terça-feira, 17 de março de 2009

Coisas da Pontualidade Britânica


Quem já não ouviu falar da sagaz pontualidade britânica? E quem já não ouviu falar em sua primazia na Revolução Industrial? Pois é, alguns historiadores colocam tanta lenha na fogueira a mercê deste assunto, que acabam atirando no próprio pé. A dita Revolução não foi tão somente uma mera aceleração do crescimento econômico, mas sim uma aceleração do crescimento em virtude de transformações econômicas e sociais. Segundo o qual o lucro do privado, auxiliado pelo Estado, levou à importantes transformações. Embora, seja a dita a primeira da história, não significa que tenha começado do zero, ou ainda que não se possa apontar outras fases anteriores de rápido desenvolvimento industrial e tecnológico.


Sendo a Inglaterra a pioneira, as ditas Revoluções posteriores puderam utilizar da experiência e do exemplo britânico, só não usaram da pontualidade pois fizeram suas Revoluções um tanto quanto tardias. A América Latina então, essa só foi fazer Revolução nó século XX.


Um ponto fundamental é que não sejamos “britanicocêntricos” ao ponto de tentarmos explicar a Revolução Industrial em termos puramente britânicos, seria tolice demasiada, uma vez que esse país estava inserido em um contexto muito mais amplo que alguns gostam de chamar de “economia européia” ou para os mais excêntricos, “Economia Mundial dos Estados Marítimos Europeus” (fluxos econômicos – comércio, pagamentos, transferência de capitais, migrações, Essas coisas), assim tem que ser levado em conta às condições mercadológicas externas.


Outro ponto, ou diria problema, é o de nos deixarmos levar por uma única interpretação da realidade. Embora não possamos ter a verdade absoluta, o que seria muita presunção, podemos sim contemplar todas as hipóteses que buscam explicar esse processo e retirar delas várias discussões sobre o tema, que de forma mais ou menos significativas podem contribuir para nossa interpretação. E. J. Hobsbawm, notório e fervoroso marxista, por exemplo, refuta qualquer possibilidade de influências das questões climatobotânicas, de relevo e de outros fatores exógenos. A umidade de Lancashire (condado da Inglaterra) a distribuição de recursos a exemplo do carvão mineral, a fácil acessibilidade ao oceano, em fim, podem não ser e não são “a” explicação para a realidade, todavia não se pode negar que seria inconcebível que um país sem qualquer acesso a portos pudesse ter sido o pioneiro da dita Revolução, e cá entre nós, ter enterrado de baixo dos próprios pés a fonte de energia que ira mover o carro da industrialização - o carvão mineral -, foi muito propício para os pontuais britânicos e suas caldeiras.


Mas, desde início dos anos setecentos, a Inglaterra criara as condições pré-revolucionárias perfeitas: O campesinato já quase extinto e quase não se falava mais em agricultura de subsistência. O país, como um bom pagador, estava com as finanças em dia, assim como tinha capital acumulado para permitir os investimentos e, um ponto fundamental, os transportes e a comunicação eram uma bagatela. Nenhum país naquele presente século XVIII tinha essas condições, outros demorariam até o século XX para tal proeza. Havia obstáculos? Sim, haviam aos montes, meio século para ser preciso, mas os ingleses tinham as condições sociais e econômicas fundamentais para superá-los.


O seu mercado externo era a sua porta principal para o progresso desenvolvimentista e o mercado interno sua saída de emergência em caso de crises externas – o mercado interno socorreu o país em 1780 durante a Revolução Americana e novamente nas Guerras Napoleônicas. Era a fome com a vontade de comer. E comendo a população crescia a partir de 1770, por sinal bastante rápido para os padrões da época, e as taxas de mortalidade e natalidade decresciam de forma relativamente agradável a partir de 1870. Mais gente significa mão-de-obra em maior quantidade e mais barata, mais consumidores acarretando no estimulo virtuoso da economia. Para alguns países subdesenvolvidos o excesso populacional poderia ser uma problemática infeliz, que produzia estagnação e recessão.


Então, por que a Inglaterra e não Portugal? E por que no século XVIII e não antes ou depois, tanto faz? As respostas não podem e não serão simples. O fato é que o país soube aproveitar suas oportunidades a justos méritos. Inserido na ótica capitalista de promover o crescimento econômico, sanando os anseios e desejos de sua burguesia, criou-se as condições perfeitas para dita Revolução Industrial. Todavia não havia, a princípio, o objetivo de fazer uma revolução, tão somente enriquecer, deste modo os ingleses acumularam uma série de fatores favoráveis.


