república na História do Brasil, minando importantes setores das elites, sobre tudo o exército que defendia um poder forte e centralizador no executivo (ditadura republicana), capaz de fazer com que o país ultrapassasse o teológico e chegasse ao moderno sem seguir o modelo liberal, para tanto o governo tinha que ser capaz de combinar a ordem com progresso, lema de nossa bandeira.


O positivismo em História


Para as concepções de História sua aplicabilidade seria desarmoniosa, por isso para alguns, o positivismo em História, também conhecido como "escola metódica", seria uma “História de segundo grau”, não teria sido uma ciência, e sim distúrbios.


“O passado já passou nada temos que nos meter”. Assim o positivismo considera que as ciências naturais, que detém o conhecimento objetivo, seja o viés plausível de sua lógica epistemológica. A metodologia da História, portanto seria a mesma das ciências naturais e deveria estudar seu objeto da mesma maneira, com a esperada neutralidade e sem juízo de valores, logo a separação entre fatos e opinião quanto a isso, seria algo imprescindível.


É, portanto, por trás dos dados objetivos, nada de subjetivismo, que se esconde a doutrina positivista. Em uma concepção ampla, a sociedade seria regrada por leis naturais que são de caráter imutáveis e não dependem da intervenção arbitrária, deste modo a função básica da História seria o de reproduzir os fatos sem que estes se relacionem com o historiador. O sujeito (historiador) e qualquer que seja sua posição quanto ao objeto deve ser neutro.


A existência dos homens, inseridos no movimento constante de evolução de suas sociedades, está sujeita e condicionada a uma constante de fenômenos no decorrer do trajeto o que deixa marcas, pegadas - documentos - que serão utilizados para reconstruir o passado, logo os fatos e consequentemente a História estariam nos documentos. O historiador seria o cientista capaz de extrair a verdade dos documentos.


Bibliografias Relacionada

BOURDÉ, Guy; MARTIN, Hervé. AS ESCOLAS HISTÓRICAS. Europa-América, Lisboa, 1990.

CASSANI, Jorge Luis; AMUCHÁSTEGUI, A. J. Pérez. DEL EPOS A LA HISTORIA CIENTÍFICA.

Editorial Nova, Buenos Aires, 1971.

COMTE, Augusto. Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1983.

William. FILOSOFIA DA HISTÓRIA. Zahar, Rio de Janeiro, 1977.

FOUCAULT, Michel. AS PALAVRAS E AS COISAS. Portugália, Col. Problemas/23, Lisboa, 1968.

GOFF, Jacques; NORA, Pierre (org.). HISTÓRIA: NOVOS PROBLEMAS, NOVAS ABORDAGENS, NOVOS OBJETOS. Francisco Alves, 3 vol., Rio de Janeiro, 1976.

Michael. IDEOLOGIA E CIÊNCIAS SOCIAIS. Cortez, São Paulo, 1985.

LOWY, Michael . AS AVENTURAS DE KARL MARX CONTRA O BARÃO DE MUNCHHAUSEN. Busca Vida, São Paulo, 1987.

MARROU, Henri-Irénée. SOBRE O CONHECIMENTO HISTÓRICO. Zahar, Rio de Janeiro, 1978.

MÉSZÁROS, Istvan. FILOSOFIA, IDEOLOGIA E CIÊNCIA SOCIAL. Ensaio, São Paulo, 1993.

RÜSEN, Jörn. NARRATIVIDADE E OBJETIVIDADE NAS CIÊNCIAS HISTÓRICAS. TEXTOS DE HISTÓRIA/75-102, vol. 4, nº 1, 1996.


sexta-feira, 10 de abril de 2009

Historicismo By Douguera



Compreender o homem e o real é em termos, diga simplificado, o objetivo do historicismo enquanto História. Apresentando-se como uma ciência, como filosofia ou ainda como a realidade, este jeito de fazer História, se apóia no eixo de onde partem os conceitos e os julgamentos.