Por fim, três fatores são fundamentais de serem analisados: o apoio e o aval do Estado, o governo estava disposto a subordinar todas as suas forças políticas a objetivos econômicos; desenvolvimento do mercado interno, salvaguarda nos momentos críticos; e o crescimento voluptuoso do mercado externo. Esses fatores criam, portanto, um conjunto de condições favoráveis que, inconscientemente voltara-se para a Revolução Industrial. Coisas da pontualidade Britânica.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOBSBAWN, Eric. J. A Origem da Revolução Industrial.

POLANYI, Karl. A Grande Transformação.



Recomendações do artigo pela amiga Lucinha:


Muito irônico quando o autor coloca sobre a revolução ter sido chamada de “primeira” e não ter se iniciado do zero. Concordo plenamente quando diz que muitos historiadores acabam por acertar os próprios pés no que tange a concepção de sociedade britânica e dos bens sociais da época.


O tema abordado torna-se atrativo pelo ponto de vista exposto pelo autor, que por sua vez enfatiza a necessidade de olharmos a história amplamente com maiores pareceres e críticas sobre o que tange a verdadeira história da revolução. Sei que sua crítica tem embasamento suficiente para deixar o leitor curioso a respeito do que realmente aconteceu e o porquê de tanta sutileza e sugestibilidade na Inglaterra daquela época.


Naquele momento de ascensão industrial e com toda a capacidade para ser um dos melhores momentos históricos, acabaram se esquecendo de perceber bem mais que uma revolução, que o crescimento da indústria, ou que a mobilização de muitos países para que o crescimento inglês se desse de forma a mutuamente ajudarem uns aos outros. Esqueceram de um ponto fundamental que o autor frisa em seu artigo, “a sociedade” sua condição no decorrer de tanta barbárie, cujas taxas de mortalidade e natalidade decresciam de forma relativamente agradável, afinal, como o próprio autor cita “mais gente significa mão-de-obra em maior quantidade e mais barata, mais consumidores acarretando no estimulo a economia”. Para alguns países subdesenvolvidos isso poderia ser uma problemática infeliz, que produzia estagnação e recessão, mas esse não era o caso da Inglaterra que por sua vez soube bem como resolver seus dilemas políticos e sociais da época e por esse motivo teve seus méritos com a revolução.


O ponto de vista do autor deixa claro que diante de tantas dúvidas pendentes e sugestões históricas há bem mais que possamos imaginar a respeito de tal feito histórico, e por isso vale a pena tentar compreender melhor os olhares ocultados através de séculos. Ver além das palavras contadas, ler nas entrelinhas do tempo, isso sim nos difere dos outros e nos torna bem críticos ao ponto de gerarmos dúvidas sequer cogitadas um dia ou caso tenham sido cogitadas creio que foram abafadas para o bem maior Inglês.


Luciana Gonçalves Amorim, para os amigos Lucinha, é Formada em Magistério com habilitação para séries iniciais, Pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional, Especializada em Parapsicologia com ênfase em Formação Humana e atualmente Curso o 4º período de Pedagogia com Licenciatura Plena. Obrigado Lu pela contemplação.

2 comentários:

Dan disse...

O relogio, bem como a pontualidade britânica, são frutos da Revolução Industrial, o tempo da era não industrializada corria de acordo com a natureza. Existe umtexto muito legal sobre isso, mas não me lembro de quem, coisas de professor velho. Agora não defenda muito a Inglaterra, as condições pré-revolucionárias perfeitas, foram construidas com muitas injustiças e às custas da fo,me de muita gente. Ler o proprio Hobsbawn, Thompson e Christopher Hill.

Revista Commento disse...

Dando continuidade a matéria, e relacionando-a no que estou estudando. A Revolução industrial foi um fator culminante para o surgimento dos teóricos da administração industrial. Quando substituiu o trabalho do homem, a sua força motriz muscular por máquinas. Ocasionando a aceleração da produtividade e consequentemente a necessidade de uma organização. Digo esta organização de teórico-experimental, nem sei se é o correto. Mas sendo estas, estudos metodológicos para sua eficiência e produtividade.

Att,

Renan.