Caminhando com cuidado podemos encontrar vários historicismos, dentre os quais: o antropológico, que mantém o homem no centro das atenções e como guia do conhecimento e do saber, é portanto, um historicismo epistemológico[1] que tem a história como supra-sumo da reflexão teórico-metodológica das ciências humanas; um historicismo cosmológico, que propaga a História na essência do próprio real, bebendo no viés do evolucionismo científico, todavia não estabelece um rigor avaliativo nas reflexões sobre o ser, os fenômenos, a existência.

Encontramos em Michael Löwy[2] (1985: 68,71) as três premissas fundamentais e básicas do historicismo:
1. Todo e qualquer fenômeno histórico pode ser compreendido pela História, dentro da História, em relação ao processo histórico;
2. Ressalta a diferença fundamental entre fato histórico e fato natural, sendo de caráter qualitativo diferentes;
3. De que o historiador – na qualidade de investigador, pesquisador – assim como seu objeto de pesquisa, está imerso no curso da História.

Essas premissas fogem dos limites da escola historicista e podem ser encontradas em autores como Hegel, Kant ou ainda em Dilthey[3]. Segundo Dilthey, enquanto o cientista natural limita-se a uma explicação externa aos fenômenos o historiador, na qualidade de cientista social, tem o dever de compreender o fenômeno chegando a seu significado. Então Dilthey encontra uma profunda contradição no historicismo: se por um lado ele, como ciência, vai à busca do conhecimento objetivo, por outro cada obra científica está vinculada a um modo de ver o mundo. Essa visão de mundo, que eu prefiro conceituar como posições, limita e torna unilateral a interpretação da realidade levando uma expressiva restrição à produção do conhecimento histórico. Isso é claro, é a visão de Dilthey enquanto crítico ferrenho do posicionamento ecléticao quanto aos fatos e as interpretações.


Historicismo relativista

Não existe uma ou “a” verdade, o que existem, no plural, são as verdades, que são resultado de pontos de vista individuais de posicionamentos específicos dentro de, por exemplo, uma convecção dogmática religiosa ou posicionamento político.

Embora, uma interpretação pessoal leve a resultados parciais e unilaterais, para Droysen[4] isso não é um problema, ele refuta a idéia de uma História singularmente objetiva e defende a tese de que a História verdadeira não pode ser levada à neutralidade, que a verdade é relativa. Se a interpretação é de esquerda, direita, centro ou conservadora, liberal, em fim, a história pode sim ser resultante de pontos de vista, de posicionamentos políticos ou outras alegorias, no mais, embora o comum e o geral sejam aceitos por todos os historiadores não se deve esquecer que somente depois de tomarmos posições é que chegaremos a um conhecimento mais rico elaboradamente, justificando assim o parcial o unilateral e o relativismo.



1. Epistemologia ou teoria do conhecimento (do grego [episteme], ciência, conhecimento; [logos], discurso) é um ramo da filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados à crença e ao conhecimento. Em educação e filosofia da educação seria o estudo crítico das vários métodos didático-pedagógicos
2. Michael Löwy (São Paulo, 6 de maio de 1938) pensador marxista brasileiro radicado na França, diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique.
3. Georg Wilhelm Friedrich Hegel foi um dos mais influentes filósofos alemães do século 19. Escreveu sobre psicologia, direito, história, arte e religião. Immanuel Kant, O filósofo alemão, nascido em 22 de Abril de 1724 é em geral, considerado o pensador mais influente e o último grande filósofo dos princípios da era moderna. Wilhelm Dilthey (Wiesbaden, 19 de novembro de 1833 — Siusi allo Sciliar, 1 de Outubro de 1911) foi um filósofo, psicólogo e pedagogo alemão.
4. Johann Gustav Droysen, Treptow an der Rega, Pomerania, 1808-Berlín, 1884) Filólogo, historiador y político alemán. Propugnó la unificación de Alemania y el papel directivo que debía tener Prusia. En 1848 fue elegido miembro del Parlamento de Frankfurt. Su obra más importante es Historia de la política prusiana, en 14 volúmenes (1855-1886), que dejó inacabada.


Bibliografias Relacionada

BLOCH, Marc. INTRODUÇÃO À HISTÓRIA. Europa-América, Sintra, 1976.
BRAUDEL, Fernand. HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS. Editorial Presença, Lisboa, 1972.
BURKE, Peter. HISTÓRIA E TEORIA SOCIAL. Unesp, São Paulo, 2002.
LOWY, Michael .AS AVENTURAS DE KARL MARX CONTRA O BARÃO DE MUNCHHAUSEN. Busca Vida, São Paulo, 1987.
CHARTIER, Roger. A HISTÓRIA CULTURAL ENTRE PRÁTICAS E REPRESENTAÇÕES. Bertrand, Rio de Janeiro, 1990.
FEBVRE, Lucien. COMBATES PELA HISTÓRIA. Editorial Presença, Lisboa, 1985.
GOFF, Jacques; NORA, Pierre (org.). HISTÓRIA: NOVOS PROBLEMAS, NOVAS ABORDAGENS, NOVOS OBJETOS. Francisco Alves, 3 vol., Rio de Janeiro, 1976.
MEINECKE, Friedrich. EL HISTÓRICISMO Y SU GENESIS. Fondo de Cultura Economica, México, 1943.
TÉTART, Philippe. PEQUENA HISTÓRIA DOS HISTORIADORES. EDUSC, Bauru, 2000.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Quando a vida se torna uma mercadoria



by Douguera

Uma economia de mercado é aquela em que a totalidade das mercadorias são produzidas para fins lucrativos, ou seja, para serem vendidas. Uma sociedade de mercado, por sua vez, é conseqüência ultrajante do desenvolvimento da economia de mercado e é nesse ponto que, além das mercadorias, o próprio homem passa a ser tragado e subordinado pelo mercado.


Para se ter uma idéia mais clara a respeito de como é tamanha a dependência do homem para com o mercado, vejamos, por exemplo, o encontro do G 20, grupo que reúne os países ricos e os principais emergentes, que ocorreu em Londres no último dia 2 de abril (ano de 2009): o anfitrião, primeiro ministro inglês, Gordon Brown, deixou bem claro em entrevista que a intenção do encontro era a de “acalmar o mercado”, como se ele fosse um bicho encurralado pronto a pular na jugular do homem. O fato é que, o homem passou a viver do mercado e não sabe mais viver sem ele, ao ponto de a própria honra, jóia humana preciosa na Idade Média, estar sujeita a corruptibilidade do escambo, da troca, da venda.


O mercado, para autores a exemplo de Karl Polanyi, é algo satânico devorador de vidas humanas. O pior é que a entidade maligna se tornou auto-regulável a partir do advento do liberalismo e a ascensão das democracias liberais no século XVIII, as pessoas então passaram a viver de mercado, ao ponto de a própria vida humana se tornar uma mercadoria. E ao tentar ariscar uma definição mais sensata para mercadoria, encontramos que: "seria tudo aquilo produzido pelo trabalho humano para gerar renda". E como explicar então o caso de países africanos, onde mulheres engravidam para vender suas crias, isso é claro para não dizer da escravidão.



"O trabalho dignifica o homem". Diferentemente do que algumas pessoas acham o trabalho em si não é uma mercadoria, agora, a capacidade de trabalho essa sim é uma mercadoria, lucrativa e que está intimamente associada ao físico e ao psicológico do homem, ou seja, a vida do portador da capacidade de trabalho. Conseqüêntemente a vida está sendo comercializada como um objeto, e as pessoas se vendem a suaves e suadas prestações (o salário mínimo).


Bibliografias:

POLANYI, Karl. A Grande Transformação: As Origens de Nossa Época. Tradução de Fanny Wrobel. Rio de Janeiro: Campus, 1980 (1. ed. inglesa 1998).

HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX, 1914 - 1991. Tradução Marcos Santarrita. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 20001.

Escravidão Antes e nos Dias de Hoje. disponível em: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2007/10/398943.shtml. acessado em 03/04/2009.